Raio atinge ato de Nikolas em Brasília e deixa 32 hospitalizados
Um forte raio atinge, na tarde deste domingo (25/1), apoiadores do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) durante um ato político em Brasília. Setenta e duas pessoas recebem atendimento no local e 32 seguem para hospitais, oito em estado grave.
Clarão interrompe ato e transforma praça em cenário de resgate
A manifestação ocorre em uma área descampada, próxima a grades metálicas montadas para organizar o público, quando a chuva engrossa de forma súbita. O que vinha sendo um ato político de apoio ao deputado se converte em correria, gritos e pedidos de socorro depois de um clarão atingir o grupo posicionado diante do palco.
O Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal informa que 72 pessoas recebem atendimento imediato na área do evento. Destas, 32 precisam ser levadas ao Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) e ao Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Oito permanecem em estado grave, sob monitoramento intensivo das equipes médicas.
Entre os atingidos está a pastora Raquel Fleiry, 47 anos, que viaja a Brasília para acompanhar o ato com o marido, o pastor Joseilton Fleiry, 50. Ela se recorda da sequência de segundos que antecede o raio. “A chuva começou a engrossar bastante. Eu estava com uma garrafa grande de água na mão. De repente, vi uma senhora caída no chão e, quando olhei em volta, só consegui ver um clarão. As pessoas começaram a cair. Depois, não vi mais nada”, relata, ainda abalada.
Raquel perde parte da memória do momento do impacto e lembra apenas da movimentação de socorro. “Eu só sentia as pessoas me carregando de um lado para o outro, procurando um lugar para que eu ficasse, enquanto os bombeiros socorriam todo mundo”, conta. O relato ajuda a reconstruir um episódio em que poucos, entre feridos e testemunhas, conseguem organizar a sequência dos fatos.
Ao lado dela, Joseilton observa a cena em choque. Ele não sofre ferimentos, mas vê a esposa cair. “Foi tudo muito rápido. No momento do raio, tinha muita gente ao redor da gente e caiu um monte de pessoas no chão. Eu não fui atingido, mas minha esposa foi. Do outro lado também tinha muita gente caída”, descreve. O casal, que costuma participar de manifestações políticas, diz nunca ter presenciado situação semelhante.
Drama nos hospitais e questionamentos sobre segurança em atos ao ar livre
No Hospital de Base, o clima é de apreensão. Familiares circulam pelos corredores em busca de informação, enquanto médicos e enfermeiros se dividem entre exames e estabilização dos casos mais graves. Entre os feridos estão as amigas Nathalia Queiroz, 29 anos, e Ludmilla Fernanda, 20, que saem de Cuiabá (MT) para acompanhar de perto o deputado mineiro.
Nathalia lembra que as duas chegam cedo ao local do ato. Elas querem ficar próximas do palco. “Estávamos aguardando o Nikolas e, de repente, veio uma chuva muito forte. A gente se abraçou porque fomos ali juntas, unidas. Aí veio um clarão muito forte, bateu no meu peito, e eu caí para trás. Veio aquela multidão caindo em cima da gente”, narra.
Quando retoma a consciência, Nathalia procura a amiga. “Quando passou aquele choque, eu olhei para trás e a Lud estava totalmente desmaiada. A gente começou a pedir socorro. Ela foi a primeira paciente a chegar aqui no Hospital de Base, chegou em desespero, sem consciência. Reanimaram ela, rasgaram a roupa dela, mas, graças a Deus, deu tudo certo”, afirma.
Ludmilla acorda já dentro do hospital, sem conseguir recompor o que vive instantes antes. “Foi um estrondo, uma luz branca enorme. Eu só lembro disso, caí no chão e não lembro de mais nada. Só lembro chegando aqui. Minhas pernas estão todas roxas, e falaram que podem ser sequelas do raio”, diz, ainda em observação.
Raquel, atendida no mesmo hospital, apresenta um quadro mais leve. “Só machucou o meu pé mesmo, mas já voltou ao normal. Fiz exame de coração e recebi medicação. O raio não caiu só em um lugar, ele caiu e se espalhou. Pegou todo mundo que estava próximo às grades, numa área descampada”, explica, ao detalhar como a descarga elétrica se irradia pelo solo e pelas estruturas metálicas.
Relatos como o dela reforçam uma preocupação antiga de especialistas em climatologia e defesa civil: a vulnerabilidade de multidões expostas em campos abertos, cercadas por estruturas metálicas, durante tempestades. Em dias de instabilidade climática, a combinação de piso molhado, grandes aglomerações e objetos condutores aumenta o risco de incidentes graves, como o registrado em Brasília.
O deputado Nikolas Ferreira se manifesta nas redes sociais ao longo do dia, prestando solidariedade às vítimas e às famílias. Ele diz acompanhar a situação dos feridos e defender revisão dos protocolos de segurança em eventos públicos, sobretudo em áreas abertas. A equipe do parlamentar afirma colaborar com as autoridades locais na apuração das circunstâncias do episódio.
Investigação, protocolos e a pressão por prevenção
Autoridades do Distrito Federal analisam imagens e relatórios de atendimento pré-hospitalar para entender o tamanho exato do impacto e a dinâmica da descarga elétrica. A previsão é de que, nos próximos dias, laudos médicos e perícias técnicas indiquem se houve falhas de prevenção, atraso na interrupção do ato ou ausência de orientação adequada ao público em meio à mudança brusca do tempo.
Casos como o deste domingo alimentam um debate que cresce a cada verão. Órgãos de meteorologia reforçam alertas sobre tempestades, mas nem sempre essas informações se convertem em decisões rápidas de organizadores de eventos. Em atos políticos, a pressão pela permanência no palanque muitas vezes pesa mais do que o recuo preventivo diante de nuvens carregadas e trovoadas próximas.
Especialistas defendem que eventos de grande porte adotem protocolos claros para chuvas intensas, prevendo suspensão imediata de atividades diante de risco de raios. Isso inclui a criação de rotas de evacuação, identificação prévia de abrigos seguros e comunicação direta com o público, por meio de telões, carros de som ou sistemas de alerta sonoro.
Enquanto bombeiros e equipes médicas acompanham a evolução clínica das oito vítimas em estado grave, familiares e amigos se revezam em vigílias nos hospitais. Entre orações, telefonemas e atualizações desencontradas nas redes sociais, a preocupação central é a mesma: a recuperação dos feridos e a ausência de sequelas permanentes.
O episódio deste 25 de janeiro expõe, com violência, o que costuma parecer um risco abstrato em dias de campanha e mobilização política. Raios deixam de ser apenas um dado estatístico do verão brasileiro e atravessam, de forma dolorosa, a rotina de quem saiu de casa para defender um projeto político. A investigação oficial deve responder se o alerta climático poderia ter mudado o desfecho daquela tarde em Brasília — e se os próximos atos ao ar livre estarão, de fato, mais preparados para enfrentar o céu carregado.
