Rio inicia obras de novas ciclovias em áreas de maior risco
A Prefeitura do Rio inicia na manhã deste domingo (12) as obras de novas ciclovias na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca. As intervenções se estendem a trechos da Glória, de Botafogo e da Avenida Augusto Severo, com implantação escalonada para reduzir o impacto no trânsito.
Cidade reage após acidente e pressa por segurança
O barulho de britadeiras e o desvio de ônibus pela faixa da direita mudam a rotina de quem cruza a Conde de Bonfim logo cedo. A via, uma das mais movimentadas da Tijuca, vira símbolo de uma corrida por segurança após um acidente grave com ciclista registrado no início do ano, em um ponto sem qualquer proteção para quem pedala.
No traçado que começa a ganhar forma, a prefeitura reserva espaço exclusivo para bicicletas ao longo de cerca de 2 quilômetros, ligando a região da Praça Saens Peña a áreas residenciais mais altas. A obra é anunciada como parte de um pacote que inclui novos trechos em Botafogo, na orla e em ruas internas, além da ligação da Glória à Augusto Severo, no entorno do Aterro do Flamengo, onde o fluxo de ciclistas cresce a cada verão.
Planejamento escalonado e disputa por espaço
O passo inicial na Tijuca segue um cronograma que busca evitar um colapso imediato no trânsito. As frentes de trabalho avançam por segmentos de 300 a 400 metros, com interdições parciais e horários concentrados entre 9h e 16h. A expectativa interna é concluir o eixo principal da Conde de Bonfim em até 90 dias e abrir os primeiros 500 metros já em maio.
Motoristas encaram faixas estreitadas e pontos de retenção, sobretudo na altura das ruas Uruguai e Haddock Lobo. Comerciantes temem perder clientes que chegam de carro. “Já é difícil parar por aqui. Com obra, piora. Só não dá para esquecer que gente morre nessa rua”, diz o balconista de uma padaria próxima, que prefere não se identificar. O comentário resume a disputa por cada centímetro de asfalto na região.
Na outra ponta, ciclistas veem no canteiro montado na Tijuca um divisor de águas. “A Conde de Bonfim é hoje uma roleta-russa. Você pedala colado nos carros e nos ônibus. Uma ciclovia protegida pode salvar vidas”, afirma o designer gráfico Pedro Nascimento, 32, que usa bicicleta todos os dias entre o bairro e o Centro.
O projeto prevê travessias sinalizadas, balizadores físicos entre a faixa de rolamento e a ciclovia e ajustes nos tempos de semáforos. Técnicos falam em redução de até 40% no risco de colisão envolvendo bicicletas nas áreas contempladas, tomando como base estudos anteriores feitos em outras avenidas da cidade que receberam infraestrutura semelhante a partir de 2015.
Impacto ambiental e mudança de hábito
A prefeitura encara a expansão das ciclovias como peça de uma estratégia maior de mobilidade sustentável. A meta é elevar em cerca de 20% o número de deslocamentos diários feitos por bicicleta até 2028, tomando como base estimativas atuais da Secretaria Municipal de Transportes. Em números práticos, a conta interna projeta dezenas de milhares de viagens diárias migrando do carro particular e do transporte por aplicativo para a bicicleta em quatro anos.
Ambientalistas avaliam que essa mudança, se confirmada, tem efeito direto na emissão de poluentes. “Cada trajeto curto que sai do carro e vai para a bike reduz congestionamento e emissão. É uma equação simples, mas que exige infraestrutura segura”, argumenta a urbanista e pesquisadora em mobilidade ativa Carla Menezes. Segundo ela, trechos como os da Glória e de Botafogo são estratégicos porque conectam áreas residenciais densas a zonas de emprego e lazer.
O desenho da nova malha procura justamente costurar esses pontos. Na Glória, o traçado previsto acompanha a Augusto Severo e se integra às rotas do Aterro, já usadas por quem treina ou se desloca até o Centro. Em Botafogo, a ideia é ligar ciclovias existentes a estações de metrô e corredores de ônibus, criando um circuito contínuo até a orla. A aposta é que a combinação de bicicleta com transporte coletivo torne trajetos de 5 a 10 quilômetros mais rápidos e previsíveis que o carro em horários de pico.
Moradores ainda tateiam o impacto concreto dessa transformação. Há quem tema barulho e perda de vagas de estacionamento em ruas já saturadas. Outros enxergam um ganho na qualidade de vida. “Se eu tiver uma ciclovia segura até o trabalho, deixo o carro em casa pelo menos três vezes por semana”, estima a administradora Mariana Rocha, 41, moradora de Botafogo.
Próximos passos e pressão por continuidade
Os primeiros meses de obra vão testar a capacidade da prefeitura de conciliar pressa e cuidado. O histórico recente pesa. Em outras intervenções viárias, atrasos e mudanças de projeto alimentaram críticas sobre falta de planejamento. Desta vez, o plano é publicar relatórios mensais de avanço físico, com metragem executada e eventuais ajustes de cronograma, para tentar dar transparência ao processo.
Especialistas em trânsito alertam que a infraestrutura, sozinha, não basta. Campanhas educativas, fiscalização a quem invade ciclovias e manutenção constante aparecem como peças decisivas para o sucesso do programa. A administração municipal promete intensificar ações de conscientização em escolas da região e em terminais de ônibus, com foco em motoristas profissionais e entregadores, que dividem diariamente o espaço com ciclistas.
A discussão extrapola os bairros onde as obras começam. Organizações da sociedade civil cobram a inclusão de outras áreas periféricas do Rio, em especial zonas com alto índice de acidentes envolvendo bicicletas, mas que ainda não aparecem nas primeiras fases do cronograma. O debate sobre quem é priorizado revela o quanto a política de mobilidade ainda enfrenta desigualdades internas.
Ao fincar estacas na Conde de Bonfim e projetar faixas em direção à Glória e Botafogo, a cidade escolhe um caminho. Falta saber se a ciclovia que nasce em 2026 será o início de uma rede robusta e contínua ou mais um trecho isolado em meio ao trânsito pesado que segue dominado por carros e ônibus.
