Relatório aponta agressões, ameaças e uso de armas de choque por PMs durante megaoperação no Rio
Imagens de câmeras corporais registram mototaxistas agredidos, mulheres atingidas por eletrochoques e homem sufocado com pano ensanguentado durante ação que deixou 122 mortos.

Um relatório da Defensoria Pública do Rio de Janeiro aponta episódios de agressões, ameaças e uso de armas de eletrochoque contra moradores durante a Megaoperação Contenção, realizada nos complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025. Imagens das câmeras corporais de policiais militares registraram mototaxistas agredidos, mulheres atingidas por descargas elétricas e um homem sufocado com um pano ensanguentado enquanto era ameaçado de morte.
Elaborado pela 3ª Defensoria Pública do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, em conjunto com o Projeto Mirante, o documento também identifica falhas no uso e na disponibilização das gravações. A operação terminou com 122 mortos, incluindo cinco policiais, e foi considerada a mais letal da história do estado.
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Imagens registram agressões e ameaças contra moradores
Um dos episódios descritos envolve um homem detido por policiais do Batalhão de Polícia de Choque no Complexo da Penha. Acusado de atirar contra a equipe e se desfazer de um fuzil, ele aparece imobilizado no chão, com o pé de um policial sobre a cabeça.
Em determinado momento, um agente ordena que o homem seja levado para um beco e diz:
“Vamos matar essa p*rra!”. As gravações registram ameaças, uma agressão no rosto e a colocação de um pano ensanguentado sobre a cabeça do detido. Enquanto o tecido é mantido sobre ele, policiais perguntam onde estaria o fuzil. “Se falar onde tá o fuzil, o sofrimento acaba!”, afirma um dos agentes.
O relatório também descreve golpes com um pedaço de madeira durante o deslocamento do homem até uma laje. Em outro trecho, policiais fazem comentários sobre a possibilidade de jogá-lo de um local alto:
“Ele vai virar avião, vai voar!”.
Houve um intervalo de aproximadamente 17 minutos sem registros da vítima. O objeto apontado como fuzil só aparece depois desse período, e nenhuma gravação mostra o momento em que teria sido encontrado. A identidade do homem não foi confirmada pelos responsáveis pelo relatório.
Mototaxistas foram agredidos e mulheres receberam eletrochoques
As câmeras de quatro policiais do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão (Recom), responsáveis pelo cerco ao Complexo do Alemão, registraram agressões contra mototaxistas, que receberam tapas e chutes. Em outro episódio, um motociclista foi sufocado com uma peça de roupa.
O documento também relata o caso de um idoso que filmava uma abordagem com o celular e foi obrigado a apagar o vídeo. As imagens mostram policiais agredindo e revistando um mototaxista quando o homem se aproxima de carro.
“Te acho onde eu quiser! Apaga essa p*rra! Vai embora!”, ameaça um dos agentes.
Em um supermercado onde havia informações sobre um possível saque, policiais dispararam gás lacrimogêneo contra mulheres e crianças. Funcionários aparecem passando mal, enquanto agentes riem da situação.
Em outra abordagem, mulheres que desciam de um ônibus foram atingidas por armas de eletrochoque. Pelo menos sete foram detidas. Uma delas recebeu uma descarga mesmo depois de estar rendida e pedir calma a um policial.
O relatório ainda descreve a abordagem a uma mulher que se identificou como trabalhadora da saúde. Segundo as imagens e os áudios, ela foi atingida por uma arma de eletrochoque e recebeu um jato de gás no rosto antes de ser liberada. Durante a ação, um policial a chamou de “informante de vagabundo” e disse que gostaria de “arrebentar” a mulher e quebrar a perna dela.
Relatório identifica falhas nas câmeras corporais
A análise considerou 10.202 arquivos de vídeo de 529 policiais. Nenhuma gravação mostra os momentos das mortes ocorridas durante a operação. Segundo os autores, a ausência de registros impede a reconstrução da dinâmica dos óbitos e a identificação de responsabilidades individuais.
Também não foram localizadas gravações de 69 policiais militares. Outros 50 vídeos foram entregues sem o código hash, mecanismo utilizado para verificar a integridade dos arquivos.
Os pesquisadores identificaram câmeras retiradas dos uniformes, viradas para paredes e tetos ou obstruídas intencionalmente. Em pelo menos dois casos, equipamentos estavam associados ao mesmo registro geral (RG) e gravavam simultaneamente em locais diferentes. Um policial chegou a afirmar que conseguiria “tirar 300 câmeras no mesmo RG”.
O relatório também aponta falhas na localização e na velocidade registradas pelos equipamentos, o que dificulta a reconstrução dos trajetos dos agentes.
Maioria dos policiais do Bope que mais dispararam não tinha câmera
Entre as unidades especializadas da Polícia Militar cujos dados foram informados, foram contabilizados 13.851 disparos. Desse total, 11.995 — 86,6% — foram feitos por policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope).
Entre os 50 agentes do Bope que mais dispararam, cada um com consumo entre 100 e 300 projéteis, apenas oito portavam câmeras. As gravações de somente dois foram disponibilizadas, e ambas terminam antes da chegada aos complexos da Penha e do Alemão.
No conjunto da Polícia Militar, dos 1.802 agentes empregados na operação, apenas 595 estavam com câmeras corporais. Na Polícia Civil, os pesquisadores não receberam gravações dos agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), apesar de 128 policiais da unidade estarem sujeitos à obrigatoriedade de uso dos equipamentos.
Perícia da PF ainda não foi concluída para imagens da PM
Documentos encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF) mostram que a Polícia Federal concluiu a análise das imagens das câmeras da Core, mas ainda não finalizou a perícia dos registros da Polícia Militar.
Em 8 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes determinou o envio à Procuradoria-Geral da República (PGR) de 118 laudos da PF relacionados à operação. Desse total, 12 foram elaborados a partir de vídeos da Core e outros 106 tiveram como base fotografias e laudos cadavéricos fornecidos pela Polícia Civil.
As gravações da PM foram devolvidas para que a corporação indicasse os trechos considerados relevantes para a perícia. Em abril, a PF havia recebido 9.025 arquivos, captados por 504 câmeras e que somavam cerca de 4,5 mil horas de gravação. A estimativa era de que dez peritos precisariam de aproximadamente três anos para analisar todo o conteúdo.
A PF pediu que os trechos de interesse fossem identificados de forma objetiva e que os arquivos fossem enviados em mídia física, no formato original, para verificação da integridade. Segundo o relatório, o material não foi fornecido. A corporação informou que não comenta investigações em andamento.
Documento foi encaminhado a órgãos de controle
O relatório foi enviado ao Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaesp/MPRJ), às promotorias junto à Auditoria da Justiça Militar, às corregedorias das polícias Civil e Militar, à Secretaria de Segurança Pública e ao gabinete do ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva.
A Polícia Militar e o governo do Rio foram procurados sobre os episódios, mas não haviam respondido até a última atualização das informações fornecidas à reportagem.
O MPRJ também conduz uma investigação própria sobre as mortes e as circunstâncias da operação. Já o Ministério Público Federal solicitou informações ao governo estadual e à União para verificar se houve uso de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública na ação e se a aplicação respeitou as finalidades previstas em lei, incluindo medidas de redução da letalidade policial.
A Megaoperação Contenção foi realizada em outubro de 2025 pelas polícias Civil e Militar nos complexos do Alemão e da Penha, com o objetivo de combater a expansão territorial do Comando Vermelho (CV) e cumprir mandados de prisão. O caso é acompanhado pelo STF no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas.


