Rússia e China vetam abertura do estreito de Ormuz na ONU
Rússia e China vetam, nesta terça-feira (7.abr.2026), uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que buscava abrir o estreito de Ormuz à navegação internacional. A decisão derruba a iniciativa apoiada por potências ocidentais e mantém o controle prático da passagem nas mãos do Irã.
Disputa se acirra em ponto vital do mapa energético
O voto em Nova York expõe, em tempo real, a disputa de poder em torno de um dos gargalos mais sensíveis do comércio global. Pelo estreito de Ormuz passam, em média, cerca de 20% do petróleo negociado no mundo, segundo estimativas de organismos internacionais, o que faz da faixa de água de pouco mais de 50 km de largura um ponto de pressão permanente entre grandes potências.
A resolução vetada buscava garantir o que seus patrocinadores chamam de “abertura plena, imediata e segura” da passagem para navios de todos os países, sob supervisão internacional. A proposta ganha fôlego após semanas de incidentes navais, ameaças cruzadas e relatos de abordagens a petroleiros na região. Países importadores de energia pressionam por uma resposta rápida, com receio de novos choques de oferta e de alta nos preços.
O resultado da votação confirma, porém, o peso do alinhamento entre Moscou, Pequim e Teerã. A missão diplomática iraniana na ONU agradece publicamente a Rússia e a China por terem usado o poder de veto para derrubar o texto. Em comunicado, classifica a resolução como “interferência inaceitável” na soberania do país e afirma que a segurança no estreito “cabe, em primeiro lugar, às autoridades iranianas”.
A derrota do projeto expõe também o limite da articulação dos países ocidentais dentro do Conselho de Segurança. Estados Unidos, Reino Unido e França defendem que a abertura formal de Ormuz reduziria o risco de escalada militar e daria previsibilidade ao fluxo de barris e gás natural liquefeito que deixam o Golfo diariamente. Sem o aval de Moscou e Pequim, a iniciativa não passa da fase de rascunho.
Interesses energéticos, alianças e mercado em alerta
O veto mantém o status quo num corredor por onde escoam milhões de barris por dia, boa parte deles com destino à Ásia e à Europa. Em mercados financeiros, operadores já precificam o aumento do risco geopolítico. Analistas apontam que qualquer sinal de bloqueio parcial, mesmo temporário, pode empurrar o barril para patamares acima dos US$ 100, com impacto direto na inflação global e em contas de energia doméstica.
Para o Irã, a decisão representa uma vitória política num momento em que o país enfrenta sanções, disputas regionais e pressão militar ao redor de suas fronteiras marítimas. A mensagem enviada pelo Conselho, na avaliação de diplomatas na ONU, é clara: não há consenso sobre a ideia de internacionalizar a segurança do estreito. O gesto reforça a percepção de que Teerã continua a contar com o escudo diplomático de dois membros permanentes do Conselho.
Os patrocinadores da resolução temem o oposto. Sem um acordo multilateral, países afetados podem optar por ações unilaterais para proteger seus navios, de escoltas armadas à ampliação de frotas militares na região. Em 2019, quando petroleiros são atacados e drones são abatidos no Golfo, os EUA enviam navios de guerra adicionais e elevam o grau de prontidão, num movimento que serve hoje de referência para cenários de crise.
Especialistas ouvidos em bastidores diplomáticos avaliam que o veto funciona como recado de Moscou e Pequim sobre o uso de organismos internacionais em disputas de influência na Ásia Ocidental. “Rússia e China enxergam qualquer resolução que limite o espaço de manobra do Irã como um precedente perigoso”, diz um diplomata que acompanha as negociações. Para ele, a votação sinaliza que o eixo entre os três países se fortalece diante da pressão de Washington e de aliados europeus.
Negociações, pressão e incerteza no horizonte
O impasse leva o tema de volta à mesa de negociação em Nova York e em capitais estratégicas. Delegações já discutem textos alternativos, com linguagem mais vaga sobre mecanismos de fiscalização e prazos de implementação, na tentativa de contornar a resistência de Moscou e Pequim. Representantes de países importadores de energia tentam construir uma fórmula que garanta previsibilidade ao tráfego de navios sem ser percebida como invasão da soberania iraniana.
Os próximos dias tendem a trazer novas rodadas de consultas fechadas, tanto no Conselho de Segurança como em fóruns regionais, com o Golfo sob vigilância reforçada. Países com presença militar no entorno, como Estados Unidos, Reino Unido e França, avaliam ajustar rotas, ampliar patrulhas e intensificar o monitoramento por satélite para detectar movimentos suspeitos em tempo quase real. Governos dependentes de combustíveis importados, especialmente na Europa e na Ásia, acompanham a volatilidade dos preços e revisam projeções de crescimento e inflação para 2026.
No plano político, a decisão de Rússia e China alimenta debates sobre o alcance do poder de veto e sobre a capacidade da ONU de reagir a crises em pontos estratégicos do planeta. Reformas no Conselho de Segurança voltam ao radar de países que se dizem reféns das disputas entre os cinco membros permanentes. Até que uma nova proposta ganhe tração, Ormuz permanece como termômetro da tensão entre Teerã e o Ocidente, com Moscou e Pequim ao lado do Irã.
À medida que navios continuam a cruzar o estreito sob a sombra de destróieres, drones e mísseis, a pergunta se impõe nos corredores da ONU: quem, de fato, controlará o fluxo de energia que sai do Golfo se a próxima crise for mais profunda do que a atual?
