Rússia e China vetam resolução sobre abertura do Estreito de Ormuz
Rússia e China vetam, nesta terça-feira (7.abr.2026), uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que buscava abrir o Estreito de Ormuz a um controle internacional ampliado. A decisão atende aos interesses do Irã, que agradece publicamente o gesto e mantém sob sua órbita o comando sobre uma das rotas mais sensíveis do petróleo mundial.
Disputa em torno de uma rota vital do petróleo
O projeto derrubado em Nova York previa mudanças na forma de administrar o Estreito de Ormuz, corredor por onde já circulam, em tempos normais, cerca de 20% do petróleo comercializado no planeta. A proposta buscava ampliar a participação de organismos multilaterais na coordenação do tráfego marítimo, reduzindo a margem de decisão de Teerã em momentos de crise.
A votação expõe, em poucos minutos, uma disputa que se acumula há décadas. Estados Unidos e aliados árabes pressionam por maior previsibilidade no fluxo de navios, apontando riscos recorrentes a petroleiros, ataques com drones e apreensões de embarcações. Rússia e China, que desde 2020 aprofundam laços energéticos e militares com o Irã, decidem usar o poder de veto para bloquear qualquer tentativa de rearranjo no controle da passagem.
Diplomatas ouvidos nos corredores da ONU descrevem uma sessão tensa, em que representantes ocidentais insistem que a resolução não retira a soberania iraniana, mas cria um “mecanismo de segurança compartilhada”. A narrativa não convence Moscou nem Pequim. “Não aceitaremos medidas que, sob o pretexto de segurança, preparem terreno para interferência externa em águas estratégicas”, afirma um diplomata russo, em declaração à imprensa internacional após a reunião.
Minutos depois do resultado, a missão iraniana em Nova York divulga nota em que agradece “aos países amigos que se opuseram a iniciativas desequilibradas e politizadas”. No texto, Teerã sustenta que o Estreito de Ormuz “permanece aberto às rotas comerciais legítimas” e que qualquer alteração em seu regime de navegação precisa ser negociada diretamente com o governo iraniano e com os países ribeirinhos do Golfo.
Interesses energéticos e cálculo de poder
O veto interrompe, ao menos por ora, uma articulação que vinha sendo construída desde o fim de 2025, quando ataques a navios petroleiros elevaram os prêmios de seguro marítimo na região em mais de 30% em poucas semanas. Representantes de países importadores de energia, da Europa à Ásia, passaram a pressionar discretamente membros permanentes do Conselho de Segurança por um arranjo mais previsível para Ormuz.
O corredor separa o Irã da península Arábica e serve de saída para o petróleo de grandes produtores como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Kuwait. Qualquer ameaça de fechamento, mesmo que temporário, repercute imediatamente nas cotações internacionais. Em 2019, apenas a sinalização de bloqueio por parte do Irã provocou alta de quase 10% no barril de Brent em poucos dias, lembram analistas do mercado.
A decisão de Moscou e Pequim reforça o alinhamento com Teerã em uma região em que os três países ampliam presença militar e acordos de longo prazo. A China importa mais de 10 milhões de barris de petróleo por dia e vê no relacionamento com o Irã um seguro estratégico contra eventuais sanções ocidentais a outros fornecedores. A Rússia, sob sanções desde a invasão da Ucrânia em 2022, aposta na coordenação com Teerã para contornar restrições e influenciar a oferta global de energia.
Para os Estados Unidos e parceiros europeus, o recado é claro: qualquer tentativa de mudar o status de Ormuz sem o consentimento direto do Irã e de seus aliados está bloqueada no Conselho. “O veto mina esforços para garantir a segurança de uma via essencial para a economia global”, diz, sob condição de anonimato, um negociador de um país europeu, que calculava a aprovação de ao menos 9 dos 15 membros do colegiado.
Empresas de transporte marítimo monitoram o desfecho com atenção. Grupos de armadores consultados por corretoras de Londres avaliam, em relatórios enviados a clientes nesta semana, que o veto tende a manter os prêmios de risco em patamar elevado, com impacto direto no custo final dos combustíveis. Um gestor de fundo de energia em Singapura resume o quadro: “Quando o tráfego em Ormuz depende do humor político do dia, o mercado inteiro paga”.
Tensões no Golfo e próximos movimentos diplomáticos
O bloqueio à resolução não altera de imediato a circulação de navios pelo Estreito de Ormuz, mas consolida a posição do Irã como porteiro de uma rota vital e reforça o peso de Rússia e China nas grandes decisões multilaterais. O gesto tende a alimentar o ceticismo de países do Golfo em relação à capacidade da ONU de impor ou mesmo arbitrar regras de segurança marítima na região.
Governos árabes que dependem do estreito para exportar petróleo e gás calculam os próximos passos. Alguns consideram acordos bilaterais de segurança com potências navais ocidentais, à margem da ONU, para tentar reduzir o risco de novas interrupções. Outros defendem uma mesa de negociação regional com o próprio Irã, sob mediação de atores neutros, como Omã ou Catar, para fixar protocolos mínimos de incidente e resposta rápida.
No mercado de energia, operadores projetam que qualquer nova crise em Ormuz pode adicionar, em questão de dias, de US$ 5 a US$ 10 ao preço do barril, dependendo da escala do conflito. A memória recente de choques de oferta, da invasão do Kuwait em 1990 à guerra no Iraque em 2003, alimenta a percepção de que o Golfo Pérsico segue sendo um dos principais pontos de vulnerabilidade do sistema energético global.
Especialistas em direito internacional lembram que o Conselho de Segurança continua sendo o único foro com mandato formal para impor sanções, autorizar missões navais e criar regimes especiais de navegação. Mas o episódio desta semana evidencia os limites práticos desse poder quando interesses estratégicos de membros permanentes entram em jogo. “Enquanto existir veto, qualquer arranjo para Ormuz passa antes por Moscou e Pequim”, observa um pesquisador de relações internacionais em Genebra.
Diplomatas esperam novas tentativas de negociação nos próximos meses, possivelmente em formatos menores, fora do Conselho e com foco em medidas técnicas de segurança, como canais de comunicação direta entre marinhas e regras claras para inspeções. Nenhuma delas, porém, terá o peso de uma resolução formal da ONU. A dúvida, para importadores de energia, investidores e governos da região, é quanto tempo o mercado consegue conviver com essa incerteza sem que uma nova faísca transforme o Estreito de Ormuz em epicentro da próxima crise global do petróleo.
