Rússia acusa Ucrânia de buscar bomba nuclear com apoio britânico e francês
A Rússia acusa Ucrânia, Reino Unido e França de articulação para dotar Kiev de armas nucleares, numa declaração divulgada nesta terça-feira (24), quarto aniversário da guerra. Ucrânia e potências europeias rebatem a denúncia, classificando-a como desinformação e negando qualquer plano para reacender o programa atômico ucraniano.
Moscou fala em “bomba suja” e cita risco de confronto direto
O serviço de inteligência estrangeira da Rússia, o SVR, afirma que Londres e Paris avaliam que a Ucrânia conseguiria negociações de paz em condições mais favoráveis se tivesse “uma bomba nuclear ou, pelo menos, uma chamada ‘bomba suja’”. A acusação vem sem documentos, fotos ou interceptações apresentados ao público, o que reforça a disputa narrativa em torno da guerra que completa quatro anos.
O SVR sustenta que Reino Unido e França estariam “trabalhando ativamente” para fornecer armas nucleares e sistemas de lançamento a Kiev, tentando encobrir a participação direta e fazer parecer que a Ucrânia obteve a capacidade atômica por meios próprios. Uma “bomba suja” é um artefato explosivo convencional recheado com material radioativo, capaz de contaminar áreas urbanas e gerar pânico, mas sem a potência destrutiva de uma ogiva nuclear projetada para provocar uma grande reação em cadeia.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia reforça a denúncia em comunicado e volta a acionar o discurso do limiar nuclear. “Mais uma vez, alertamos para os riscos de um confronto militar direto entre potências nucleares e, desse modo, para suas consequências potencialmente terríveis”, afirma a chancelaria, em texto distribuído por agências russas.
Um assessor do Kremlin, Yuri Ushakov, é citado pela imprensa estatal dizendo que Moscou pretende informar formalmente os Estados Unidos sobre o assunto. Segundo ele, a queixa deve pesar sobre as negociações mediadas por Washington para um possível fim das hostilidades, ainda sem data ou formato definidos.
Ucrânia, França e Reino Unido rebatem e falam em desinformação
As respostas chegam com rapidez. Heorhii Tykhyi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, diz à agência Reuters que o governo já rejeitou alegações semelhantes em ocasiões anteriores e volta a fazê-lo agora. “Para que conste: a Ucrânia já negou essas alegações absurdas da Rússia muitas vezes antes, e nós as negamos oficialmente novamente agora”, afirma.
O Itamaraty francês classifica a narrativa russa como “desinformação flagrante” e reafirma o compromisso de Paris com os tratados de não proliferação assinados desde a década de 1960. Em Londres, um porta-voz do primeiro-ministro Keir Starmer afirma que “não há verdade nisso”, ecoando a posição dos aliados da Otan, que vêm reforçando o apoio militar convencional a Kiev, com armas de precisão, sistemas de defesa aérea e treinamento de tropas.
O governo ucraniano insiste que não busca retomar o arsenal nuclear herdado da União Soviética, desmontado nos anos 1990. À época, Kiev entregou cerca de 1.900 ogivas estratégicas à Rússia em troca de garantias de segurança registradas no Memorando de Budapeste, de 1994. O presidente Volodymyr Zelensky critica esse acordo desde o início da invasão em grande escala, em 2022, e volta a dizer que o país foi deixado sem garantias “claras, vinculantes e eficazes”. Ainda assim, a chancelaria de Kiev repete que respeita integralmente os tratados internacionais de não proliferação.
A troca de acusações ocorre enquanto a guerra entra no quinto ano, com milhares de mortos, cidades devastadas e linhas de frente praticamente estabilizadas em várias regiões do leste e do sul da Ucrânia. Desde 2022, o Kremlin alterna ameaças nucleares veladas e declarações de moderação, numa tentativa de dissuadir o envio de armamentos de longo alcance por parte dos aliados ocidentais.
Escalada retórica aumenta pressão sobre negociações de paz
A nova acusação russa acrescenta mais uma camada de tensão a um conflito que Moscou já descreve como um confronto direto com o Ocidente. Em sucessivas declarações desde o fim de 2023, autoridades do Kremlin dizem que a guerra na Ucrânia deixa de ser apenas uma disputa territorial e passa a ser um choque mais amplo com Estados Unidos e Europa. A inclusão de Reino Unido e França no centro de uma denúncia nuclear reforça essa mensagem.
Ao falar em supostos planos para dotar a Ucrânia de uma bomba suja, Moscou tenta associar a estratégia ocidental de apoio militar à imagem de irresponsabilidade nuclear. A narrativa encontra eco em públicos domésticos e em países que buscam manter distância do conflito, especialmente em partes da Ásia, da África e da América Latina, onde o temor de acidentes atômicos e de riscos à cadeia alimentar global permanece vivo desde o início da guerra.
Na prática, não há sinais concretos, até agora, de que Londres ou Paris rompam com seus compromissos de não proliferação. Qualquer movimento nesse sentido exigiria mudanças legais profundas, consultas no âmbito da Otan e, muito provavelmente, enfrentaria resistência de outros aliados europeus. Um passo desse tamanho também redefiniria o equilíbrio nuclear estabelecido desde o fim da Guerra Fria, com impacto direto sobre a segurança de países que hoje não possuem armas atômicas.
A repercussão imediata, porém, está no campo diplomático. Ao prometer levar o tema a Washington, o Kremlin busca criar mais uma variável em um processo de negociação já complexo. Qualquer rodada futura de conversas para cessar-fogo passa a lidar com suspeitas mútuas sobre a natureza do apoio militar à Ucrânia, em especial no que diz respeito a mísseis de longo alcance, caça-bombardeiros e presença de instrutores estrangeiros.
Quinto ano de guerra expõe dilema nuclear e incertezas diplomáticas
A acusação de Moscou surge no momento em que o conflito completa 1.461 dias e pressiona todas as partes a definirem o que seria um fim aceitável para a guerra. Para Kiev, a prioridade segue sendo a recuperação do território ocupado desde 2014, incluindo a Crimeia. Para Moscou, a meta declarada é impedir que a Ucrânia integre a Otan e consolidar o controle sobre áreas anexadas.
Enquanto Rússia e Ucrânia medem forças no campo de batalha, as potências nucleares envolvidas direta ou indiretamente na guerra tentam manter uma linha vermelha clara: não usar, não transferir e não testar armas atômicas em meio ao conflito. A retórica atual enfraquece essa fronteira, mesmo sem provas concretas de violações. O resultado é um ambiente diplomático mais tenso, em que qualquer incidente militar pode ganhar dimensão nuclear em discursos e negociações.
Os próximos meses devem mostrar se a denúncia russa ficará restrita ao campo da propaganda ou se abrirá frentes formais em organismos multilaterais, como a Agência Internacional de Energia Atômica e o Conselho de Segurança da ONU. A resposta dos Estados Unidos, quando o tema for oficialmente apresentado, dará pistas sobre até que ponto Washington está disposto a aceitar a escalada verbal de Moscou como parte do jogo ou exigir provas e recuos públicos.
Enquanto essa definição não vem, o quarto aniversário da guerra expõe o mesmo dilema que marcou o primeiro dia da invasão: como conter um conflito convencional entre um país invadido e uma potência nuclear, sem cruzar a linha que separa a dissuasão da catástrofe.
