Ciencia e Tecnologia

Raios em Júpiter atingem potência cem vezes maior que na Terra

Tempestades em Júpiter produzem raios até cem vezes mais intensos que os da Terra, mostra estudo publicado em 20 de março de 2026. A descoberta vem de dados da sonda Juno, da Nasa, analisados por uma equipe liderada pelo pesquisador Michael Wong.

Tempestades gigantes em um planeta de hidrogênio

A Juno orbita Júpiter desde 2016 e cruza repetidas vezes a região onde se formam as maiores tempestades do Sistema Solar. Entre 2021 e 2022, os instrumentos da sonda registram emissões de rádio intensas vindas da atmosfera do planeta. Essas emissões funcionam como uma assinatura dos relâmpagos, permitindo estimar a força das descargas mesmo sem enxergar a luz atravessando as nuvens densas.

Os pesquisadores se concentram em grandes sistemas de nuvens que se espalham por faixas inteiras de Júpiter, batizados de “supertempestades furtivas”. Elas não formam um único vórtice gigante, como a Grande Mancha Vermelha, mas um conjunto de tempestades que se escondem nas camadas profundas e emergem de forma irregular. Ao comparar os sinais de rádio dessas regiões com medições de raios terrestres, a equipe conclui que alguns relâmpagos jovianos liberam até cem vezes mais energia que os nossos.

Em Júpiter, a atmosfera é dominada por hidrogênio e hélio, com traços de água, amônia e metano. Esse ambiente muda a própria física das tempestades. O ar úmido, carregado de gotículas e gelo, fica mais pesado que o ar seco ao redor, o oposto do que ocorre na Terra. Para que esse ar suba e forme nuvens de tempestade, é preciso um empurrão extra de energia. Quando essa energia finalmente se concentra e rompe o equilíbrio, as descargas elétricas resultantes são muito mais intensas.

O radiômetro de micro-ondas da Juno, desenhado para atravessar as nuvens, mede a emissão de rádio associada aos relâmpagos sem interferência das camadas superficiais. Os sinais analisados por Wong e colegas mostram pulsos curtos e poderosos, compatíveis com descargas de escala inédita para padrões terrestres. O estudo, publicado na revista científica AGU Advances, combina centenas de passagens da sonda sobre as mesmas regiões, o que permite descartar flutuações aleatórias e reforça a robustez dos resultados.

O que Júpiter revela sobre nossas próprias tempestades

A equipe não está interessada apenas na curiosidade de medir o “raio mais forte do Sistema Solar”. O objetivo declarado é entender como diferentes atmosferas produzem fenômenos elétricos extremos. “Estudar tempestades em outros planetas ajuda a entender fenômenos que ainda não são totalmente conhecidos na Terra”, afirma Michael Wong, em nota. Entre esses fenômenos, estão eventos luminosos raros na alta atmosfera, como jatos azuis, sprites e outros flashes fugazes que ainda desafiam os meteorologistas.

A existência de relâmpagos tão intensos em Júpiter obriga os pesquisadores a rever modelos sobre como cargas elétricas se separam dentro das nuvens. Em um planeta dominado por hidrogênio, os grãos de gelo, partículas de água e cristais de amônia interagem de forma diferente do que ocorre no ar terrestre, composto principalmente de nitrogênio e oxigênio. Isso muda as colisões entre partículas, a formação de campo elétrico e o ponto em que o ar deixa de ser isolante e passa a conduzir uma descarga.

Os dados também reforçam a ideia de que algumas tempestades em Júpiter duram muito mais que qualquer sistema observado na Terra. Regiões ativas permanecem por décadas, e algumas formações podem persistir por séculos. Ao longo desse tempo, as “supertempestades furtivas” liberam incontáveis raios, o que transforma áreas inteiras do planeta em laboratórios naturais de eletricidade atmosférica. Entender esse comportamento ajuda a calibrar modelos que simulam tempestades extremas em um clima em aquecimento aqui na Terra.

O estudo se soma a esforços de meteorologia comparada, área que cruza dados de diferentes mundos para refinar a previsão do tempo terrestre. Ao verificar como pequenas mudanças na composição do ar geram respostas violentas em Júpiter, os pesquisadores ganham pistas sobre como alterações graduais na atmosfera da Terra podem amplificar tempestades, granizo e vendavais. Os mesmos modelos matemáticos usados para explicar a intensidade dos raios jovianos podem ser adaptados para aprimorar a previsão de eventos severos em regiões tropicais e subtropicais.

Novas missões, novos modelos e um mapa elétrico de outros mundos

Os próximos passos passam por cruzar os dados elétricos de Júpiter com observações de outros planetas. Missões a Saturno, Urano e Netuno ainda estão em fase de planejamento, mas a expectativa é que levem instrumentos capazes de detectar emissões de rádio semelhantes às medidas pela Juno. Um mapa comparativo de raios nos gigantes gasosos pode revelar padrões hoje invisíveis, como faixas preferenciais de tempestades e ritmos ligados à rotação e às estações de cada planeta.

Na Terra, a principal aposta é usar o que se aprende em Júpiter para melhorar modelos de previsão de tempestades severas e de distribuição de descargas. Em um cenário de cidades mais densas, redes elétricas vulneráveis e sistemas de comunicação dependentes de satélites, entender o comportamento extremo de raios deixa de ser apenas uma curiosidade astronômica. A física que governa um relâmpago cem vezes mais forte em um mundo distante pode ajudar a reduzir danos materiais, melhorar protocolos de segurança e orientar projetos de infraestrutura aqui.

A missão Juno entra em sua reta final, mas continua enviando dados que desafiam teorias sobre a atmosfera de Júpiter. A cada sobrevoo, a sonda adiciona detalhes a um quadro ainda incompleto. A descoberta das “supertempestades furtivas” e de seus raios colossais amplia esse enigma. A pergunta que fica é até onde o estudo de um planeta gasoso, a mais de 600 milhões de quilômetros, ainda pode redesenhar o que sabemos sobre o próximo trovão que estala sobre nossas cabeças.

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