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Renovação automática da CNH já beneficia 300 mil motoristas

Motoristas com carteira de habilitação em dia começam 2026 com uma novidade: a renovação automática da CNH. Na primeira semana de implantação, cerca de 300 mil condutores em todo o país já atualizam o documento sem ir ao Detran, usando apenas o aplicativo Carteira Digital de Trânsito ou o Portal da Senatran.

Digitalização acelera rotina de quem dirige

O novo sistema entra em funcionamento nacional na virada de janeiro de 2026 e muda um dos rituais mais conhecidos de quem dirige: a peregrinação aos postos de atendimento para renovar a carteira. A ferramenta cruza, em questão de segundos, dados de infrações, validade da CNH e informações cadastrais para indicar se o motorista pode ou não fazer parte da renovação automática.

A regra é clara: só entra na fila rápida quem mantém a CNH ativa e passa ao menos 12 meses sem qualquer multa registrada. É esse grupo que alimenta o Registro Nacional Positivo de Condutores, o RNPC, espécie de cadastro de bons motoristas do país. O sistema identifica quem está em situação regular e libera a atualização do documento diretamente pelo celular ou pelo computador.

Os primeiros dados revelam quem mais se beneficia. Entre os cerca de 300 mil motoristas atendidos na primeira semana, 52% têm carteira categoria B, exclusiva para carros. Outros 45% possuem licença AB, que permite dirigir carros e motos, enquanto 3% são habilitados apenas para motocicletas, na categoria A. O restante se divide entre condutores profissionais das categorias C e D.

Na prática, o processo começa no aplicativo Carteira Digital de Trânsito ou no Portal de Serviços da Secretaria Nacional de Trânsito, a Senatran. O motorista faz login, confirma dados pessoais, autoriza o uso das informações e aguarda a checagem automática. Em poucos minutos, o sistema retorna com a confirmação de renovação ou com a orientação para procurar o Detran do estado, em casos específicos.

Quem ganha agilidade e quem fica de fora

A mudança atinge principalmente motoristas de meia-idade, que hoje convivem com prazos diferentes para renovar a habilitação. Desde a última alteração no Código de Trânsito, quem tem menos de 50 anos renova o documento a cada dez anos. Entre 50 e 69 anos, o prazo cai para cinco anos. A partir dos 70, a renovação passa a ser exigida a cada três anos.

O novo sistema acompanha essa divisão, mas impõe travas. Motoristas com menos de 50 anos e histórico limpo passam a ter um ciclo de renovação muito mais simples, praticamente sem papel e sem fila. Para quem está na faixa entre 50 e 69 anos, a renovação automática vale apenas uma vez. Depois disso, o condutor volta à rotina tradicional, com exame presencial e avaliação médica.

Os mais idosos ficam fora da automatização. Motoristas com 70 anos ou mais continuam obrigados a ir ao Detran, renovar a CNH a cada três anos e passar por exames presenciais. A mesma regra se aplica a quem teve a validade da carteira reduzida por recomendação médica, em razão de doenças progressivas ou condições que exigem acompanhamento constante. Nesses casos, a avaliação individual de saúde prevalece sobre qualquer atalho digital.

Também não entram no sistema automático os motoristas com a CNH vencida há mais de 30 dias. Quem se enquadra nessa situação precisa regularizar o documento pelos canais tradicionais. O objetivo declarado é incentivar que o condutor mantenha a habilitação sempre em dia e não espere o vencimento para resolver pendências.

A lógica por trás do RNPC reforça essa ideia. Para integrar o cadastro positivo, o condutor não pode ter registro de infração nos últimos 12 meses e precisa se cadastrar voluntariamente pelos canais digitais. A partir daí, passa a ser reconhecido como bom motorista pelo sistema de trânsito. “O foco é valorizar quem cumpre as regras, oferecendo serviços mais rápidos e comodidade”, afirma um técnico ligado à implementação, sob condição de anonimato, ao explicar o desenho da política.

Menos fila, mais digitalização e nova cultura no trânsito

A renovação automática da CNH nasce com ambição de escala. Com cerca de 80 milhões de condutores habilitados no país, mesmo que uma parcela relativamente pequena atenda às condições do RNPC, o impacto sobre a máquina pública tende a ser expressivo. Cada processo feito pelo aplicativo libera tempo e estrutura de atendimento em Detrans que ainda funcionam, em muitos estados, no limite da capacidade.

Especialistas em gestão pública veem na medida um passo consistente na digitalização dos serviços de trânsito. Menos atendimento presencial significa menor custo operacional, redução de filas e ganho de tempo para o cidadão. Em um cenário em que serviços como imposto de renda, carteira de trabalho e título de eleitor já migraram para o ambiente digital, a CNH acompanha o movimento.

O efeito imediato aparece na rotina de quem depende do carro ou da moto para trabalhar. Motoristas de aplicativo, entregadores e profissionais que atuam em transporte leve, em geral nas categorias A, B e AB, trocam o deslocamento ao Detran por alguns minutos no celular. “Eu sempre ficava preocupado em conseguir um horário de renovação antes de vencer a carteira. Agora, resolvo tudo em casa”, relata um motorista de 38 anos, habilitado na categoria B, em São Paulo.

Os limites do modelo, porém, já alimentam discussões. Entidades de representação de idosos cobram atenção para não transformar a digitalização em novo obstáculo, sobretudo para quem tem mais de 70 anos e enfrenta dificuldade com aplicativos. A exigência de comparecimento presencial, nesse grupo, aparece como medida de segurança, mas também expõe desigualdades no acesso à tecnologia.

Outro ponto em debate é a relação entre a renovação automática e a percepção de risco no trânsito. Ao vincular o benefício à ausência de multas por 12 meses, o governo tenta reforçar a cultura de respeito às regras. A mensagem é direta: quem dirige de forma responsável economiza tempo e evita burocracia. A dúvida é se esse tipo de incentivo é suficiente para alterar comportamentos em um país que ainda registra altos índices de acidentes.

Próximos passos e desafios da nova etapa

Os próximos meses funcionam como teste de estresse para o sistema. O governo aposta na adesão gradual, puxada por motoristas mais jovens e conectados, enquanto monitora falhas técnicas e gargalos no cruzamento de bases de dados. Erros de cadastro, divergências de informação entre Detrans estaduais e a Senatran e instabilidades nos aplicativos são pontos críticos dessa fase inicial.

Se a renovação automática se consolidar, a tendência é que outros serviços de trânsito sigam o mesmo caminho, como a emissão de segunda via de documentos e parte dos processos de transferência de veículos. A digitalização, no entanto, não elimina a necessidade de fiscalização nas ruas, nem substitui a discussão sobre educação no trânsito, formação de novos condutores e revisão periódica das regras.

O início de 2026 marca, assim, uma inflexão silenciosa na relação entre o motorista e o Estado. O que antes exigia papelada, deslocamento e horas de espera cabe agora em poucos cliques. A experiência dos 300 mil primeiros usuários indica o potencial de escala da medida, mas também expõe o tamanho do desafio de incluir idosos, pessoas com pouco acesso a internet e condutores com restrições médicas.

Enquanto a fila virtual avança e o balcão físico esvazia, a pergunta que fica é se a combinação de tecnologia e recompensa ao bom comportamento será suficiente para mudar a cultura no trânsito brasileiro ou se, no fim, a renovação automática da CNH será apenas mais um serviço digital em um cenário ainda marcado por acidentes e desrespeito às normas.

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