Ultimas

Rússia e Ucrânia disputam guerra de camuflagem contra drones em cidades

Soldados russos desenvolvem, desde 2025, redes de camuflagem que imitam pilhas de entulho para driblar drones ucranianos em zonas urbanas de combate. A técnica esconde de fuzis a veículos leves e já provoca resposta de voluntários ucranianos, que correm para criar versões próprias do sistema.

Entulho falso vira abrigo em guerra dominada por drones

Vídeos publicados em redes sociais por integrantes das Forças Armadas russas mostram estruturas que se confundem com restos de obras. O que parece ser um amontoado de tijolos, blocos de concreto e pedaços de laje é, na verdade, uma rede de camuflagem moldada para enganar câmeras aéreas. Sob essa cobertura, soldados escondem armas, quadriciclos, motocicletas e até pequenos veículos táticos.

As imagens ganham força a partir de 2025, em meio à intensificação do uso de drones na guerra na Ucrânia. Em cenas gravadas em cidades parcialmente destruídas, as “pilhas” se encaixam na paisagem de prédios bombardeados e ruas tomadas por destroços. De cima, um drone vê mais um monte de lixo de construção. No chão, os militares ganham alguns segundos preciosos para se mover, recarregar ou emboscar o inimigo.

O material combina peças que imitam tijolos e concreto, estruturas de poliestireno, espuma de borracha, arame e camadas de tinta aplicadas para reproduzir textura e cor do entorno. A lógica é simples: reproduzir não só a forma, mas também sombras, manchas e irregularidades que um operador de drone espera ver em uma área bombardeada. A fabricação é artesanal, mas segue um padrão que se repete em diferentes frentes do conflito.

Em um dos vídeos mais compartilhados, um perfil ucraniano ironiza a invenção russa: “Russian troops have invented a new ‘type of camouflage’. Now they will disguise themselves as piles of trash”. A provocação vem acompanhada de um alerta: em campo aberto, especialmente em áreas cobertas de neve, qualquer “montinho de lixo” fora de lugar vira alvo imediato. A eficácia, portanto, depende do contexto urbano, onde escombros reais já dominam o cenário.

Corrida tática entre drones e camuflagem

A disputa em torno das redes de entulho falso traduz uma mudança estrutural na guerra. Desde 2022, o uso de drones explode no front ucraniano, de modelos comerciais adaptados a aeronaves militares equipadas com munições guiadas. Em 2025, militares e analistas já descrevem o campo de batalha como um “tabuleiro de xadrez visto de cima”, no qual qualquer movimento desprotegido dura poucos minutos antes de ser detectado.

Com câmeras de alta resolução, sensores térmicos e softwares de reconhecimento de padrões, os drones passam a caçar não só tropas em marcha, mas também depósitos improvisados de munição, pontos de apoio logístico e rotas de fuga. As equipes russas respondem com uma solução de baixo custo, desenvolvida longe dos grandes centros de pesquisa militar. São oficinas de campanha, galpões adaptados e grupos de soldados que aprendem, por tentativa e erro, qual forma convence mais na tela do operador inimigo.

Relatos de campo indicam que as primeiras experiências ocorrem ainda antes de 2025, mas ganham escala a partir desse ano, quando vídeos e tutoriais começam a circular em canais de Telegram e perfis de X voltados a militares e voluntários. O método se espalha rápido porque usa materiais baratos, encontrados em praticamente qualquer depósito de construção. Em alguns casos, os próprios restos de prédios demolidos servem de molde visual para as peças falsas.

Do lado ucraniano, voluntários relatam pedidos crescentes para desenvolver mecanismos semelhantes. Usam poliestireno, espuma de borracha e bases de arame, reproduzindo o mesmo princípio russo de imitar escombros urbanos. A diferença está mais no desenho do terreno do que na tecnologia. Cada lado ajusta a camuflagem à arquitetura de cidades onde atua, da periferia industrial às áreas residenciais destruídas por bombardeios sucessivos.

Especialistas em defesa ouvidos por veículos internacionais descrevem essa corrida como um novo capítulo da guerra assimétrica. “A vantagem não é só de quem tem o drone mais sofisticado, mas de quem consegue desaparecer do campo de visão por mais tempo”, resume um analista militar europeu em conversa com a imprensa no fim de 2025. Na prática, o equilíbrio entre ver e não ser visto volta ao centro da estratégia, como nas guerras de trincheira do século 20, agora traduzido em imagens de alta definição.

Próximo passo: algoritmos contra o entulho artificial

A adoção massiva das redes que imitam entulho tende a acelerar o desenvolvimento de contramedidas digitais. Empresas de tecnologia militar e grupos de pesquisa universitários já trabalham em algoritmos capazes de identificar padrões sutis que diferenciam uma pilha real de escombros de uma estrutura artificial. Texturas repetidas, ângulos improváveis e variações de calor podem denunciar a presença de um abrigo camuflado.

Drones equipados com sensores térmicos, radares de penetração no solo e inteligência artificial para análise em tempo real são apontados como o próximo salto nessa disputa. Se essas ferramentas se consolidarem, soldados russos e ucranianos terão de reinventar, mais uma vez, suas formas de desaparecer do céu. O jogo de gato e rato entre quem observa e quem se esconde tende a encurtar ciclos de inovação que, em conflitos anteriores, levavam anos.

No campo, a consequência imediata é clara: cada nova camada de camuflagem pode prolongar a sobrevivência de pequenas unidades, mas também aumenta o risco para civis que vivem em áreas destruídas. Montanhas de entulho verdadeiro e falso se misturam em bairros parcialmente evacuados, dificultando operações de resgate e inspeção após ataques. Para quem ainda resiste nas cidades em ruínas, distinguir abrigo de alvo militar torna-se tarefa quase impossível.

A guerra urbana na Ucrânia entra em 2026 marcada por essa paisagem de escombros fabricados. A tendência é que o modelo se espalhe para outros conflitos, em especial em países com grandes centros urbanos e acesso amplo a drones comerciais. Exércitos observam, anotam e adaptam. A pergunta em aberto, para os próximos anos, é se novas tecnologias de detecção conseguirão, de fato, enxergar além do entulho artificial ou se a criatividade de soldados e voluntários manterá a vantagem de desaparecer, por alguns instantes, sob uma pilha de concreto que não existe.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *