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Racha entre Nikolas e Eduardo Bolsonaro expõe crise no PL em Minas

Uma troca de ataques entre Nikolas Ferreira (PL-MG) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nas redes sociais, entre 3 e 6 de abril de 2026, abre uma crise explícita no PL em Minas Gerais e escancara a disputa pelo comando político e digital da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência.

Embate público, desconforto interno

O conflito começa com uma desavença aparentemente técnica sobre engajamento nas redes e rapidamente ganha contornos políticos. No centro da disputa está a queixa de Eduardo de que Nikolas estaria dando visibilidade a influenciadores de direita que se recusam a apoiar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno da eleição presidencial de outubro.

O palco principal é o X, antigo Twitter. Na sexta-feira (3), Eduardo acusa o perfil Space Liberdade, um dos mais conhecidos da direita, de não votar em Flávio no primeiro turno. No mesmo post, associa Nikolas ao grupo ao lembrar que o deputado mineiro compartilha conteúdo do perfil. “Adivinhem quem prontamente compartilhou o perfil no mesmíssimo dia? Esta é só mais uma das várias coincidências do pessoal que pede ‘união da direita’”, escreve o ex-parlamentar por São Paulo.

No dia seguinte, o analista Silvio Grimaldo publica um print que mostra Nikolas compartilhando o Space Liberdade com críticas a Lula e defesa de Jair Bolsonaro. Nikolas reage com um simples “kkk”. A risada, aparentemente banal, vira estopim. Na noite de sábado (4), Eduardo responde com um texto de três parágrafos em que acusa o deputado mineiro de “trabalhar o algoritmo” para fortalecer perfis que desejam a morte de Jair Bolsonaro e comemoram a prisão do ex-presidente.

“Triste ver essa versão caricata de si mesmo. Não é, nem de longe, o menino que conheci, apoiei e acreditei. Os holofotes e a fama te fizeram mal, infelizmente”, dispara Eduardo. Para ele, não se trata só de uma diferença de estratégia digital, mas de um rompimento de confiança com um aliado que ganha protagonismo eleitoral e nas redes.

Bolsonarismo dividido e pressão por Flávio

O ataque público de Eduardo atinge um nervo exposto do PL. Autoexilado nos Estados Unidos desde março de 2025, o ex-deputado demonstra irritação crescente com lideranças de direita que, em sua avaliação, não se alinham de forma clara à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto. A cobrança sobre Nikolas, um dos deputados mais votados do país em 2022 e fenômeno digital, reflete o incômodo de uma ala do bolsonarismo com a autonomia do parlamentar mineiro.

No texto publicado no X, Eduardo afirma que Nikolas impede que seu grupo declare apoio aberto ao irmão. “Você continua exigindo que seu grupo não apoie e divulgue o Flávio, a não ser quando fica tão gritante que começa a ser cobrado”, escreve. Segundo ele, o mineiro empurra o senador para uma “espiral do silêncio”, com “menos de meia dúzia de apoios públicos” meses antes da eleição.

A reação em Minas é imediata. Nas redes, aliados escolhem lados e expõem uma fratura que a direção do PL tenta conter. Bruno Engler, deputado estadual pelo PL e parceiro de longa data de Nikolas na militância bolsonarista em Belo Horizonte, aparece em vídeo para defender Eduardo. Ele rejeita a ideia de que o ex-deputado tenha inveja de Flávio e reforça o papel do “03” na construção da pré-candidatura presidencial do irmão.

“Eduardo foi um dos principais articuladores da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. Quando muitos dos que hoje o criticam estavam apostando tudo em Tarcísio”, afirma Engler. O deputado lembra que Eduardo cedeu espaço no CPAC, conferência conservadora de referência na direita, para que Flávio ocupasse o horário nobre. “Se tem uma pessoa que Flávio pode contar para sua pré-candidatura e para seu governo é o seu irmão Eduardo Bolsonaro”, completa.

Engler, no entanto, evita romper com Nikolas. Diz que o considera amigo há 11 anos, mas ressalta que “não é obrigado a concordar” com ele. “Eu estou onde sempre estive, ao lado da família Bolsonaro”, resume, demarcando território político sem fechar portas em Minas.

Outro deputado estadual, Cristiano Caporezzo, entra na discussão comentando publicações em defesa de Eduardo. Sem citar Nikolas, ele endossa a crítica de que o mineiro atua contra a campanha de Flávio. Em uma das respostas, sobre um vídeo em que Eduardo volta a atacar o colega de partido, Caporezzo escreve: “Ele desenhou a explicação e depois ainda explicou o desenho”, em tom de apoio ao ex-deputado.

No campo oposto, Pablo Almeida (PL), vereador de Belo Horizonte e ex-assessor de Nikolas, decide defender o padrinho político. Ele resgata um vídeo em que o deputado faz analogia entre um projeto político e o corpo humano e atribui ao mineiro a função de desgaste do principal adversário de Flávio. “Ele deixa claro que sua principal função é desgastar o adversário político do Flávio: o Lula. Afinal de contas, se o Lula cai, quem será o principal beneficiado?”, argumenta.

Nikolas evita responder diretamente a Eduardo. Em vez disso, compartilha um vídeo de Flávio Bolsonaro pedindo união em torno de sua candidatura e convocando aliados à “racionalidade”. O gesto é lido por aliados como tentativa de se colocar acima do conflito sem se afastar do projeto presidencial do senador.

PL tenta conter dano em ano eleitoral

A discussão pública obriga a cúpula do PL a intervir. Valdemar Costa Neto, presidente nacional do partido, pede o fim das brigas e orienta que o foco volte a Jair Bolsonaro, ainda principal ativo eleitoral da legenda. A mensagem é clara: a disputa por influência digital não pode atropelar a construção de palanques regionais e a campanha presidencial.

Em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país e peça-chave para qualquer projeto de poder em 2026, a preocupação é redobrada. Domingos Sávio, presidente estadual do PL e pré-candidato ao Senado, recorre ao discurso conciliador de Flávio para tentar pacificar a base. “Divergências de opiniões são naturais, porém fazer destas divergências discussões públicas em rede social neste momento pode nos levar à desunião”, afirma à rádio Itatiaia. Para ele, o partido “precisa de todos” para promover as mudanças que defende para o país.

A crise expõe uma nova linha de fratura no bolsonarismo: de um lado, a família que tenta preservar o controle do projeto presidencial; de outro, figuras emergentes como Nikolas, que constroem poder direto com milhões de seguidores. A disputa não é só por narrativa, mas por quem define estratégia, agenda e prioridades na campanha.

No curto prazo, o desgaste obriga lideranças do PL a gastar energia com mediação interna, em vez de avançar em alianças e na organização da campanha de rua. O conflito também dá munição a adversários, que exploram a imagem de um campo dividido enquanto o calendário eleitoral aperta. Em seis meses, os eleitores vão às urnas, e cada semana de crise interna pesa no cálculo das candidaturas.

Próximos movimentos e riscos para a campanha

O embate entre Nikolas e Eduardo tende a seguir em tom mais discreto, mas seus efeitos permanecem. A forma como o PL mineiro administra a crise pode influenciar diretamente a capilaridade de Flávio no estado e a composição de palanques com lideranças locais, incluindo prefeitos e deputados que hoje orbitam o bolsonarismo.

Nas próximas semanas, a sigla terá de mostrar se consegue transformar o pedido de “racionalidade” em alinhamento real. O desfecho ajuda a responder uma pergunta central para 2026: até onde o bolsonarismo consegue conciliar o peso eleitoral da família com o avanço de novos líderes digitais sem que a disputa por protagonismo coloque o próprio projeto de poder em risco.

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