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Rio inicia obras de novas ciclovias após atropelamento na Tijuca

A Prefeitura do Rio inicia neste domingo (12) as obras de novas ciclovias na Avenida Conde de Bonfim, na Tijuca, após o atropelamento de uma mãe e seu filho. O projeto se estende para Augusto Severo, Glória e Botafogo e promete redesenhar a circulação de ciclistas e pedestres em corredores movimentados da cidade.

Cidade reage a tragédia recente na Tijuca

O canteiro de obras surge menos de um mês depois do acidente que choca moradores da Tijuca e reacende a cobrança por segurança viária. O atropelamento na Conde de Bonfim, uma das vias mais cheias da região, expõe o conflito diário entre carros, ônibus, ciclistas e quem anda a pé em calçadas estreitas. A ciclovia estreia justamente ali, onde o trânsito passa de 50 mil veículos por dia em horários de pico, segundo estimativas da prefeitura.

A gestão municipal decide iniciar a implantação de forma escalonada. A Conde de Bonfim recebe as primeiras intervenções, com previsão de conclusão em cerca de 90 dias, segundo técnicos envolvidos no projeto. Na sequência, trechos da Avenida Augusto Severo, na Glória, e de vias em Botafogo entram no cronograma, em etapas planejadas para evitar bloqueios totais e reduzir o impacto sobre o comércio de bairro.

Redesenho viário e disputa por espaço

O desenho das novas ciclovias muda a lógica tradicional da via, que por décadas privilegia o carro. A prefeitura promete faixas segregadas para bicicletas, com barreiras físicas, travessias mais curtas para pedestres e tempos de sinal reforçados em cruzamentos críticos. Em corredores como a Conde de Bonfim, isso significa reduzir espaço de estacionamento e, em alguns trechos, eliminar uma faixa de rolamento para veículos motorizados.

A mudança atinge motoristas de aplicativos, taxistas e comerciantes que dependem da circulação de carros, mas tenta responder a uma estatística que preocupa especialistas em trânsito. Dados municipais indicam que, em áreas com ciclovias protegidas, o número de atropelamentos cai até 30% ao longo de dois anos. A aposta é repetir esse efeito na Tijuca, na Glória e em Botafogo, bairros que concentram fluxo intenso de ônibus, escolas, hospitais e estações de metrô.

Urbanistas ouvidos pela reportagem apontam que o Rio chega atrasado a uma agenda que avança em capitais como São Paulo e Fortaleza. O município tem hoje pouco mais de 480 quilômetros de malha cicloviária, entre ciclovias, ciclofaixas e rotas compartilhadas, número que cresce de forma irregular desde a preparação para os Jogos Olímpicos de 2016. O novo pacote de obras prevê acréscimo inicial de aproximadamente 10 quilômetros em eixos considerados estratégicos para travessias de bairro.

Segurança, saúde pública e mudança de hábito

A decisão de acelerar o projeto vem ancorada em duas frentes: reduzir acidentes e incentivar a bicicleta como meio de transporte diário. A prefeitura estima que, com a conclusão das novas ligações, ao menos 5 mil viagens por dia migrem gradualmente do automóvel para a bicicleta ao longo do primeiro ano. A projeção considera deslocamentos de até 7 quilômetros, distância média percorrida entre casa, trabalho e estações de metrô na região central e na zona norte.

Especialistas em saúde pública lembram que a escolha pela bicicleta impacta mais do que o trânsito. Ao diminuir o número de carros em circulação, o município reduz emissões de poluentes e melhora a qualidade do ar em corredores que já registram níveis elevados de material particulado. Estudos internacionais citados por técnicos da área mostram reduções de até 15% em internações por doenças respiratórias em regiões que ampliam de forma consistente a infraestrutura cicloviária.

Moradores ouvidos na Tijuca relatam um misto de alívio e desconfiança. Uma professora que trabalha na região, mãe de duas crianças em idade escolar, resume o sentimento ao falar sobre o atropelamento que motiva a reação do poder público. “A gente atravessa correndo com medo de ser o próximo. Se a ciclovia vier com mais fiscalização e respeito, não é luxo, é questão de sobrevivência”, afirma. Comerciantes temem quedas de faturamento durante as obras, mas reconhecem a pressão popular após o acidente.

Desafios políticos e próximos passos

O escalonamento das obras tenta reduzir desgastes em ano de discussão orçamentária e de pressão de diferentes frentes políticas na Câmara Municipal. A oposição cobra transparência sobre custos, prazos e prioridades, enquanto vereadores alinhados ao Executivo defendem a ciclovia como resposta necessária à série de atropelamentos em vias movimentadas. A licitação prevê execução em fases, com medições mensais e possibilidade de ajustes de traçado conforme a reação da vizinhança.

O sucesso do projeto depende de mais do que tinta no asfalto e blocos de concreto. Técnicos em mobilidade reforçam que a fiscalização precisa ser constante, com multas para quem invade a faixa de bicicletas e campanhas educativas voltadas a motoristas e pedestres. A prefeitura projeta campanhas ao longo de 2026 para tentar consolidar um novo pacto de convivência nas ruas. A expansão da malha cicloviária abre espaço para uma cidade menos dependente do carro, mas expõe uma pergunta que o Rio ainda não responde por inteiro: até onde a sociedade está disposta a ceder espaço para garantir que ninguém mais precise morrer atravessando a rua.

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