Rússia bloqueia WhatsApp, Instagram e Facebook após choque com Meta
O governo russo bloqueia, nesta quinta-feira (12), o acesso ao WhatsApp, Instagram e Facebook em todo o país. A medida atinge milhões de usuários e aprofunda o confronto com a Meta, controladora das plataformas, acusada de descumprir a legislação local.
Choque aberto entre Kremlin e gigante de tecnologia
O anúncio do bloqueio parte do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que apresenta a decisão como resposta direta à resistência da Meta em seguir regras russas para plataformas digitais. A interrupção do serviço ocorre ao longo do dia, com relatos de instabilidade já nas primeiras horas da manhã em Moscou, São Petersburgo e outras grandes cidades.
Usuários relatam que chamadas de voz e vídeo pelo WhatsApp deixam de conectar, mensagens ficam pendentes e o carregamento de fotos e vídeos no Instagram praticamente paralisa. No Facebook, perfis pessoais e páginas de empresas deixam de abrir sem o uso de ferramentas para burlar o bloqueio, como redes privadas virtuais, as VPNs.
Peskov afirma que a medida segue a legislação russa aprovada nos últimos anos para regular o que o governo chama de “ambiente informacional soberano”. “Plataformas estrangeiras que operam na Rússia precisam respeitar nossas leis, sem exceção”, diz o porta-voz, em declaração transmitida por canais estatais. Ele não informa prazo para o fim das restrições.
A Meta, dona dos três aplicativos, não comenta de imediato a decisão russa. A empresa é pressionada a explicar a investidores o impacto da perda de um mercado de mais de 140 milhões de habitantes, em um momento em que tenta reduzir custos e ampliar receitas com publicidade digital e serviços de assinatura.
Impacto direto no cotidiano e no ambiente de negócios
O bloqueio atinge de forma desigual diferentes grupos sociais e econômicos. Usuários comuns perdem canais de comunicação rápida com familiares e amigos em outras regiões da Rússia e no exterior. Pequenos negócios que dependem de grupos de WhatsApp e de perfis no Instagram para vender produtos ou marcar serviços veem, em poucas horas, o principal canal com seus clientes desaparecer.
Empreendedores de setores como moda, alimentação, beleza e serviços domésticos relatam queda imediata nas encomendas. Em muitas cidades médias, perfis no Instagram funcionam como vitrine central de salões de beleza, restaurantes e lojas de roupas, substituindo sites próprios. Parte desses negócios concentra até 80% das vendas e agendamentos nas plataformas agora bloqueadas, segundo associações de comerciantes locais.
O Facebook, embora menos popular entre jovens, segue relevante para comunidades, grupos de interesses específicos e páginas de notícias. A interrupção do acesso atinge também campanhas de arrecadação, iniciativas de ajuda humanitária e redes de apoio que se estruturam há anos na plataforma.
Especialistas em tecnologia ouvidos por veículos independentes russos estimam que dezenas de milhões de contas ativas sejam afetadas. O WhatsApp, por ser leve e funcionar bem com conexões móveis instáveis, se torna dominante em regiões rurais e entre idosos, que agora precisam migrar para alternativas nacionais ou para outros aplicativos estrangeiros ainda disponíveis.
Empresas russas de tecnologia veem espaço para crescer. Serviços locais de mensagens e redes sociais, que já se fortalecem desde as primeiras sanções internacionais contra o país em 2014, tendem a ganhar novos usuários. Plataformas concorrentes, de origem asiática e do Oriente Médio, também disputam esse vácuo, oferecendo condições comerciais atrativas para influenciadores e anunciantes.
Escalada no controle da internet e incertezas à frente
O bloqueio se insere em uma estratégia mais ampla do governo russo para ampliar o controle sobre a internet. Desde meados da década passada, o país aprova leis que exigem armazenamento local de dados, filtros de conteúdo e cooperação das plataformas com autoridades regulatórias e de segurança. A tensão aumenta à medida que grandes empresas de tecnologia resistem a entregar dados de usuários, moderar postagens políticas ou ajustar algoritmos a interesses nacionais.
Organizações de direitos digitais enxergam na decisão um passo a mais na direção de um espaço on-line mais fechado e sujeito à censura. Pesquisadores lembram que redes sociais e aplicativos de mensagem funcionam, há mais de dez anos, como canal de mobilização política e de divulgação de informações que escapam da mídia tradicional. O bloqueio amplia o isolamento informacional do país e reforça a dependência de canais controlados pelo Estado.
Do lado da Meta, a pressão vem de outra frente. A empresa tenta preservar sua imagem global como defensora de certo grau de liberdade de expressão e de proteção de dados, ao mesmo tempo em que precisa manter presença em grandes mercados. Qualquer concessão à Rússia, como entrega ampliada de dados ou remoção sistemática de conteúdos críticos ao governo, pode gerar reação imediata de usuários, reguladores e acionistas em outras regiões.
Advogados especializados em direito internacional avaliam que a Meta pode recorrer a instâncias multilaterais e fóruns de arbitragem para contestar o bloqueio, ainda que as chances de reversão rápida sejam reduzidas. Na prática, a empresa depende de uma mudança de postura do Kremlin ou de um acordo específico com reguladores russos, cenário que hoje parece distante.
Enquanto isso, milhões de cidadãos buscam alternativas. O uso de VPNs cresce, apesar de também enfrentar restrições e monitoramento. Aplicativos de mensagens criptografadas, redes sociais locais e serviços de e-mail ganham novas contas em ritmo acelerado. A disputa, agora, se dá em duas frentes: a do controle político da informação e a da corrida tecnológica por novos mercados.
O bloqueio de WhatsApp, Instagram e Facebook levanta uma pergunta central sobre o futuro da internet na Rússia e além de suas fronteiras: até que ponto governos nacionais conseguirão moldar, sozinhos, o fluxo global de dados e conversas digitais?
