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Rompimento de dique no Mondego derruba trecho da A1 e muralha em Coimbra

Um dos diques do rio Mondego rompe na noite de terça-feira (10) e provoca o desabamento parcial da autoestrada A1 e da muralha histórica de Coimbra. A prefeita Ana Abrunhosa confirma a evacuação preventiva de milhares de moradores enquanto novas chuvas ameaçam agravar a crise.

Cidade universitária em alerta máximo

A ruptura ocorre ao lado de um dos pilares que sustentam a A1, principal ligação rodoviária entre Lisboa e Porto. A estrada já estava interditada pela polícia quando a estrutura cede e abre um buraco na via, interrompendo por tempo indeterminado o fluxo de veículos e o transporte de cargas entre as duas maiores cidades portuguesas.

O colapso do dique transforma o Mondego num rio fora de controle às portas de uma das mais antigas cidades universitárias da Europa. A água avança sobre estradas, áreas rurais e bairros ribeirinhos. “Coimbra e as cidades vizinhas enfrentam sérios problemas devido às inundações, algumas estão isoladas… A situação é extremamente instável”, afirma Abrunhosa à emissora pública RTP.

Nas horas seguintes, a Proteção Civil Regional intensifica o plano de emergência. Bombeiros, polícia e equipes municipais percorrem zonas baixas de Coimbra e aldeias próximas para retirar moradores em risco. Mais de 3 mil pessoas saem de casa de forma preventiva, muitas com pouca bagagem, levadas em ônibus para abrigos montados em escolas e pavilhões esportivos.

No centro histórico, parte da antiga muralha de Coimbra, cravada na encosta que domina a cidade, desaba e bloqueia a estrada logo abaixo. A queda de pedras e entulho obriga ao encerramento do mercado municipal, onde dezenas de bancas de frutas, peixes, queijos e flores costumam abastecer moradores e turistas diariamente.

Rio atmosférico expõe fragilidades da infraestrutura

O desastre é o ponto mais dramático de uma sequência de tempestades que atinge principalmente o centro e o sul de Portugal desde o fim de janeiro. Ventos fortes arrancam telhados, ruas alagam em várias cidades e centenas de milhares de pessoas ficam sem energia durante dias. Pelo menos 15 pessoas morrem, incluindo vítimas indiretas, em deslizamentos, afogamentos e acidentes rodoviários.

As chuvas mais intensas chegam entre 10 e 11 de fevereiro, alimentadas por um “rio atmosférico”, como definem os meteorologistas. Trata-se de um corredor de vapor que transporta grandes quantidades de umidade dos trópicos para latitudes mais altas. Na prática, é como se uma mangueira gigante despejasse água de forma contínua sobre o território, sobrecarregando rios, diques e barragens.

O primeiro-ministro Luís Montenegro acompanha a situação em Coimbra. Dias antes, ele já admitia que as autoridades trabalham “no limite da sua capacidade de conter as águas”. A presença em campo ocorre em meio a forte cobrança política, depois da renúncia da ministra do Interior, Maria Lúcia Amaral, criticada por oposição e comunidades locais pela resposta considerada lenta à tempestade Kristin, há duas semanas.

O responsável da Proteção Civil Regional, Carlos Tavares, alerta para um risco em cadeia. A chuva intensa pode forçar o transbordamento da barragem da Aguieira, 35 quilômetros a nordeste de Coimbra. “O aumento súbito do caudal levanta os diques e pode provocar novas inundações”, explica. A Agência Portuguesa do Ambiente prevê “período excecional de caudais máximos” no Mondego até sábado (14), cenário que mantém populações e autoridades em sobressalto.

O impacto econômico se espalha rapidamente. A A1 é a espinha dorsal do transporte rodoviário em Portugal, por onde circulam diariamente milhares de veículos particulares e caminhões com alimentos, combustíveis e mercadorias industriais. O bloqueio força desvios por estradas menores, aumenta o tempo de viagem, encarece o frete e ameaça o abastecimento regular de supermercados e centros logísticos.

Comunidades deslocadas e patrimônio ferido

Em Coimbra, comerciantes do mercado municipal fecham as portas às pressas. Peixes, hortaliças e queijos permanecem em câmaras frigoríficas, mas muitos temem perder estoque se a interdição se prolongar. A queda de parte da muralha, que integra o conjunto classificado como Patrimônio Mundial da Unesco, fere a identidade da cidade. Especialistas ouvidos pela Câmara Municipal avaliam que a recuperação das estruturas e a estabilização da encosta podem levar meses e exigir obras complexas.

O rombo no dique e os danos na A1 também terão longa cauda de reconstrução. Técnicos de infraestrutura calculam que a consolidação do terreno, a substituição de pilares e o reparo do asfalto deverão exigir vários meses de trabalho, sob forte pressão de transportadoras, empresas de turismo e passageiros de longa distância.

A crise ultrapassa Coimbra e alcança a margem sul do Tejo, frente a Lisboa. No centro de Portugal, autoridades esvaziam a vila de Porto Brandão por risco de deslizamentos de terra, depois de dias de solo encharcado. Cerca de 30 pessoas deixam casas na zona costeira vizinha da Caparica, onde um talude cede e ameaça novas derrocadas.

Ao todo, mais de 3 mil pessoas são retiradas de casa em diferentes pontos do país, a maioria em ações preventivas. Para elas, o desastre não se mede só em metros cúbicos de água, mas em empregos interrompidos, aulas suspensas, negócios fechados e noites passadas em colchões improvisados. Famílias de pequenos agricultores relatam perda de plantações inteiras nas margens do Mondego, enquanto criadores de gado deslocam animais às pressas para zonas mais altas.

O turismo, pilar da economia portuguesa, sofre um abalo imediato. Reservas em hotéis de Coimbra e da região central são canceladas, excursões escolares são adiadas e agências suspendem temporariamente circuitos que incluem visitas à universidade e ao centro histórico. Nas redes sociais, imagens de ruas submersas, campos alagados e trechos da A1 destruídos circulam em tempo real.

Reconstrução lenta e cobrança política

Com a perspectiva de caudais elevados até o fim da semana, o governo tenta equilibrar resposta de emergência e planejamento de médio prazo. A Proteção Civil reforça o monitoramento de barragens e diques, enquanto engenheiros avaliam ponto a ponto a estabilidade de pontes e encostas. O objetivo imediato é evitar novas mortes e impedir que pequenas fissuras se transformem em colapsos estruturais.

No debate público, ganha força a discussão sobre adaptação às mudanças climáticas e investimento em contenção de cheias. Especialistas cobram revisão de diques antigos, planos de drenagem urbana mais robustos e sistemas de alerta precoce que cheguem com clareza às populações mais vulneráveis. A sequência de tempestades, coroada pelo “rio atmosférico” que agora fustiga o país, expõe fragilidades acumuladas ao longo de décadas.

O governo de Luís Montenegro enfrenta o desafio de responder à emergência sem perder o controle da narrativa política. A renúncia de Maria Lúcia Amaral alimenta a percepção de falhas na coordenação entre Lisboa, municípios e serviços de proteção civil. Nas próximas semanas, a investigação sobre a ruptura do dique do Mondego e as condições de manutenção da A1 deve ganhar centralidade em comissões parlamentares e auditorias técnicas.

A reconstrução de estradas, diques, barragens e patrimônios históricos tende a se arrastar por meses, talvez anos, e exigirá decisões orçamentárias difíceis. Entre o socorro imediato às famílias desalojadas e os grandes projetos de engenharia, Portugal é empurrado a uma escolha incômoda: repetir o ciclo de remendos após cada tempestade ou redesenhar de forma profunda a sua proteção frente a eventos extremos que deixam de ser exceção para se tornar rotina.

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