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Reportagem de Caco Barcellos no Irã reacende debate sobre guerra e jornalismo

Aos 76 anos, apoiado em uma bengala após cirurgia na coluna, o jornalista Caco Barcellos cruza a fronteira do Irã e mostra, em plena guerra, a vida em Teerã. A reportagem especial, exibida no Fantástico neste domingo (12 de abril de 2026), leva para a TV brasileira funerais, escombros e tentativas de normalidade em meio aos bombardeios.

Imagens raras de um país em guerra

O trabalho de Barcellos e do repórter Thiago Jock rompe uma barreira que hoje é quase intransponível. A TV Globo informa que a dupla integra um grupo de apenas três equipes estrangeiras autorizadas a atuar em território iraniano durante a guerra, ao lado de uma russa e outra britânica. O registro vindo das ruas de Teerã, sob forte controle militar, torna a reportagem um raro retrato de um país sob ataque.

A viagem começa ainda na Turquia. A equipe percorre cerca de 300 quilômetros até a fronteira, enfrenta checagem minuciosa de documentos e só então recebe autorização para entrar. O roteiro não é turístico nem panorâmico. Em boa parte do tempo, os jornalistas não podem filmar, nem sair do carro, presos a regras rígidas de segurança impostas pelo governo iraniano em meio à escalada do conflito.

Quando a câmera enfim sai à rua, a capital aparece em dois planos. De um lado, prédios residenciais transformados em escombros, hospitais atingidos e bairros inteiros marcados por crateras de mísseis. De outro, famílias que insistem em manter tradições, como piqueniques em parques da cidade, crianças brincando entre árvores e toalhas estendidas sobre a grama. A guerra entra no quadro, mas não apaga o cotidiano.

Nesse cenário, Barcellos escolhe a velha metodologia que o consagrou em coberturas de violência urbana e conflitos armados: ouvir quem sofre primeiro. Ele caminha com dificuldade, de bengala, mas se aproxima de mães em funerais, comerciantes que perderam tudo, jovens que não conhecem outro horizonte além do som das sirenes. A câmera o acompanha, quase sempre ao nível do chão, enquanto o jornalista pergunta pouco e escuta muito.

Vidas no centro da guerra e do debate público

O Irã registra pelo menos 1.639 execuções em 2025, o maior número desde 1989, segundo entidades de direitos humanos. O dado aparece na cobertura como pano de fundo de um Estado endurecido, que controla acessos, prensa estrangeiros e tenta administrar o impacto político da guerra. Ao mesmo tempo, os ataques estrangeiros se intensificam. Os Estados Unidos anunciam que pretendem bloquear todos os portos iranianos, medida prevista para começar em uma segunda-feira imediatamente após a exibição da reportagem.

Nos bairros atingidos, o foco não está em mapas militares, mas em pessoas. A equipe acompanha funerais de vítimas de bombardeios, com homens e mulheres carregando caixões sob cânticos religiosos e gritos de revolta. As manifestações exibem cartazes contra Estados Unidos e Israel, apontados por muitos como responsáveis diretos pela destruição recente. “Fez jornalismo no meio do povo, com imparcialidade e presença no local dos fatos”, escreve um internauta, resumindo a percepção de parte do público.

A repercussão é instantânea. No X, antigo Twitter, a reportagem domina as discussões na noite de domingo. Comentários emocionados se espalham em poucos minutos. “Eu odeio quando acordo emotiva e ver o Caco Barcellos andando de bengala no Irã me faz chorar”, diz um perfil. Outro destaca: “Caco Barcellos com quase 80 anos indo de muleta para o Irã. Que profissional”. Entre elogios, um usuário o chama de “um dos maiores brasileiros vivos”.

As mensagens não se limitam à admiração pessoal. Muitos usuários falam em empatia e mudança de perspectiva. “Poucos jornalistas mostram a realidade assim”, comenta um internauta. Para essa audiência, a presença física de Barcellos, “manco, de muleta, aos 76 anos”, como escreve outro perfil, reforça a noção de compromisso com o que ele chama, em outras ocasiões, de “jornalismo no meio do povo”. A dor visível do repórter em recuperação contrasta com a tentativa de normalizar a guerra como mais um capítulo distante do noticiário internacional.

O efeito colateral é imediato: o papel do jornalismo em zonas de conflito volta ao centro do debate. Professores, repórteres e estudantes de comunicação repercutem trechos da matéria em sala de aula e em threads nas redes. As cenas de prédios destruídos, ambulâncias sobrecarregadas e crianças em meio a sirenes reabrem discussões sobre responsabilidade, limites éticos, segurança de equipes em campo e a necessidade de contar histórias de civis, não apenas de líderes políticos ou generais.

Jornalismo de risco, impacto duradouro

Em um momento em que desinformação circula com velocidade e imagens de guerra se tornam conteúdo de propaganda, a reportagem do Fantástico funciona como contraponto. A presença de uma equipe brasileira em Teerã, por seis dias, oferece ao público um recorte raro: a visão de quem mora ali, vive com a ameaça diária de mísseis e enterra parentes sob bandeiras negras. O impacto não se mede apenas em audiência de domingo à noite, mas na forma como o espectador passa a interpretar manchetes sobre o Irã nas semanas seguintes.

Discussões sobre segurança de repórteres ganham força. A missão de Barcellos e Jock ocorre em ambiente hostil, com circulação limitada e fiscalização constante. O simples ato de apontar uma câmera para um hospital atingido pode significar o fim da autorização de trabalho. Ainda assim, a reportagem entrega imagens exclusivas, colhidas em pontos sensíveis da capital. A cada plano, fica clara a tensão entre a necessidade de registrar e a obrigação de proteger equipe, fontes e moradores.

O prestígio de Barcellos, construído em décadas de investigações sobre violência policial, chacinas e violações de direitos humanos, ajuda a dar lastro à cobertura. A figura do repórter veterano, fragilizado fisicamente, mas ainda disposto a enfrentar um front distante, inspira elogios mas também questionamentos sobre até onde vai a responsabilidade de redações ao escalar profissionais para zonas de risco. A comoção nas redes mostra que o público acompanha não apenas a história contada, mas também quem a conta.

O que fica após as imagens e o que ainda vem

Os desdobramentos vão além do domingo de exibição. A ampla circulação dos vídeos nas redes aproxima brasileiros de um conflito que, muitas vezes, aparece diluído em siglas diplomáticas e disputas estratégicas. Quando o noticiário registra que o Exército dos EUA promete bloquear todos os portos iranianos ou que o país executa 1.639 pessoas em um único ano, esses números passam a ter rostos associados. São os rostos que Barcellos mostra, debaixo de fumaça, em meio a sirenes e orações.

O trabalho também pressiona veículos de comunicação a rever prioridades de cobertura internacional. Em um cenário de cortes de orçamento e dependência de agências estrangeiras, a decisão de enviar uma equipe própria a um território em guerra sinaliza aposta em jornalismo de profundidade, caro e arriscado. Para parte da audiência, a matéria recoloca a reportagem de campo como eixo central da produção de informação de qualidade.

Os próximos capítulos dependem da evolução da guerra e das respostas dos governos envolvidos. Se o bloqueio dos portos iranianos se confirma e a escalada militar continua, o acesso de jornalistas estrangeiros tende a ficar ainda mais restrito. A experiência recente no Irã indica que cada autorização, cada entrevista e cada imagem pode se tornar disputa política. A pergunta que permanece é se o público seguirá disposto a exigir esse tipo de cobertura e se as redações manterão a disposição de entrar, de novo, em territórios onde contar a verdade custa caro.

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