Reino Unido revela caça secreta a submarinos russos em suas águas
O governo britânico revela nesta quinta-feira (9) uma operação secreta de quase um mês para rastrear e impedir possíveis ataques de submarinos russos em suas águas. Tropas da Marinha Real e da Força Aérea acompanham 24 horas por dia um submarino de ataque da classe Akula e dois navios submarinos especializados de Moscou, que acabam recuando para o norte sem atingir a infraestrutura submarina do país.
Operação silenciosa no fundo do mar
O anúncio, feito pelo secretário de Defesa John Healey, expõe uma disputa silenciosa travada abaixo da linha d’água, em torno de cabos de comunicação e gasodutos que sustentam a economia europeia. Durante cerca de 30 dias, navios da Marinha Real e aeronaves de patrulha P-8A da Força Aérea Real mantêm vigilância constante sobre as embarcações russas nas águas territoriais britânicas e em áreas próximas.
Healey descreve a missão como uma resposta direta ao avanço de um submarino de ataque da classe Akula e de dois submarinos do Departamento Principal de Pesquisas Submarinas de Moscou, o GUGI, conhecido por operar navios capazes de atuar sobre infraestrutura submarina sensível. “Em resposta aos submarinos russos, posso confirmar que enviamos nossas forças armadas para rastrear e impedir qualquer ação maliciosa dessas embarcações”, afirma o ministro.
O relato oficial indica que o Akula recua após ser seguido de perto ao longo de toda a operação. Segundo Healey, o trabalho envolve ainda aliados da Otan, em especial a Noruega, que monitora o corredor estratégico do Atlântico Norte. “Um navio da Marinha Real e aeronaves P-8A da Força Aérea Real, junto com aliados, monitoraram os submarinos russos 24 horas por dia”, detalha.
Os navios do GUGI, especializados em pesquisa e operações especiais em grandes profundidades, permanecem por dias nas proximidades de cabos e dutos que cruzam o fundo do mar entre o Reino Unido e a Europa continental. A presença desse tipo de embarcação desperta alarme em Londres desde 2022, quando explosões danificam o gasoduto Nord Stream, no Mar Báltico, e elevam o risco percebido de sabotagem contra infraestrutura crítica no espaço europeu.
Cabos, gás e poder em jogo
A revelação da caçada submarina não trata apenas de movimentos militares. Cabos de fibra óptica que ligam o Reino Unido ao continente e aos Estados Unidos carregam mais de 95% do tráfego global de dados, incluindo serviços financeiros e comunicações governamentais. Gasodutos no fundo do mar ajudam a garantir o abastecimento de energia em um contexto de preços ainda pressionados pela guerra na Ucrânia.
Ao tornar pública a operação, o governo britânico tenta mostrar capacidade de detecção e resposta antes que qualquer dano ocorra. “Para o presidente Putin, digo: ‘Nós vemos vocês. Observamos sua atividade sobre nossos cabos e gasodutos, e qualquer tentativa de danificá-los não será tolerada e terá consequências graves’”, declara Healey. O recado mira diretamente o Kremlin, mas também fala a investidores, aliados da Otan e à opinião pública interna, preocupada com o custo de crises energéticas recentes.
Autoridades de defesa tratam a movimentação russa como parte de uma disputa mais ampla por influência e informação, que vai além dos campos de batalha na Ucrânia. A Ucrânia acusa Moscou de ampliar o apoio cibernético e de espionagem ao Irã, enquanto a Rússia cobra que os Estados Unidos abandonem a “linguagem de ultimatos” em meio às tensões no Oriente Médio. Nesse ambiente, qualquer indício de vulnerabilidade em cabos e gasodutos europeus ganha peso geopolítico imediato.
O episódio reforça ainda a interdependência entre os aliados do Atlântico Norte. Noruega, Reino Unido e Estados Unidos, que já investem bilhões de dólares em vigilância submarina, veem no Ártico e no Atlântico Norte um corredor estratégico por onde passam rotas comerciais, linhas de comunicação e parte relevante do fornecimento de gás para a Europa. A cooperação no rastreamento dos submarinos russos tende a acelerar novos projetos conjuntos de sensores, drones subaquáticos e modernização de frotas.
Tensões crescentes e próximos movimentos
Os submarinos do GUGI e o Akula deixam as águas britânicas em direção ao norte, segundo Healey, sem registro de danos à infraestrutura submarina. A saída, porém, não reduz a sensação de alerta permanente em Londres. A operação, que se estende por aproximadamente quatro semanas até a divulgação nesta quinta-feira, consolida um padrão de vigilância contínua, com monitoramento 24 horas e capacidade de resposta rápida.
O Ministério da Defesa britânico não informa o número exato de militares envolvidos nem o custo da missão, mas admite que novas operações semelhantes são prováveis diante da postura russa no entorno da Otan. A expectativa é de que o episódio pese em debates sobre aumento de orçamento militar, reforço da frota de patrulha marítima e ampliação da presença britânica em mares do Norte, Barents e Báltico.
A ofensiva diplomática também deve ganhar força. Ao expor a ação russa, Londres busca alinhar posições com parceiros europeus e pressionar Moscou em fóruns internacionais, de conselhos da Otan a reuniões no âmbito da ONU. A mensagem é de que qualquer ataque a cabos e gasodutos será interpretado como agressão direta, com resposta coletiva.
O episódio recoloca no centro do debate uma pergunta que inquieta governos e empresas: até que ponto as democracias ocidentais conseguem proteger, em tempo real, a gigantesca teia de infraestrutura que cruza o fundo dos oceanos e sustenta a economia digital e energética do século 21?
