Rússia bloqueia WhatsApp, Instagram e Facebook após embate com Meta
O governo da Rússia determina, nesta quinta-feira (12), o bloqueio do WhatsApp, do Instagram e do Facebook em todo o território nacional. A medida atinge milhões de usuários e aprofunda o confronto entre o Kremlin e a gigante americana Meta.
Kremlin endurece controle da internet
A decisão marca um novo passo na política de controle digital russa, construída ao longo da última década. O bloqueio é apresentado como resposta direta à recusa da Meta em adaptar seus serviços às exigências da legislação local, que prevê armazenamento de dados de usuários em servidores dentro do país e possibilidade de acesso pelas autoridades de segurança.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirma que o governo age para proteger a “soberania digital” e a “segurança nacional”. Segundo ele, a Meta é notificada em diversas ocasiões, ao longo de 2024 e 2025, sobre a necessidade de adequação completa às regras russas. “Nenhuma empresa, seja americana, europeia ou russa, está acima da lei da Federação Russa”, diz Peskov, em declaração transmitida pela televisão estatal.
A ordem de bloqueio é implementada pelos órgãos de controle de telecomunicações, que orientam provedores de internet a barrar o acesso aos três aplicativos. Operadoras confirmam restrições progressivas ao longo do dia, com interrupções parciais nas primeiras horas e queda quase total de conexão até o fim da tarde.
Na prática, usuários relatam falhas no envio de mensagens pelo WhatsApp, demora para carregar fotos no Instagram e instabilidade no feed do Facebook já nas primeiras horas da manhã. Em Moscou, empresários que usam os aplicativos para vendas e atendimento a clientes falam em “apagão digital” e tentam migrar às pressas para plataformas locais.
Impacto imediato em milhões de usuários
O bloqueio atinge, de uma só vez, dezenas de milhões de contas ativas na Rússia. Estimativas de consultorias de mercado apontam que mais de 60% dos usuários de smartphones no país usam o WhatsApp como principal canal de comunicação diária. O Instagram, por sua vez, é peça central para pequenos negócios, influenciadores e produtores de conteúdo que dependem da rede para vender e divulgar serviços.
Especialistas em tecnologia calculam que milhares de empresas, sobretudo de comércio eletrônico, moda, beleza e alimentação, concentram mais de 70% de sua interação com clientes nessas plataformas. A interrupção repentina força a adoção de redes locais, como o VKontakte, e o aumento na procura por aplicativos rivais, além do uso de redes privadas virtuais, as VPNs, para driblar o bloqueio.
Analistas de direitos digitais alertam para o efeito político da medida. Organizações independentes classificam o bloqueio como mais um capítulo na erosão da liberdade de expressão online no país. “O governo amplia o controle sobre o que os cidadãos veem, leem e compartilham”, afirma um pesquisador de uma ONG internacional com atuação na região. Ele lembra que veículos de imprensa críticos já enfrentam restrições desde 2022.
A Meta evita comentar detalhes sobre negociações específicas com o governo russo, mas fontes próximas à empresa afirmam que a principal barreira está no nível de acesso exigido pelas autoridades aos dados de usuários e ao conteúdo de mensagens. A companhia insiste publicamente em manter a criptografia de ponta a ponta no WhatsApp e diz que não consegue ler conversas nem fornecer esse conteúdo a terceiros.
Soberania digital, pressão política e próximos passos
O bloqueio se insere em uma estratégia mais ampla do Kremlin de construir um ecossistema digital sob controle doméstico. Ao longo dos últimos anos, a Rússia cria o conceito de “internet soberana”, com leis que permitem isolar a infraestrutura nacional da rede global em situações de crise e que exigem que grandes empresas de tecnologia mantenham representação local, paguem multas e retirem conteúdos considerados ilegais.
Para o governo, o endurecimento serve como recado a outras gigantes estrangeiras que ainda resistem a cumprir exigências regulatórias. A medida também reforça o discurso interno de enfrentamento ao Ocidente, em um momento de tensão diplomática com os Estados Unidos e países europeus. “O Estado tem a responsabilidade de garantir a segurança informacional de seus cidadãos”, declara Peskov, ao ser questionado se o bloqueio não afeta direitos individuais.
Na esfera internacional, diplomatas avaliam que a decisão aumenta a distância entre Moscou e capitais ocidentais. A Meta, sediada na Califórnia, enfrenta, ao mesmo tempo, questionamentos regulatórios na União Europeia, na Índia e em outros grandes mercados, que cobram mais transparência sobre algoritmos, proteção de dados e combate à desinformação. Cada novo conflito nacional pressiona o modelo de negócios da empresa e mina sua imagem como plataforma global e neutra.
Dentro da Rússia, o governo aposta que o vácuo deixado pelas plataformas da Meta será ocupado por aplicativos locais e por empresas alinhadas às regras domésticas. Empreendedores de tecnologia veem chance de crescimento acelerado, mas admitem que a perda de conexão com redes globais reduz o alcance de marcas russas e limita a troca de informação com o resto do mundo.
Usuários recorrem a VPNs para manter contato com familiares fora do país e acessar conteúdos bloqueados, apesar do risco de novas restrições. Especialistas não descartam uma escalada, com o governo apertando o cerco também a esses serviços e ampliando o monitoramento de tráfego de dados.
O impasse entre o Kremlin e a Meta permanece sem prazo para solução. A empresa tenta preservar sua base global de usuários sem abrir mão de princípios que apresenta como não negociáveis, enquanto a Rússia reforça a linha de que nenhuma exceção será feita. O desfecho definirá não apenas o futuro de três dos aplicativos mais populares do mundo em solo russo, mas também o limite do controle estatal sobre a vida digital de centenas de milhões de pessoas.
