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Renan Filho defende vice do MDB para Lula e chapa mais ao centro em 2026

Em entrevista publicada neste 8 de fevereiro de 2026, o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), defende que Lula empurre sua chapa rumo ao centro político e cogita oferecer a vaga de vice ao MDB para isolar o bolsonarismo em 2026.

MDB no centro da disputa pelo vice

Renan Filho fala abertamente de um rearranjo na aliança que leva Lula ao Palácio do Planalto. Ao jornal O Globo, o ministro sustenta que o presidente precisa ir “o máximo possível do centro político” em 2026 e indica o MDB como peça-chave dessa estratégia. A eventual oferta da vice ao partido se torna, na leitura dele, instrumento para fechar um acordo formal e emparedar a extrema direita.

O ministro descreve o MDB como legenda decisiva pela capilaridade em prefeituras, assembleias e no Congresso. Segundo ele, essa musculatura pode ampliar o arco de alianças além da base histórica do PT e dar nova moldura ideológica à campanha. “O MDB é muito importante para ampliar, do ponto de vista administrativo e ideológico, a candidatura do presidente Lula. Precisa construir uma frente mais ampla do que o PT e do que o próprio presidente Lula, a fim de ocupar o máximo possível do centro político, isolando o bolsonarismo na extrema direita”, afirma.

A discussão ocorre a menos de nove meses das eleições municipais, que funcionam como laboratório para 2026. Renan calcula que uma coalizão aberta ao centro pode capturar setores conservadores desconfortáveis com o bolsonarismo e aproveitar a fragmentação da direita em torno de novas siglas e projetos regionais. Nesse desenho, partidos sem candidato competitivo ao Planalto tenderiam a se alinhar a quem oferece estabilidade e governabilidade.

Questionado sobre a vice, o ministro evita cravar um nome, mas vincula a negociação a um pacote mais amplo, que passa pela política econômica e pela divisão de poder em um eventual segundo mandato. “A negociação será ditada pela proposta para os próximos quatro anos, a linha da economia… E, sim, a própria participação (do MDB) no governo e a composição da chapa”, diz. Ele admite que lideranças emedebistas pressionam por mais espaço porque carregam projetos presidenciais, estaduais e para o Senado.

O cálculo envolve também o futuro de Geraldo Alckmin (PSB), vice de Lula desde 2023 e figura central na reaproximação do presidente com o empresariado. Renan reconhece o papel do ex-governador e descreve o debate como natural. “O presidente está verificando qual é a melhor aliança que amplia a possibilidade de reeleição. E digo isso com a certeza de que o vice-presidente Geraldo Alckmin é um grande vice e ampliou essa aliança neste primeiro mandato. Haverá um novo debate sobre isso.” A própria possibilidade de Renan ocupar a vaga é relativizada por ele, que reafirma a prioridade de disputar o governo de Alagoas.

Tensões regionais, CNH e a disputa pela pauta da segurança

Em Alagoas, o ministro constrói um palanque próprio enquanto observa o xadrez nacional. Ele descreve um cenário em aberto, marcado pela dúvida sobre o futuro do prefeito de Maceió, JHC (PL), que ainda decide se concorre ao governo do estado ou ao Senado em 2026. Renan exalta o tamanho do MDB local — maioria na Assembleia, presença forte em prefeituras e vaga no Senado com Renan Calheiros — e assegura uma cadeira para o senador na chapa majoritária.

O discurso endurece quando surge o nome de Arthur Lira (PP-AL). Renan descarta dividir palanque estadual com o presidente da Câmara, embora reconheça que Lula, em Brasília, possa buscar seu apoio. “O presidente Lula deve ter o maior número de apoios possível, mas isso não implica estarmos no mesmo palanque do Lira, que atrapalha o estado”, afirma. Ele acusa o deputado de comandar o Orçamento Secreto no governo Bolsonaro sem entregar “uma obra relevante” em Alagoas e sintetiza a rejeição com metáfora futebolística: “Seria trazer para o seu time aquele que faz o gol contra.”

As diferenças evidenciam o choque entre alianças nacionais amplas e rivalidades regionais que atravessam décadas. Ao se apresentar como pré-candidato ao governo alagoano, Renan sinaliza que não pretende ceder o controle do MDB local a rivais e aposta na presença de Lula em seu palanque como diferencial na disputa estadual. O movimento tenta combinar a força do lulismo, que em 2022 elegeu governadores em estados-chave, com redes políticas já consolidadas no Nordeste.

A entrevista também avança para temas que mexem com a rotina de milhões de brasileiros. Renan sai em defesa da reforma no processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação, alvo de críticas de especialistas em trânsito e autoescolas. Ele aposta que a mudança, que reduz o peso da manobra de baliza nos exames, encontra ressonância popular por aliviar custos e a sensação de reprovação injusta. “A crítica não é justa. A baliza não seleciona quem sabe ou não dirigir, e a pessoa não vai deixar de aprender, ela só não vai constar na prova. O exame tinha virado uma indústria da reprovação”, diz.

O ministro tenta deslocar o debate sobre segurança no trânsito para fatores como velocidade, consumo de álcool e uso de celular ao volante, apontados por estatísticas oficiais como causas predominantes de acidentes fatais. A aposta é que uma política percebida como menos punitiva, combinada a campanhas educativas e fiscalização direcionada, produza resultados mensuráveis até 2026. “É uma política pública popular que vai na direção do que as pessoas precisam. Chega na ponta, o que obviamente tem força”, resume.

A segurança pública, tema que tende a ocupar o centro da campanha presidencial, também entra no radar. Renan rejeita a ideia de que o governo Lula esteja vulnerável nessa área e sugere que o embate com a direita se dará com base em indicadores, não em vídeos de redes sociais. Ele menciona possíveis confrontos entre nomes do governo e figuras ligadas às gestões de São Paulo, estado governado por siglas mais conservadoras desde 1995, e diz que seria “muito legal de ver” esse choque de dados sobre homicídios, letalidade policial e investimentos.

Ao tratar do MDB, Renan também reserva espaço para Simone Tebet, ministra do Planejamento e nome que sai da eleição de 2022 com 4,2% dos votos válidos na corrida presidencial. Ele defende que o partido valorize a senadora licenciada e alerta para o risco de legendas que “não usam seus melhores quadros por interesses de terceiros”. Se não houver espaço, avalia, outras siglas podem tentar atraí-la para compor federações ou chapas majoritárias.

Investimentos, caso Master e o roteiro até 2026

Renan também se vê obrigado a comentar um dos temas mais delicados da agenda recente do Planalto: o encontro, fora da agenda, entre Lula e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, alvo de investigações. O ministro tenta blindar o governo e associa o caso à oposição. “O governo não tem relação com esse caso. O presidente Lula recebeu o Vorcaro como recebeu outros representantes de instituições financeiras do Brasil. São muito claras as ligações do Master com a oposição”, afirma.

Ele aponta o episódio como potencial munição eleitoral, descrevendo-o como possível “maior desfalque do sistema financeiro nacional”. Ao insistir que as investigações ocorrem já no atual governo, Renan tenta afastar o risco de contaminação da narrativa de retomada econômica, sustentada em queda do desemprego, juros em trajetória de baixa e retomada de obras paradas desde a crise de 2015 e o período de desmonte do investimento público após 2016.

Na área que comanda, o ministro apresenta números robustos. A promessa é contratar mais de R$ 400 bilhões em investimentos em quatro anos, combinando recursos públicos e capital privado. Para 2026, ele projeta até 23 leilões de rodovias e ferrovias, com destaque para concessões que aliviam o caixa da União e deslocam para a iniciativa privada a responsabilidade por duplicações, manutenção e ampliação de capacidade logística. “Isso aumenta o investimento em infraestrutura e desonera o Tesouro. Vamos chegar a mais de R$ 400 bilhões de investimentos contratados em quatro anos”, afirma.

O calendário, segundo Renan, segue blindado mesmo se ele deixar o ministério em março para disputar o governo de Alagoas. Ele calcula realizar pessoalmente ao menos dois leilões no primeiro trimestre e deixar o restante da carteira estruturado. A mensagem é que a política de obras e concessões não depende de um nome específico, mas de um desenho institucional já em curso, alinhado à estratégia de crescimento com responsabilidade fiscal.

O conjunto da entrevista ajuda a desenhar o roteiro petista até 2026. De um lado, a tentativa de montar uma frente ampla, com o MDB no centro, capaz de isolar o bolsonarismo e reduzir o espaço de alternativas conservadoras fragmentadas. De outro, a busca por entregas palpáveis — CNH mais simples, juros menores, obras visíveis, concessões bilionárias — que cheguem “na ponta” e disputem o imaginário com o discurso punitivista que dominou o debate público na última década.

Na prática, o movimento recoloca o MDB como fiel da balança da governabilidade, tanto no Congresso quanto nas alianças estaduais. A dúvida que fica, até a convenção partidária de 2026, é se a legenda vai se ancorar de vez no projeto lulista com a vice na chapa ou se usará seu peso para barganhar alternativas, mantendo em aberto a porta para um novo realinhamento no centro político brasileiro.

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