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Resistência do Irã frustra pressão dos EUA e amplia risco de escalada

WASHINGTON/TEERÃ – A Casa Branca eleva o tom contra o Irã em fevereiro de 2026, mas encontra uma resistência mais dura que o previsto em Teerã. Donald Trump, enviado especial dos Estados Unidos para a crise, admite a aliados que o governo iraniano “aguenta mais do que o calculado” e ameaça uma resposta militar drástica. A liderança iraniana reage com promessas públicas de “retaliação feroz” a qualquer ataque americano.

Crise se agrava em meio a cálculos errados

O impasse surge após semanas de pressão militar e diplomática dos Estados Unidos, que incluem o envio adicional de pelo menos dois grupos de porta-aviões ao Golfo Pérsico e novas sanções financeiras anunciadas em 5 de fevereiro. Assessores de Trump trabalham, desde o fim de janeiro, com cenários de colapso político em Teerã em até 90 dias, caso o cerco econômico se intensifique. A resistência iraniana, porém, desmonta a previsão.

Autoridades americanas, em reuniões reservadas com congressistas, admitem que o regime iraniano mantém apoio interno mais sólido do que indicavam relatórios de inteligência no fim de 2025. “O cálculo inicial subestimou a capacidade do Irã de absorver danos econômicos e projetar força militar”, afirma um diplomata europeu envolvido na mediação, sob condição de anonimato. Em público, Trump afirma que “todas as opções estão sobre a mesa” e não descarta, segundo interlocutores, operações para “derrubar a atual liderança” em Teerã.

A fala ecoa no Parlamento iraniano, que se reúne em sessão extraordinária em 12 de fevereiro para discutir uma resposta coordenada. O presidente iraniano acusa Washington de “aventurismo irresponsável” e diz que o país está pronto para “anos de confronto se for necessário”. O líder supremo reforça a linha dura em um discurso transmitido pela televisão estatal, ao afirmar que “qualquer ataque ao solo iraniano terá uma resposta multiplicada por dez”.

A escalada verbal acontece em um Oriente Médio já pressionado por conflitos regionais e por disputas pela rota do petróleo. Em 2025, o Estreito de Ormuz responde por cerca de 21% do comércio marítimo global de petróleo, segundo estimativas de consultorias internacionais. Um fechamento parcial da passagem, mesmo por alguns dias, provoca picos de até 15% no preço do barril em simulações internas de bancos americanos.

Mercados em alerta e risco de erro de cálculo

No mercado de energia, operadores acompanham cada declaração de Washington e Teerã. Desde o início de fevereiro, o preço do barril tipo Brent oscila em uma faixa de alta, com variações diárias próximas de 3%, reflexo direto da incerteza. Empresas europeias de transporte marítimo reavaliam rotas de navios-tanque e já falam em prêmios de seguro até 40% maiores para travessias próximas ao litoral iraniano.

Em Washington, parte do Congresso alerta para o risco de uma escalada rápida, impulsionada mais por gestos políticos do que por objetivos militares claros. Integrantes do Partido Democrata pressionam por uma resolução que limite ações unilaterais da Casa Branca sem autorização legislativa. Um senador republicano próximo a Trump admite desconforto com a retórica de mudança de regime: “Derrubar a liderança iraniana parece simples no discurso, mas pode criar um vácuo de poder de décadas”.

Teerã responde com demonstrações calibradas de força. Nas duas primeiras semanas de fevereiro, a Guarda Revolucionária realiza exercícios militares com mísseis de médio alcance e drones armados na costa sul do país. Imagens de satélite, divulgadas por think tanks independentes, mostram baterias de mísseis antinavio reposicionadas a menos de 50 quilômetros do Estreito de Ormuz. O recado é direto: qualquer erro de cálculo pode interromper, ainda que temporariamente, uma rota vital para a economia global.

A disputa também se desloca para a arena diplomática. Rússia e China, parceiros estratégicos de Teerã, usam o Conselho de Segurança da ONU para bloquear resoluções que abram caminho para uma ação militar mais ampla. Em reunião em 18 de fevereiro, um representante russo acusa os Estados Unidos de “brincar com fogo em uma região que alimenta o mundo”. Diplomatas chineses lembram que, juntos, China e Índia compram mais de 30% do petróleo exportado pelo Golfo, o que torna “inaceitável qualquer desestabilização prolongada”.

O Brasil observa a crise com cautela. Técnicos do Itamaraty preparam cenários para o impacto sobre o comércio exterior e sobre a inflação doméstica, caso o barril supere consistentemente a faixa dos US$ 100 por mais de três meses. Em 2025, o país importa cerca de 20% dos derivados de petróleo que consome, o que torna sensível qualquer choque nos preços internacionais.

Diplomacia em teste e incertezas adiante

No curto prazo, a aposta de mediadores europeus é adiar qualquer decisão irreversível. Enviados da União Europeia circulam entre Washington, Teerã, Moscou e Pequim em busca de um entendimento mínimo: reduzir manobras militares visíveis e estabelecer um canal direto de crise, capaz de conter incidentes no Golfo em questão de horas. “O perigo, agora, é menos um ataque planejado e mais um confronto acidental que saia de controle em 24 ou 48 horas”, avalia um pesquisador de segurança internacional em Bruxelas.

Trump, porém, constrói sua estratégia também de olho na política interna americana. O enviado especial usa a crise com o Irã para reforçar a imagem de liderança dura em ano pré-eleitoral, e promete, em um comício recente, “não tolerar humilhações”. Teerã, por sua vez, transforma a pressão externa em argumento de coesão nacional, ampliando o discurso de resistência diante do que chama de “cerco imperial”. Os dois lados parecem enxergar vantagem em manter a tensão alta, o que reduz o espaço para recuos discretos.

Em capitals aliadas aos Estados Unidos, cresce o temor de que a retórica de derrubada da liderança iraniana se torne, por si só, um ponto sem retorno. Analistas lembram a invasão do Iraque, em 2003, como exemplo de como mudanças de regime podem gerar ciclos longos de instabilidade. A diferença, agora, é que o Irã tem capacidade militar maior, rede de aliados regionais mais ampla e peso direto sobre o fluxo de petróleo global.

Para o Brasil e outros países emergentes, a margem de manobra passa por diversificar fontes de energia, reforçar estoques estratégicos e calibrar o discurso diplomático para não se alinhar automaticamente a nenhum dos polos. No Itamaraty, a leitura é que qualquer deslize verbal pode fechar portas comerciais ou políticas que serão decisivas nos próximos anos.

O desfecho imediato da crise continua aberto. As próximas semanas vão mostrar se prevalece o cálculo frio da diplomacia ou a aposta arriscada na pressão máxima. A pergunta que ronda chancelarias e mercados é se Washington e Teerã ainda conseguem recuar alguns passos sem perder a própria narrativa.

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