Remédio ligado a vícios em sexo e jogos acende alerta global
Centenas de pacientes relatam desenvolver vícios em jogos e sexo entre 2025 e o início de 2026 após usar um medicamento de prescrição. A investigação é da BBC e pressiona autoridades de saúde a rever protocolos de segurança.
Efeitos colaterais que viram mudança de vida
O estudo reúne depoimentos de usuários que nunca haviam tido histórico de jogo compulsivo ou comportamento sexual de risco. Após alguns meses de tratamento, descrevem uma virada brusca: gastos crescentes em cassinos físicos e plataformas on-line, maratonas de apostas esportivas, buscas por sexo casual em série e consumo intenso de pornografia. Em vários casos, a nova rotina se instala em menos de seis meses de uso contínuo do remédio.
Os relatos aparecem em diferentes países e faixas etárias, o que sugere um padrão global de reação ao fármaco, e não episódios isolados. Pacientes contam que, em questão de semanas, passam de orçamentos controlados a dívidas de dezenas de milhares de reais, compromissos atrasados e empréstimos em cascata. A deterioração das relações familiares costuma vir em seguida, com brigas constantes, desconfiança e separações. Há quem relate ter perdido o emprego depois de faltar ao trabalho para apostar ou buscar encontros sexuais.
Investigação amplia pressão sobre médicos e reguladores
A BBC identifica, em 2025, um aumento expressivo de queixas em fóruns de pacientes, ações judiciais e notificações formais a agências reguladoras. Nos bastidores, entidades médicas admitem desconforto com a forma como a bula apresenta o risco de impulsividade, muitas vezes em linguagem vaga. “Não é um simples efeito colateral, é uma alteração profunda de comportamento”, afirma um psiquiatra ouvido pela reportagem sob condição de anonimato. Ele defende avisos mais claros, em destaque, antes da primeira receita.
Em alguns países, associações de pacientes pressionam por rótulos de advertência semelhantes aos aplicados a antidepressivos que aumentam risco de pensamentos suicidas. A crítica central é que, embora artigos científicos citem, desde meados da década passada, a possibilidade de comportamentos compulsivos ligados a certos medicamentos, a tradução desse conhecimento para a prática diária anda atrasada. O resultado é um vácuo de proteção. Muitos pacientes dizem que recebem apenas um alerta genérico sobre “possível aumento de impulsividade”, sem detalhes concretos sobre sexo compulsivo ou jogo patológico.
Vício induzido por remédio desafia sistema de saúde
As consequências financeiras e emocionais são imediatas. Um grupo de advogados que acompanha casos na Europa relata ações que vão de R$ 50 mil a mais de R$ 1 milhão em perdas acumuladas. Famílias contam que descobrem o problema por extratos bancários descontrolados, ligações de credores ou mensagens de sites de apostas. Quando o vínculo com o remédio aparece, o dano já está consolidado: pessoas endividadas, casamentos rompidos, filhos em meio a disputas judiciais.
Para a saúde pública, o impacto também é pesado. Sistemas já sobrecarregados por depressão, ansiedade e abuso de substâncias passam a absorver uma nova camada de demanda, ligada a vícios desencadeados por medicamentos. Clínicas relatam aumento de procura por terapia combinada, com psiquiatras, psicólogos e, em alguns casos, assessoria financeira. Especialistas defendem protocolos específicos, com acompanhamento mensal dos primeiros seis meses de uso e questionários diretos sobre comportamento de risco. “Perguntar só sobre insônia e náusea não basta. É preciso encarar o tema do impulso, do dinheiro e da sexualidade de forma objetiva”, diz um pesquisador em saúde mental ouvido pela BBC.
Histórico de alertas ignorados e debate sobre responsabilidade
A discussão atual se insere em uma trajetória conhecida de outros medicamentos que interferem no cérebro. Nos anos 2000, drogas indicadas para doença de Parkinson entram no noticiário internacional após associações com jogo patológico e compras compulsivas. Estudos posteriores estimam que até 14% dos usuários desenvolvem algum tipo de comportamento de risco. As lições daquele período agora voltam ao centro do debate, com críticas à lentidão na incorporação de alertas robustos, revisões de bula e treinamentos para médicos.
Organizações de defesa do consumidor questionam quem assume a responsabilidade pelos danos. Fabricantes, por sua vez, tendem a apontar para a importância do uso adequado, em doses recomendadas, e do monitoramento regular. Médicos, pressionados por agendas lotadas e metas de atendimento, nem sempre dedicam o tempo necessário a explicações detalhadas. No meio desse triângulo, paciente e família ficam com as consequências práticas: dívidas, estigma e uma sensação recorrente de traição pela própria terapia. Em vários dos relatos, a frase se repete: “Perdi o controle e não reconheço mais quem eu era”.
Reação de agências e o que pode mudar a partir de 2026
Os casos expostos entre 2025 e o início de 2026 aceleram a movimentação de agências reguladoras. Equipes técnicas avaliam atualizar bulas, incluir advertências em letras maiores e exigir materiais educativos para médicos e farmácias. Há discussões para que novos protocolos determinem revisão obrigatória da prescrição a cada três meses e questionários padronizados sobre comportamento impulsivo antes e durante o tratamento. Em paralelo, conselhos profissionais analisam se devem recomendar que médicos registrem, por escrito, a orientação dada ao paciente sobre riscos de vício.
Especialistas em saúde mental pedem que a resposta vá além da troca de papéis na caixinha do remédio. Defendem campanhas públicas específicas sobre o tema, linhas de atendimento para orientação de famílias e estruturas ágeis de notificação de efeitos adversos. A expectativa é que, ao longo de 2026, estudos mais amplos tragam números consolidados sobre a frequência desses vícios e ajudem a calibrar riscos e benefícios. Até lá, uma pergunta incomoda profissionais e pacientes: quantas pessoas ainda vão perder dinheiro, relacionamentos e projetos de vida antes de o alerta chegar com a clareza necessária?
