Rússia, EUA e Ucrânia fazem 1ª reunião trilateral desde 2022
Rússia, Estados Unidos e Ucrânia se reúnem nesta sexta-feira (24) em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, na primeira negociação trilateral conhecida desde 2022. O encontro tenta destravar conversas de paz em meio ao impasse sobre o futuro do Donbas, região industrial no leste da Ucrânia.
Primeiro contato direto desde o início da guerra
A delegação russa deixa Moscou na manhã desta sexta, após receber instruções diretas do presidente Vladimir Putin. O Kremlin confirma que o grupo segue para Abu Dhabi para se encontrar com representantes dos Estados Unidos e da Ucrânia, em um movimento que recoloca Washington formalmente na mesa de discussões com os dois lados, quatro anos depois do início da invasão russa.
O porta-voz Dmitry Peskov afirma que a reunião ocorre hoje e pode se estender até sábado (24), dependendo do avanço das conversas. O horário exato só é definido com a chegada das delegações à capital dos Emirados. O formato trilateral, com os três países presentes, não se repete desde 2022, quando as tentativas iniciais de cessar-fogo fracassam em meio à escalada militar no leste ucraniano.
A movimentação em direção aos Emirados começa após uma sequência de diálogos reservados entre Putin e o enviado dos EUA Steve Witkoff, o genro de Donald Trump, Jared Kushner, e o conselheiro sênior de Trump, Josh Gruenbaum. Esses contatos funcionam como antecâmara para o encontro de hoje, que se concentra na situação do Donbas e na possibilidade de rearranjos territoriais.
Do lado ucraniano, a equipe inclui o vice-chefe do gabinete presidencial e chefe do Estado-Maior General, Andrii Hnatov. A presença de um alto comandante militar sinaliza que os termos discutidos podem mexer diretamente com o mapa do front e com as linhas de defesa erguidas desde 2022.
Donbas no centro da disputa
O ponto mais sensível sobre a mesa é o futuro do Donbas, área que reúne as regiões de Donetsk e Luhansk. As forças russas já controlam quase toda Luhansk e parte de Donetsk. Moscou insiste em uma condição que Kiev rejeita: a retirada das forças ucranianas dos cerca de 20% de Donetsk que ainda resistem às tropas russas, área estimada em 5.000 km².
“A posição da Rússia é bem conhecida: as forças armadas ucranianas devem deixar o Donbas, devem se retirar de lá; esta é uma condição muito importante”, reforça Peskov. O recado indica pouca margem de flexibilização por parte do Kremlin e deixa claro que qualquer avanço depende de concessões ucranianas em território considerado estratégico para a economia e a segurança do país.
O impasse não é novo. Em 2022, Moscou anuncia a anexação de quatro regiões ucranianas, incluindo Donetsk e Luhansk, com base em referendos rejeitados por Kiev e por países ocidentais como uma farsa. O presidente Volodymyr Zelensky afirma repetidas vezes que não vê motivos para ceder territórios reconhecidos internacionalmente como parte da Ucrânia e vincula qualquer acordo duradouro à restauração das fronteiras anteriores à invasão.
Enquanto diplomatas negociam em salas fechadas em Abu Dhabi, soldados seguem em combate nas linhas de frente, especialmente nas franjas de Donetsk que a Rússia ainda não consegue tomar. A resistência ucraniana nessas áreas tem custo alto em vidas e infraestrutura, mas impede que Moscou consolide o controle sobre todo o Donbas e fortalece a posição de Kiev nas conversas.
Economia, geopolítica e a vida no front
A agenda em Abu Dhabi não é apenas militar. O enviado especial de Putin, Kirill Dmitriev, tem encontro separado com Steve Witkoff para discutir temas econômicos. As conversas giram em torno de sanções, investimentos sob pressão e possíveis brechas para retomada seletiva de fluxos financeiros, em especial ligados a energia, logística e reconstrução futura.
A guerra redesenha não só o mapa da Ucrânia, mas o equilíbrio de forças na Europa e na Ásia Central. Uma eventual retirada ucraniana de partes de Donetsk consolidaria ganhos territoriais russos e poderia ser lida como sinal de enfraquecimento do princípio de integridade territorial que sustenta a ordem internacional desde o fim da Segunda Guerra. Para Kiev, ceder 5.000 km² significa abrir um precedente para novas exigências.
Os civis em Donbas seguem no centro da tempestade. Desde 2022, milhões deixam suas casas, enquanto cidades industriais veem usinas, ferrovias e minas virarem alvo de mísseis e artilharia. Qualquer ajuste de fronteira negociado em Abu Dhabi impacta diretamente quem permanece na região, definindo sob qual bandeira essas pessoas viverão, que moeda usarão e que proteção legal poderão exigir.
Nos bastidores, diplomatas europeus acompanham à distância. A União Europeia mede cada palavra russa e ucraniana para calibrar ajuda militar e econômica. Washington tenta equilibrar o apoio a Kiev com a necessidade de evitar um choque direto com Moscou, enquanto lida com pressões internas em ano eleitoral e com o peso político de figuras como Trump, cujo círculo próximo participa das articulações.
O que esperar de Abu Dhabi
As delegações chegam aos Emirados sem expectativa pública de um cessar-fogo imediato, mas com a consciência de que este é o primeiro canal direto entre os três atores centrais da guerra desde 2022. O encontro pode abrir uma nova fase de negociação, com rodadas temáticas sobre segurança, economia e reconstrução, mesmo que o Donbas permaneça como ponto de ruptura.
Peskov evita detalhar os cenários em discussão e se limita a dizer que a Rússia não abre mão de suas exigências territoriais. Do lado ucraniano, a linha oficial também permanece rígida em relação à integridade territorial. Entre essas duas posições, os Estados Unidos tentam testar fórmulas que reduzam a intensidade dos combates sem premiar, aos olhos do Ocidente, o uso da força para redesenhar fronteiras.
Os próximos dias indicam se Abu Dhabi será lembrada como mera foto diplomática ou como o início de uma negociação efetiva. Enquanto não há acordo, o relógio segue correndo para soldados nas trincheiras, civis em abrigos e governos que tentam evitar que a guerra no leste da Ucrânia se transforme em um conflito ainda mais amplo.
