Relator acusa uso de mentiras em defesa no caso do camarote do Morumbi
O relator Luiz Braga acusa Douglas Schwartzmann e Mara Casares de usarem argumentos falsos para tentar desqualificar o relatório que recomenda a expulsão deles do São Paulo. A acusação ganha força na noite desta quarta-feira (8), durante reunião do Conselho Deliberativo no Morumbi, que abre votação online sobre as punições.
Disputa em torno do relatório e crise política
A reunião do Conselho Deliberativo começa às 18h30, no estádio do Morumbi, em São Paulo, e marca o ápice de um processo que se arrasta há três meses. O caso gira em torno da exploração irregular do camarote 3A, registrado nos sistemas internos como “sala da presidência”, durante o show da cantora Shakira em fevereiro de 2025.
Braga, relator na Comissão de Ética, afirma que Schwartzmann e Mara tentam desacreditar o trabalho do grupo às vésperas da definição das punições. “Estamos nesse processo há três meses. Foram 90 dias de massacre, de pessoas desconfiando de nossa idoneidade”, diz, em entrevista. “Fizemos o que entendemos ser o justo, correto, com base no estatuto. Fizemos nada além da justiça. Eles tentaram desqualificar nosso relatório… Os argumentos que eles usaram foram ridículos, mentirosos. Depois de três meses, eles vêm falar que o áudio foi deflagrado?”
O relatório da Comissão de Ética classifica o episódio como “gestão irregular e temerária” e recomenda a expulsão de Mara e Schwartzmann do quadro de sócios. O documento também abre caminho para outras sanções, como suspensão, perda de mandato e eventual obrigação de ressarcir o clube pelos prejuízos e danos de imagem.
O voto dos conselheiros ocorre de forma virtual, das 22h desta quarta até as 17h de quinta-feira (9). O resultado define o destino político dos dois dirigentes afastados e expõe, mais uma vez, a divisão interna que marca o clube desde a revelação do esquema envolvendo o camarote.
Como o camarote virou caso de polícia e de impeachment
O escândalo nasce de um áudio em que Schwartzmann e Mara discutem a comercialização de ingressos para o camarote 3A no show de Shakira. A conversa indica a existência de uma operação clandestina de venda de lugares em um espaço ligado diretamente à presidência do clube.
No áudio, Douglas admite que a operação ocorre à margem dos canais oficiais e diz que Márcio Carlomagno, então homem de confiança de Mara e superintendente geral no CT da Barra Funda, tem conhecimento dos fatos. Ele demonstra preocupação com o risco de punições internas e desgaste político, especialmente em um momento em que Carlomagno aparece como principal nome da situação para a eleição presidencial de 2026.
Segundo a apuração interna, Mara recebe de Carlomagno o direito de uso do camarote 3A para o show. O espaço é então repassado para exploração comercial. A venda de ingressos fica nas mãos de Rita de Cássia Adriana Prado, que arrecada cerca de R$ 132 mil com entradas que chegam a R$ 2.100 cada.
O caso extrapola os limites do clube quando Adriana leva a disputa para a Justiça. Ela acusa uma empresa parceira de se apropriar de ingressos sem repassar o pagamento, registra boletim de ocorrência e aciona o Judiciário. A partir daí, Douglas e Mara passam a pressioná-la para retirar a ação, segundo o relato que chega à Comissão de Ética.
O episódio empurra o São Paulo para uma das mais graves crises recentes. As denúncias acionam auditorias interna e externa, alimentam um processo de impeachment e levam à renúncia de Mara à presidência. Dois dias depois de Harry Massis Júnior assumir o comando do clube, Carlomagno tem sua demissão encaminhada, fechando um ciclo de poder ligado ao antigo grupo político.
Impacto no clube e o que está em jogo na votação
A sessão desta quarta-feira não discute apenas a conduta de dois associados. O Conselho Deliberativo decide se referenda a narrativa da gestão temerária e irregular ou se aceita as contestações de Mara e Schwartzmann. A acusação de uso de argumentos mentirosos na própria defesa eleva a temperatura do debate e reforça a pressão por um desfecho exemplar.
Dentro do clube, conselheiros descrevem um clima de desgaste acumulado. A exploração ilegal do camarote, associada à renúncia da presidente e à queda de executivos estratégicos, corrói a confiança de torcedores e patrocinadores na governança tricolor. A eventual expulsão dos envolvidos é vista por parte da base política como um gesto para tentar virar a página e impor um padrão mais rígido de conduta.
O caso também ganha dimensão simbólica para o futebol brasileiro. A investigação sobre um camarote registrado como “sala da presidência” coloca em foco o uso de estruturas de clubes para negócios particulares, sem transparência. A repercussão midiática expõe a dificuldade de separar o patrimônio social dos interesses de grupos que controlam o poder interno.
Torcedores organizados e movimentos por mais transparência acompanham a votação com atenção. Uma decisão dura pode abrir precedente para outras gestões, estimulando comissões de ética a atuarem com mais independência em episódios de uso irregular de espaços VIP, ingressos e benefícios ligados ao cargo.
Próximos passos e incertezas
Encerrada a votação online, o Conselho Deliberativo divulga o resultado ainda na noite de quinta ou na manhã de sexta, segundo conselheiros ouvidos reservadamente. Se a recomendação de expulsão for aprovada, Mara Casares e Douglas Schwartzmann perdem o vínculo associativo com o São Paulo e podem enfrentar novas cobranças patrimoniais em decorrência do processo.
O desfecho no âmbito interno não encerra o caso. A disputa judicial aberta por Rita de Cássia Adriana Prado segue em andamento e pode trazer novas informações sobre a cadeia de responsabilidades na exploração do camarote 3A. A atual gestão tenta usar a crise como argumento para reforçar controles, revisar o uso de camarotes institucionais e blindar o clube de operações paralelas em grandes eventos.
Enquanto conselheiros votam à distância, a direção do São Paulo mede o impacto político de cada cenário. Uma decisão branda pode alimentar a percepção de impunidade. Uma expulsão, por outro lado, aprofunda a ruptura com o grupo que comandou o clube até a renúncia de Mara e redesenha o tabuleiro para a eleição presidencial de 2026. A resposta sobre que caminho o São Paulo escolhe começa a aparecer quando o relógio marcar o fim da apuração dos votos.
