Rússia e Irã fazem exercício naval em meio a pressão militar dos EUA
Rússia e Irã realizam, em meados de fevereiro de 2026, exercícios navais conjuntos no Golfo de Omã. As manobras ocorrem em meio ao reforço militar dos EUA na região e a negociações sensíveis sobre o programa nuclear iraniano.
Moscou e Teerã exibem alinhamento em corredor estratégico
O Golfo de Omã, porta de entrada do estreito de Ormuz e rota de cerca de 20% do petróleo transportado por mar no mundo, volta ao centro das tensões globais. Uma corveta da Marinha russa cruza, lado a lado, com navios iranianos em manobras coordenadas. No convés, equipes treinam comunicações, simulações de abordagem e resposta a ameaças, sob o olhar de oficiais dos dois países.
O Ministério da Defesa russo confirma que a corveta participa de operações conjuntas com a marinha iraniana ao longo da semana. Do lado iraniano, o contra-almirante Hassan Maghsoodloo, porta-voz do exercício, afirma que o objetivo é “promover a segurança marítima e interações sustentáveis entre as forças navais”. A mensagem oficial fala em cooperação técnica, mas a leitura política em capitais ocidentais é de um recado direto a Washington.
O movimento ocorre poucos dias depois de os Estados Unidos deslocarem novos navios de guerra para áreas próximas ao Irã. Em janeiro e início de fevereiro, destróieres e ao menos um navio de apoio logístico reforçam a presença militar americana no entorno do estreito de Ormuz, ponto de estrangulamento para o fluxo de petróleo e gás do Golfo Pérsico.
Em Moscou, o Kremlin fala em “escalada sem precedentes” das tensões em torno do Irã após o envio de recursos militares adicionais dos EUA ao Oriente Médio. O governo russo pede “prudência e moderação” a Teerã e a “outras partes”, em referência velada a Washington e aos aliados europeus, enquanto, na prática, aproxima ainda mais suas forças das do regime iraniano.
Exercício militar amplia disputa de influência no Oriente Médio
Os exercícios navais russo-iranianos marcam um novo capítulo na parceria estratégica firmada formalmente entre os dois países nos últimos anos. O acordo não prevê defesa mútua automática, como em alianças militares clássicas, mas consolida cooperação em defesa, energia e tecnologias sensíveis. A presença de uma corveta russa operando ao lado de navios iranianos em um corredor vital para o comércio global transforma o documento em gesto concreto.
A iniciativa se soma ao contexto sensível das negociações sobre o programa nuclear iraniano. Em diferentes capitais, diplomatas tentam, desde o fim de 2025, destravar conversas sobre limites ao enriquecimento de urânio e inspeções internacionais. Teerã insiste que não busca armas atômicas; o próprio presidente iraniano declara que o país “não pretende ter acesso a armas nucleares”. Ainda assim, desconfianças persistem entre EUA, Europa e Israel, que pressionam por restrições adicionais.
No terreno militar, Washington responde com demonstrações de força. Aumenta o número de navios na região, intensifica voos de vigilância e divulga imagens de suas embarcações cruzando rotas próximas ao Irã. Em paralelo, autoridades americanas sinalizam que “todas as opções seguem sobre a mesa” se as negociações nucleares fracassarem, repetindo uma fórmula que ecoa crises anteriores no Oriente Médio.
Ao acionar seus próprios ativos navais, Rússia e Irã indicam que pretendem ter voz mais alta na gestão da segurança marítima na região. Para Teerã, a cooperação com Moscou ajuda a reduzir o isolamento e a mostrar que sanções econômicas e pressões militares não impedem a construção de novas alianças. Para a Rússia, o exercício reforça a imagem de potência capaz de desafiar o domínio americano em diferentes mares, mesmo com o país envolvido em outros focos de tensão.
O efeito imediato é um ambiente mais carregado para empresas de navegação, seguradoras e companhias de energia que dependem da passagem diária de petroleiros pelo Golfo de Omã. Qualquer incidente, mesmo limitado, pode elevar prêmios de seguro, desviar rotas e pressionar preços internacionais de petróleo em questão de horas, como já aconteceu em crises anteriores na década passada.
Risco de erro de cálculo cresce e deixa negociações mais frágeis
Especialistas em segurança alertam que a multiplicação de navios de guerra em uma área relativamente estreita aumenta o risco de erro de cálculo. Uma aproximação mal interpretada, um disparo acidental ou um exercício mal comunicado podem desencadear uma escalada que nenhum dos lados deseja oficialmente. O histórico recente na região inclui ataques a petroleiros, drones abatidos e trocas de acusações sobre sabotagens, sempre com impacto imediato em mercados.
No plano diplomático, a presença russa ao lado do Irã complica o cálculo dos Estados Unidos e de seus aliados. Qualquer movimento mais duro contra Teerã passa a levar em conta a possibilidade de uma reação coordenada com Moscou, ainda que os dois países não tenham compromisso formal de defesa conjunta. A imagem de navios russos manobrando com embarcações iranianas envia o recado de que o custo político de uma ação militar aumentou.
As manobras também podem pesar nas mesas de negociação sobre o programa nuclear. Ao exibir capacidade de atrair apoio militar de outra potência, Teerã tenta reforçar sua posição barganhadora. Moscou, por sua vez, sinaliza que pode usar sua influência junto ao Irã como ficha em outros tabuleiros, das sanções econômicas às conversas sobre segurança europeia e energia.
Para países do Golfo, que dependem diretamente da estabilidade das rotas marítimas, o novo quadro inspira cautela. Governos que mantêm bases americanas em seu território observam com atenção o avanço da cooperação russo-iraniana, avaliando se precisam ajustar compras de armamentos, acordos de segurança e canais de diálogo com Teerã. A tendência é de reforço de defesas aéreas e navais, à medida que o Golfo de Omã se consolida como palco de disputa entre grandes potências.
Próximos passos sob pressão de navios, sanções e mesas de negociação
Os exercícios no Golfo de Omã não devem ser os últimos. Autoridades em Moscou e Teerã já falam em novas rodadas de cooperação naval e em treinamentos conjuntos mais complexos, incluindo simulações de resgate, operações contra pirataria e defesa de comboios de navios mercantes. O cronograma, porém, tende a depender do ritmo das negociações nucleares e do grau de pressão militar dos Estados Unidos.
No curto prazo, diplomatas avaliam que a prioridade das grandes potências será evitar que a exibição de força se converta em confronto direto. A capacidade de Washington, Moscou e Teerã de manter canais de comunicação abertos entre suas marinhas pode definir se o Golfo de Omã continuará sendo apenas vitrine de poder ou se se tornará o próximo epicentro de crise no Oriente Médio.
