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Rafinha volta ao São Paulo como gerente esportivo e assume elo com elenco

Rafinha anuncia, nesta segunda-feira (26), seu retorno ao São Paulo como gerente esportivo do departamento de futebol. O ex-lateral e ex-capitão assume o elo diário entre diretoria e elenco em um momento de turbulência no clube.

São Paulo busca blindagem após saída de Muricy

O anúncio acontece ao vivo no programa Seleção SporTV e é confirmado minutos depois nas redes sociais oficiais do São Paulo. A volta do ex-camisa 13 ocupa o espaço aberto com a saída de Muricy Ramalho, que oficializa sua demissão na última sexta-feira, após mais de três anos como referência técnica no CT da Barra Funda.

O presidente Harry Massis Júnior já havia antecipado no domingo (25) que o acerto estava encaminhado, em entrevista depois da derrota por 2 a 1 para o Cruzeiro na final da Copinha. Sem citar o cargo, o dirigente descreve o papel que agora é oficial. “Agora podemos falar. O Rafinha veio conosco, vamos ver quando ele vai se apresentar. Ele vai ser o elo entre jogadores e diretoria, principalmente jogadores, que ele é muito querido”, afirma.

O São Paulo vive início de temporada pressionado por atuações irregulares e clima pesado no CT. A saída de Muricy expõe desgaste interno e abre um vácuo no chamado “miolo” do futebol, o espaço entre o vestiário e o conselho de administração. A chegada de Rafinha tenta recompor essa ponte com alguém que ainda tem autoridade no elenco, menos de dois anos depois de erguer a taça da Copa do Brasil de 2023 como capitão.

De ex-capitão a dirigente em transição

Rafinha encerra a carreira profissional em 2023 com 21 temporadas como jogador, passagens por Bayern de Munique, Schalke 04, Flamengo, Grêmio e o próprio São Paulo. A ideia inicial, admitida a pessoas próximas, é seguir no campo, em uma comissão técnica, como auxiliar ou futuro treinador. A oferta tricolor muda o roteiro.

“Já tive essas conversas há algum tempo, o São Paulo, de todos os grandes clubes, é o único que não está olhando apenas para o futebol, está olhando ao redor de tudo que está acontecendo extracampo”, diz, no Seleção SporTV. “Quando anunciei minha aposentadoria, estou vindo para me despedir de novo, que é um desafio para mim. Minha casa é o futebol, onde vivi a maior parte da minha vida.”

O ex-lateral deixa claro que entra para o lado administrativo, mas não pretende repetir o desenho do cargo de Muricy. “O Muricy é insubstituível, ele merece todo o respeito do mundo. Não vou substituir, vou fazer essa transição como um diretor técnico, esse elo entre a diretoria e o elenco no dia a dia. Não vou participar dessa política, blindar aquele CT, e essa é a minha função a partir de amanhã”, afirma.

Nos bastidores, o São Paulo nomeia a função como “gerente esportivo”. O cargo o coloca no centro da rotina diária: presença em treinos, participação em reuniões com a comissão técnica, acompanhamento da preparação física, intermediação de demandas de jogadores e cobrança direta à diretoria por estrutura, logística e planejamento de elenco. Em um departamento com ao menos três camadas de comando — presidente, diretoria executiva e comissão técnica —, Rafinha será a voz intermediária que conhece o vestiário por dentro.

Impacto imediato no CT e relação com o elenco

A escolha por um ex-capitão recente não é casual. Rafinha lidera o vestiário campeão da Copa do Brasil de 2023, participa da campanha que leva o clube de volta a uma final nacional após 21 anos e ganha crédito com uma geração inteira. A aposta da diretoria é que essa relação encurte ruídos, especialmente em um momento em que derrotas em mata-matas de base e rendimento aquém do esperado no profissional aumentam a pressão da arquibancada para o gramado.

O próprio dirigente admite que o convite o atrai mais pelo desafio que pelo conforto. “Quando tudo está tranquilo, a gente procura a confusão. É uma confusão boa, quando o São Paulo me chama é uma convocação. É uma hora para quem gosta de confusão, de desafio e de ajudar o São Paulo”, diz. A frase ecoa entre conselheiros como sinal de disposição para assumir o desgaste que costuma recair sobre quem faz a ponte com o elenco.

Na prática, a presença de Rafinha tende a mexer com a dinâmica interna já nas próximas semanas. Renovações de contrato, gestão de minutos de jogadores mais experientes, integração da base ao profissional e controle de crises públicas passam a ter um mediador com credibilidade tanto no vestiário quanto no campo político. A diretoria vê no ex-lateral alguém capaz de enfrentar cabeças de área sensíveis: do controle de premiações a conversas duras após derrotas em clássicos e decisões.

A torcida também entra nessa equação. Ídolo recente, campeão e identificado, Rafinha funciona como escudo simbólico para Harry Massis Júnior em um início de gestão ainda sob observação. A aposta é que a chegada do novo dirigente reduza o ruído em torno de mudanças no departamento de futebol e ajude a conter vaias que já miram escolhas do comando do clube.

Desafio de longo prazo e próximos passos

O primeiro teste da nova configuração acontece em campo, mas se desenha fora dele. As próximas janelas de transferência, entre julho e agosto de 2026, vão medir a capacidade do São Paulo de segurar peças importantes e reforçar o elenco sem comprometer o orçamento. Rafinha participa dessas discussões como voz técnica, embora não tenha a caneta final para aprovar gastos.

O calendário também pressiona. O clube encara simultaneamente Campeonato Paulista, Brasileiro, Copa do Brasil e competições continentais ao longo de 2026. Cada eliminação precoce pesa nas contas e no ambiente político. A missão do novo gerente esportivo é impedir que turbulências de 90 minutos contaminem a rotina de treinos e as decisões estratégicas no CT.

O movimento ainda redesenha o próprio futuro de Rafinha. A experiência administrativa pode abrir caminho para uma transição definitiva ao cargo de diretor técnico ou até para o banco de reservas, em um horizonte de dois a três anos. O desempenho nessa primeira função de bastidor dirá se o ex-lateral consolida o perfil de gestor ou se volta o olhar para a prancheta de treinador.

O São Paulo escolhe um ídolo recente para tentar organizar o presente e desenhar o futuro do futebol. Resta saber se a autoridade construída em campo resiste à pressão diária de um cargo em que vitórias aliviam, mas não blindam ninguém por muito tempo.

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