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Rick Azevedo reage à Folha e acirra debate sobre jornada de trabalho

O vereador carioca Rick Azevedo (PSOL) acusa a Folha de S.Paulo de chamar trabalhadores brasileiros de “preguiçosos” em matéria publicada neste domingo (22). A reação ocorre em meio à campanha pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada semanal de 44 para 40 horas no país.

Matéria sobre produtividade vira estopim político

Azevedo, fundador do Movimento Vida Além do Trabalho e uma das principais vozes contra a escala 6×1, publica vídeo indignado nas redes sociais neste 22 de fevereiro de 2026. No registro, ele mira a reportagem “Brasileiro trabalha menos que a média mundial; veja rankings”, que usa dados de um novo banco global de horas trabalhadas organizado por economistas do Banco Mundial e da Universidade da Califórnia em Berkeley.

O texto do jornal afirma que o Brasil aparece em posições inferiores em rankings que relacionam esforço, produtividade e demografia de dezenas de países. Com base nesse levantamento, aponta que a jornada média no país gira em torno de 40,1 horas por semana, número abaixo de parte da média internacional. Na leitura de Azevedo, a reportagem transforma a comparação estatística em juízo moral sobre quem vive de salário.

“Meus amigos, isso aqui é o ápice da falta de caráter. É simplesmente a Folha de São Paulo chamando você, trabalhador e trabalhadora, de preguiçosos”, dispara o vereador. “Na prática, essa matéria ridícula tá chamando o povo brasileiro, a classe trabalhadora que sustenta este país no lombo, de preguiçosos”, continua, em tom de confronto direto com a linha editorial do jornal.

O ataque não fica restrito ao campo dos adjetivos. Azevedo acusa a reportagem de ignorar a estrutura social do país e de funcionar como arma contra a mobilização pela mudança na legislação trabalhista. “Querem apavorar o povo porque o povo não aguenta mais trabalhar seis dias consecutivos para folgar apenas um e sustentar essa burguesia da Folha de São Paulo, essa burguesia do Brasil que vive muito bem, obrigado, às custas da exploração do povo brasileiro”, afirma. Ele chama o texto de “matéria fantasiosa, dados fantasiosos, ignorando a desigualdade do Brasil”.

A crítica encontra terreno fértil porque a disputa sobre jornada de trabalho deixa o universo sindical e ganha a arena política. Propostas para reduzir a carga semanal de 44 para 40 horas voltam ao centro da pauta no Congresso, enquanto categorias pressionam empresas e governo por mais descanso e dois dias de folga. A publicação da Folha, lida por esse grupo como contraponto à mudança, passa a simbolizar a resistência de parte do empresariado e da mídia a essa agenda.

Folga, desigualdade e o peso do deslocamento

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, entra no debate pelas redes sociais. Ela acusa o jornal de “campanha” contra o fim da escala 6×1 e questiona a lógica embutida na manchete. “Se for mesmo verdadeiro que o tempo médio de trabalho no país seria de 40,1 horas por semana, como diz estudo citado pelo jornal, qual seria o problema de reduzir na lei a jornada de 44 para 40 horas semanais?”, questiona.

Gleisi ressalta que essa média não alcança a realidade de milhões de brasileiros submetidos a longas jornadas formais e informais. “Reservar pelo menos dois dias por semana para cuidar da família e da própria vida é um direito que a Folha não quer reconhecer e ainda por cima tenta estigmatizar como preguiça”, afirma. Na sequência, faz um paralelo duro com a história do país: “É o mesmo preconceito dos que foram contra a abolição do trabalho escravo dois séculos atrás”.

O geógrafo Elias Jabbour traz o foco para a metodologia e o uso político dos números. Em vídeo, ele evita se deter nos detalhes da base estatística, mas critica a forma de comparação entre países ricos e pobres. “É muito complicado colocar de um lado a Noruega, de outro um país ultra pobre da África, da América Latina, e daí exprimir uma média mundial. Acho que isso é um desserviço à ciência, inclusive”, aponta.

Para Jabbour, o problema central não é apenas a “insensibilidade” social, e sim o propósito do texto em meio a uma disputa concreta. “A questão é: para que serve uma matéria dessa, com esse conteúdo, em meio à batalha em que a classe trabalhadora brasileira somente exige descanso? Cheira muito a matéria paga, como as pessoas colocam”, diz. Ele lembra que o mundo caminha, em vários setores, para jornadas menores e maior valorização do tempo livre, o que torna a insistência na escala 6×1 ainda mais controversa.

O jornalista esportivo André Rizek soma outra camada ao debate ao destrinchar o próprio ranking citado pela imprensa. “Claro… É fácil ver essa manchete e dizer que, então, não precisa do fim da escala 6 x 1. Mas… os líderes do ranking de horas trabalhadas são Butão, Sudão e Emirados Árabes. Exemplos? Não creio”, observa. Ele destaca que o Brasil, com cerca de 40 horas semanais, registra carga maior que a de economias desenvolvidas como Estados Unidos e Japão, com 35,5 horas, e muito acima de países como Noruega, com 27,8 horas, e Holanda, com 27,6.

Rizek aponta o que considera a distorção principal: “A manchete pode sugerir que ‘bom’ é ser como o Sudão! Eu prefiro perseguir o desenvolvimento e a qualidade de vida do Japão, da Noruega e Holanda”, afirma. Em seguida, lembra um dado ausente da reportagem original: o tempo gasto no trajeto casa-trabalho. “Isso sem falar, é claro, do número de horas que o(a) trabalhador(a) brasileiro leva nas grandes cidades (uma eternidade!) pra chegar e sair do trabalho”, escreve. Em regiões metropolitanas como São Paulo e Rio, não é raro que o deslocamento diário some duas a três horas, o que amplia, na prática, a jornada real para mais de 50 horas por semana.

Pressão sobre Congresso, empresas e mídia

A reação à matéria da Folha não se limita a vídeos e postagens indignadas. Movimentos como o Vida Além do Trabalho e entidades sindicais veem na polêmica uma oportunidade para reaquecer o debate sobre a redução da jornada legal. A meta é transformar a discussão de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, em prioridade legislativa ainda em 2026, retomando propostas engavetadas desde a década passada.

No setor privado, a controvérsia expõe o choque entre modelos de negócio baseados em longas escalas e uma tendência internacional de flexibilização com foco em produtividade, e não em quantidade bruta de horas. Países que já adotam jornadas menores, como Noruega, Holanda e Dinamarca, sustentam altos índices de renda per capita e maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. No Brasil, empresas de serviços, comércio e logística temem aumento de custos imediatos, enquanto defensores da mudança apostam em redução de adoecimento, queda de rotatividade e aumento de engajamento.

A discussão também alcança universidades e centros de pesquisa, que passam a destrinchar o banco de dados global usado na reportagem e a questionar a forma como o recorte foi apresentado ao público. Pesquisadores alertam para o risco de generalizações que desconsideram informalidade, subemprego e múltiplos vínculos, marcas históricas do mercado de trabalho brasileiro. Em 2025, por exemplo, cerca de 40% da força laboral atuava fora da proteção plena da CLT, o que distorce qualquer média simples de horas semanais.

No campo da comunicação, a ofensiva de Azevedo e de outras lideranças reabre o debate sobre a responsabilidade da imprensa na construção de estigmas. Críticos apontam que, ao associar menor volume de horas a menor esforço, veículos reforçam a imagem de que o trabalhador brasileiro é pouco dedicado, ignorando décadas de jornadas exaustivas e baixos salários. A Folha, até o momento, não divulga nota pública de retratação nem revisa a chamada da matéria, o que alimenta a campanha de boicote entre apoiadores do movimento contra a escala 6×1.

O episódio marca mais um capítulo da disputa sobre quem define o valor do trabalho no Brasil: planilhas internacionais, redações concentradas nas grandes capitais ou os próprios trabalhadores que enfrentam filas, ônibus lotados e semanas de seis dias. A temperatura política indica que a polêmica não se encerra na manchete de domingo. A partir da reação de Azevedo e de nomes como Gleisi Hoffmann, Elias Jabbour e André Rizek, a pressão tende a migrar para o plenário do Congresso, as mesas de negociação com o empresariado e as próximas pesquisas sobre jornada. A pergunta que fica é se o país vai escolher seguir o modelo de quem trabalha mais horas ou o de quem trabalha menos e vive melhor.

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