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Rubio alerta para possível uso de força militar dos EUA na Venezuela

O senador republicano Marco Rubio emite nesta quarta-feira (28) um alerta direto à ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Em declaração pública nos Estados Unidos, ele afirma que Washington está disposto a considerar o uso de força militar caso Caracas não coopere com as exigências americanas.

Escalada pública da pressão sobre Caracas

O aviso marca um novo patamar na retórica americana em relação à crise venezuelana, que se arrasta há mais de uma década. Ao falar em “medidas militares” como alternativa concreta, Rubio coloca a possibilidade de intervenção armada na linha de frente do debate em Washington e em toda a América Latina.

O senador, uma das vozes mais influentes do Partido Republicano em temas de política externa para a região, condiciona qualquer recuo a uma mudança de postura imediata de Delcy Rodríguez. Segundo ele, a falta de cooperação com as demandas dos Estados Unidos torna insustentável a atual via diplomática e amplia o risco de uma ruptura mais grave.

Rubio aponta que “todas as opções” permanecem sobre a mesa e reforça que a Casa Branca não pretende assistir passivamente ao agravamento da crise. O recado é dirigido a Caracas, mas também funciona como sinal para aliados europeus e latino-americanos que, desde 2019, discutem como lidar com a combinação de colapso econômico, crise humanitária e endurecimento autoritário na Venezuela.

A fala ocorre em um contexto de desgaste contínuo. Após sucessivas rodadas de sanções econômicas, congelamento de ativos e restrições financeiras, o governo americano cobra gestos concretos de abertura política e garantias de segurança para opositores e organizações civis. Delcy Rodríguez, no entanto, rejeita as condições e acusa Washington de ingerência e tentativa de “mudança de regime”.

Histórico de tensão e risco para a região

A relação entre Estados Unidos e Venezuela entra em rota de colisão ainda no fim dos anos 2000, quando o então presidente Hugo Chávez intensifica o discurso antiamericano e aproxima Caracas de Moscou e Pequim. Entre 2014 e 2024, Washington amplia o pacote de sanções pelo menos quatro vezes, atingindo a PDVSA, o Banco Central venezuelano e dezenas de autoridades ligadas ao núcleo do poder em Caracas.

As medidas contribuem para isolar o país, mas não provocam a saída do grupo que controla o governo desde a morte de Chávez, em 2013. Com Delcy Rodríguez no comando interino e uma economia encolhida em mais de 75% em dez anos, a Venezuela convive com inflação crônica, êxodo de mais de 7 milhões de pessoas e redes de abastecimento precarizadas. O cenário alimenta pressões internas e externas por uma solução negociada.

Rubio defende há anos uma linha mais dura. O senador descreve a situação venezuelana como uma “ameaça à segurança hemisférica” e vincula o tema à presença de grupos armados e redes ilícitas na fronteira. Ao sugerir o uso de força militar, ele tenta deslocar o debate da esfera exclusivamente diplomática para o campo da segurança regional, em um momento em que países vizinhos enfrentam aumento de fluxos migratórios e tensões políticas próprias.

Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que a fala de Rubio funciona como teste de limite. Washington mede até onde a comunidade internacional está disposta a ir diante de um impasse que já dura mais de 10 anos. Países como Brasil, Colômbia e México, que abrigam milhões de venezuelanos, acompanham com preocupação a hipótese de uma escalada militar que possa desestabilizar ainda mais fronteiras frágeis e sistemas públicos pressionados.

A possibilidade de uma ação armada americana coloca em alerta Forças Armadas e chancelerias da região. Uma intervenção desse porte exigiria mobilização militar em larga escala, reposicionamento de tropas, uso intenso de meios navais e aéreos e coordenação com aliados. Cada movimento teria impacto direto em rotas comerciais, cadeias de suprimento de energia e programas de assistência humanitária já em operação.

Impacto direto sobre venezuelanos e vizinhos

O sinal de endurecimento aumenta a pressão sobre uma população já exausta. A Venezuela registra ao menos 80% de pobreza multidimensional, segundo estimativas de organismos independentes, e enfrenta falhas recorrentes no fornecimento de energia, água e combustíveis. A ameaça de novos embargos e de uma ação militar amplia a sensação de incerteza para milhões de famílias que dependem de remessas do exterior e de redes informais de comércio.

O comércio regional também sente os efeitos. Países que importam petróleo e derivados venezuelanos, mesmo em volumes reduzidos desde 2017, podem ver contratos suspensos ou redirecionados em questão de semanas, caso Washington endureça o bloqueio. Empresas do setor de energia monitoram cenários de aumento de preços, redirecionamento de oferta para a Ásia e maior dependência de outros fornecedores da Opep.

No plano político, a fala de Rubio tende a fortalecer alas mais radicais tanto em Caracas quanto em Washington. Setores moderados, que ainda defendem uma negociação com garantias internacionais, correm o risco de perder espaço para grupos que apostam em soluções de força. A oposição venezuelana, fragmentada e sob vigilância, vê na ameaça americana uma arma de duplo fio: ganha poder de barganha, mas pode ser acusada pelo governo de favorecer intervenção externa.

Organizações de direitos humanos alertam que uma escalada militar pode agravar a crise humanitária e ampliar violações já documentadas por missões da ONU desde 2019. Em cenários de conflito, corredores humanitários costumam demorar meses para funcionar plenamente, enquanto fluxos de refugiados se intensificam. Países de fronteira, como Brasil e Colômbia, teriam de reforçar rapidamente estruturas de acolhimento, segurança e saúde.

Próximos movimentos e incertezas

A advertência de Rubio antecipa um período de forte pressão diplomática. Nas próximas semanas, o foco recai sobre a resposta de Delcy Rodríguez e sobre os sinais enviados pela Casa Branca e pelo Pentágono. O Congresso americano também passa a ser observado mais de perto, já que qualquer ação militar sustentada dependeria de apoio político interno, estimado hoje como dividido entre alas isolacionistas e intervencionistas.

A comunidade internacional acompanha o desdobramento com cautela. Países europeus discutem se reforçam sanções, intensificam a mediação ou tentam abrir canais diretos com Caracas para evitar uma ruptura. Na América Latina, governos calculam o custo de se alinhar a uma eventual operação militar ou de se opor frontalmente a Washington em um tema de alta sensibilidade.

Rubio insiste que o tempo é curto e que a janela para uma saída negociada se estreita a cada mês de impasse. A incerteza maior recai sobre a disposição real do governo americano de ir além da retórica e sobre a capacidade de Delcy Rodríguez de ceder sem perder o controle interno. Enquanto esse cálculo permanece aberto, a Venezuela continua no centro de uma disputa que ultrapassa suas fronteiras e redefine o equilíbrio de poder na região.

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