Relógio do Juízo Final é ajustado para 85 segundos do fim
O Relógio do Juízo Final é adiantado para 85 segundos para a meia-noite nesta terça-feira (27), o menor intervalo já registrado desde sua criação. O anúncio, feito pelo Bulletin of the Atomic Scientists nos Estados Unidos, reforça o alerta de que a humanidade se aproxima perigosamente de uma catástrofe global.
Um símbolo criado na Guerra Fria, em seu ponto mais crítico
O painel de cientistas e especialistas em segurança do Bulletin se reúne em janeiro há quase oito décadas para ajustar os ponteiros desse relógio metafórico. Criado em 1947, o marcador nasce sob o impacto das bombas de Hiroshima e Nagasaki, com o objetivo de traduzir em uma imagem simples o risco de destruição em larga escala. Hoje, 79 anos depois, o instrumento atinge seu ponto mais crítico.
O avanço para 85 segundos reflete, segundo o comunicado divulgado nesta terça-feira, a combinação de dois vetores principais: o aumento das tensões nucleares e o agravamento das mudanças climáticas. Em linguagem direta, os cientistas dizem que o mundo vive um “período de perigo extraordinário”, em que uma sucessão de decisões políticas equivocadas pode empurrar o planeta para um ponto sem retorno.
O relógio já esteve mais distante da meia-noite, em momentos que hoje parecem quase ingênuos. Em 1991, no fim da Guerra Fria, o ponteiro recuou para 17 minutos do fim após o tratado START de redução de arsenais estratégicos entre Estados Unidos e União Soviética. Desde então, a trajetória é de aproximação quase contínua, à medida que acordos se erodem, novos armamentos surgem e a crise climática se acelera.
Risco nuclear, aquecimento global e um recado aos governos
O comunicado do Bulletin descreve um cenário em que riscos diferentes se somam. Os especialistas citam a modernização de arsenais nucleares, o enfraquecimento de pactos de controle de armas e conflitos regionais que envolvem potências atômicas. Cada movimento militar, cada teste de míssil, cada ameaça velada ajuda a empurrar os ponteiros alguns segundos adiante, mesmo quando nada explode.
No campo climático, os cientistas apontam a sucessão de recordes de temperatura registrados ao longo de 2025 e o avanço de eventos extremos, como ondas de calor, enchentes e secas prolongadas em vários continentes. Dados da última década indicam uma tendência clara: os sete anos mais quentes da história são recentes, resultado direto da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento em larga escala.
O relógio, que não mede o tempo real, mas a intensidade dos riscos, procura transformar essa convergência de ameaças em um alerta político. A instituição afirma que a humanidade dispõe de conhecimento científico e instrumentos diplomáticos para afastar os ponteiros da meia-noite, mas insiste que falta vontade de implementar medidas em escala adequada. “O mundo não está condenado, mas está perigosamente perto de se condenar”, resume o texto do grupo.
O impacto imediato da decisão não está em alguma sanção ou mudança automática de regra internacional. O poder do relógio reside na forma como ele reorganiza o debate público. Governos são pressionados a justificar gastos com arsenais nucleares em vez de investir em adaptação climática. Organismos multilaterais voltam a falar em metas concretas, como cortes mais rápidos nas emissões de gases de efeito estufa até 2030 e retomada de tratados de não proliferação.
Pressão global por acordos e a disputa por prioridades
A atualização para 85 segundos tende a alimentar discussões em conferências internacionais, parlamentos nacionais e fóruns acadêmicos. Em negociações sobre clima, delegações de países vulneráveis devem usar o novo patamar como prova de que o planeta esgota o tempo para limitar o aquecimento a 1,5°C neste século. Em mesas sobre segurança, diplomatas tentam reabrir canais de diálogo entre potências que, na prática, pouco conversam sobre desarmamento.
Setores inteiros da economia entram na linha de frente. A indústria de energia sofre pressão para acelerar a transição para fontes renováveis, em prazos muitas vezes inferiores a 15 ou 20 anos. Fabricantes de armamentos, por outro lado, multiplicam encomendas num ambiente de desconfiança mútua, o que torna mais difícil qualquer recuo. Países dependentes de fósseis, como petróleo e carvão, enfrentam a escolha entre manter receitas de curto prazo ou reposicionar suas matrizes energéticas.
A sinalização dos cientistas também atinge a sociedade civil. Organizações ambientais e movimentos antinucleares ganham novo argumento para cobrar transparência de governos e empresas. Universidades e centros de pesquisa usam o relógio como ferramenta didática para explicar riscos complexos a estudantes e à opinião pública. Ao mesmo tempo, cresce a cobrança por planos concretos, com metas anuais e indicadores verificáveis, em vez de promessas genéricas para 2050 ou além.
A decisão tomada em 27 de janeiro de 2026 não encerra o debate sobre o futuro, mas o torna mais urgente. Os ponteiros podem recuar, como já aconteceu, se países reduzirem arsenais nucleares, firmarem novos tratados e cortarem emissões em ritmo compatível com o que a ciência recomenda. Podem também avançar, caso conflitos se ampliem ou metas climáticas sejam abandonadas. A imagem de 85 segundos para o fim funciona, a partir de hoje, como uma pergunta incômoda: quanto tempo mais governos, empresas e sociedades vão esperar para agir como se esse relógio de fato existisse?
