Resort de luxo ligado a Toffoli mantém ministro entre hóspedes VIP
O ministro do STF Dias Toffoli segue frequentando, em 2025, o Tayayá Aqua Resort, empreendimento de alto padrão em Ribeirão Claro (PR), que pertenceu a seus irmãos até fevereiro deste ano. A presença do ministro em um complexo com minicassino legalizado e estrutura milionária reacende o debate sobre fronteiras entre interesses privados e a atuação de autoridades do Judiciário.
Resort milionário na rota de um ministro do Supremo
Às margens do lago formado pela represa do rio Itararé, na divisa entre Paraná e São Paulo, o Tayayá se firma como um dos destinos mais caros da região. Heliponto, piscinas aquecidas, toboágua, quadras esportivas e um minicassino noturno compõem o cenário em que o ministro circula com discrição, transportado em um barco exclusivo do próprio resort.
O complexo opera no modelo de multipropriedade. Cada imóvel é dividido entre diversos cotistas, que têm direito a usar as unidades em períodos específicos do ano, enquanto hóspedes avulsos ocupam as vagas ociosas. Uma cota da unidade mais básica, o Aqua Luxo, no prédio principal, custa R$ 154 mil. Nas casas mais caras, no condomínio Ecoview, o valor ultrapassa R$ 750 mil por cota, em residências que reúnem 13 sócios.
No Ecoview, onde Toffoli se hospeda, as casas têm três suítes, cozinha, sala e varanda com piscina privativa, em geral voltada para a represa. Ali, a privacidade é um ativo tão valioso quanto a vista. O irmão do ministro, José Eugenio Toffoli, mantém uma casa no mesmo conjunto, reforçando a ligação familiar com o empreendimento.
O resort ganhou projeção nacional nos últimos dias justamente por essa relação. Entre 2021 e 2025, os irmãos José Eugenio e José Carlos Toffoli dividiram o controle do Tayayá com o fundo de investimentos Arleen, ligado à rede empresarial criada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master. A presença de um ministro do STF em um negócio dessa escala, ainda que como hóspede, amplia o escrutínio sobre a origem do capital e a governança do empreendimento.
Venda da participação familiar não encerra laços
Em fevereiro de 2025, a estrutura societária do resort muda. O advogado Paulo Humberto Barbosa compra, por cerca de R$ 3,5 milhões, a participação que pertencia à Maridt, empresa dos irmãos de Dias Toffoli. A família deixa oficialmente o quadro societário, mas não se afasta do cotidiano do complexo turístico.
Mesmo após a venda, o ministro continua a usar as casas mais exclusivas e o barco reservado para passeios sobre o lago. A rotina no Tayayá inclui trilhas, pista de caminhada, quadras de beach tênis, vôlei de praia, tênis e futsal, além de stand up paddle e caiaque na chamada praia da Ferradura. Nas dependências internas, o hotel principal, o Aquaparque, oferece sauna, academia, trattoria e centro de convenções.
As diárias para não cotistas começam em R$ 1,2 mil, valor que posiciona o Tayayá em um nicho de alto poder aquisitivo. Hamburgueria, pizzaria e choperia, temakeria e espaços infantis completam o cardápio de serviços. É nesse ambiente de lazer de luxo que opera, à noite, o minicassino administrado pela empresa de apostas esportivas Apostou.
A companhia afirma atuar de forma regulamentada no Paraná e diz que seus produtos passam por auditoria das Loterias do Estado do Paraná (Lottopar). O modelo explora uma zona ainda em construção na legislação brasileira, em que casas de jogos tradicionais seguem proibidas, mas plataformas de apostas esportivas buscam espaço sob marcos regulatórios estaduais e federais em discussão.
Pressão por transparência e risco de conflito de interesses
A permanência de um ministro do Supremo em um resort que até poucos meses tinha seus irmãos entre os sócios alimenta questionamentos sobre conduta e percepção pública. Especialistas em ética pública ouvidos por diferentes veículos defendem que autoridades de cúpula mantenham distância de negócios privados vulneráveis a decisões judiciais. “Não basta ser legal, precisa parecer correto aos olhos da sociedade”, resume a formulação recorrente nesse debate.
O caso Tayayá se insere em um momento em que o STF discute temas sensíveis para o setor de jogos e apostas, da tributação de plataformas online à eventual regulamentação mais ampla do mercado. A presença de um minicassino legalizado dentro de um empreendimento frequentado por um ministro adiciona uma camada simbólica a essa discussão. Mesmo sem decisão direta envolvendo o resort ou a Apostou, a convivência entre lazer privado e atribuições públicas tende a alimentar suspeitas e narrativas de conflito de interesses.
Na prática, episódios assim pressionam o Judiciário a adotar códigos de conduta mais claros sobre vínculos sociais e comerciais de ministros. Também podem estimular pedidos formais de esclarecimento ao próprio STF e a órgãos de controle, como conselhos de ética e corregedorias. A análise de viagens, hospedagens e relações familiares em negócios milionários deixa de ser tema apenas de bastidores para entrar no radar da opinião pública.
A revelação dos detalhes do Tayayá ocorre em um ambiente de desconfiança generalizada sobre a proximidade entre poder político, capital privado e magistratura. A participação de fundos de investimento, como o Arleen, e de figuras do mercado financeiro amplia a rede de interesses em torno do resort. A continuidade do uso do espaço por Toffoli, mesmo após a venda, sinaliza que o vínculo com o local é mais profundo do que uma simples estadia esporádica.
O que pode mudar a partir do caso Tayayá
A exposição do resort e da rotina do ministro tende a alimentar pedidos por mais transparência sobre bens, viagens e relações empresariais de integrantes das cortes superiores. No campo político, parlamentares já discutem propostas para endurecer regras de integridade, incluindo restrições a participação de familiares em negócios que possam ser afetados por decisões judiciais de grande impacto.
No setor de turismo de luxo, o episódio joga luz sobre um modelo de negócios que mistura multipropriedade, estruturas milionárias e serviços sensíveis, como jogos e apostas. O resultado pode ser uma maior fiscalização sobre concessões, licenças e contratos com empresas de apostas esportivas, inclusive em nível estadual. Para o ministro, o desfecho ainda é incerto: a pressão por explicações formais cresce, mas não há, por enquanto, um procedimento oficial aberto sobre o caso.
O Tayayá segue operando com alta ocupação e diárias de quatro dígitos, enquanto a imagem do resort deixa de ser apenas a de um refúgio de lazer para se tornar peça em um debate maior sobre ética e poder. A resposta que as instituições vão dar a esse tipo de aproximação entre o topo do Judiciário e negócios privados robustos ainda é uma pergunta em aberto — e ajuda a definir até onde vai, no Brasil, a tolerância da sociedade com essas fronteiras difusas.
