Quem é o ‘Sicário’, alvo da PF que entra em morte encefálica
O investigado Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, 43, entra em protocolo de morte encefálica nesta quinta (5), em Belo Horizonte, horas após ser preso pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, sob suspeita de chefiar grupo violento a serviço do banqueiro Daniel Vorcaro.
Da cela por roubo de carros ao núcleo de um esquema milionário
O nome de Mourão volta ao centro das atenções mais de duas décadas depois de a polícia registrá-lo apenas como um ladrão de carros conhecido por “Mexerica”. Em 2003, aos 20 anos, ele é preso na Delegacia de Repressão ao Furto e Roubo de Veículos, em Belo Horizonte, por receptação de automóveis roubados. Dentro da cela, tenta se matar pela primeira vez.
O delegado Cláudio Utsch, então chefe da unidade especializada e hoje titular em Caeté, na Região Metropolitana, relembra o episódio. “A tentativa de suicídio na cela da PF também ocorreu na cela da Furto e Roubo de Veículos em 2003”, afirma à rádio Itatiaia. Ele conta que, naquele momento, enxergava em “Mexerica” um criminoso em ascensão, pronto para migrar para golpes mais sofisticados.
O avanço vem nos anos seguintes, segundo Utsch. “No decorrer dos anos, outro modo de atuar foi adotado por ele: os golpes cibernéticos, sobretudo agindo em concurso com um grande estelionatário mineiro. Aliás, a parceria criminosa virou negócio familiar, pois ‘Mexerica’ casou-se com a filha dele”, diz o delegado. O garoto de periferia envolvido com desmanches de carros se torna um articulador de fraudes digitais e negócios de fachada.
Duas décadas depois, o apelido “Mexerica” fica para trás. Nas comunicações interceptadas pela PF, ele passa a ser tratado como “Sicário”, termo associado a matador de aluguel. As mensagens obtidas pela investigação indicam que Mourão deixa de atuar só em golpes de dinheiro e se oferece como gestor de risco para figuras com alto poder econômico.
Esse percurso desemboca em 2026 na Operação Compliance Zero, que mira o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-CEO e controlador do banco Master. A PF apura possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa, violação de sigilo funcional, fraude processual e obstrução de Justiça. O grupo de Vorcaro é acusado de construir um braço paralelo de inteligência, com função quase paramilitar.
Estrutura de vigilância, violência planejada e ameaça a jornalistas
Relatório da PF e decisão judicial obtida pela imprensa descrevem Mourão como chefe de uma equipe de capangas responsável por monitorar adversários e planejar ações violentas. Na decisão que autoriza a prisão, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, afirma que “Sicário” cuida de atividades de obtenção de informações sigilosas, vigilância de alvos e “neutralização de situações sensíveis aos interesses do grupo investigado”.
As investigações apontam que ele recebe cerca de R$ 1 milhão por mês para comandar essa engrenagem, que inclui seguir desafetos, mapear rotinas e estudar possíveis ataques. Entre os alvos aparece o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, autor de reportagens críticas a Vorcaro. Em mensagens recuperadas, o banqueiro sugere que o repórter seja seguido. Em outra conversa, fala em uma suposta agressão disfarçada de assalto.
O caso acende um alerta entre organizações de imprensa e especialistas em liberdade de expressão. A descrição da PF revela um tipo de estrutura que ultrapassa o lobby político e entra no terreno da intimidação física. A ideia de um “núcleo de segurança” privado, financiado por recursos de origem suspeita, aproxima a investigação brasileira de casos internacionais de perseguição a jornalistas e opositores por grupos ligados a grandes fortunas.
O funcionamento dessa engrenagem, segundo a PF, depende de uma rede de informantes dentro e fora do poder público. A suspeita de violação de sigilo funcional indica possível acesso ilegal a dados protegidos por lei, como informações bancárias, fiscais e de inquéritos. Na prática, isso significa a capacidade de antecipar ações de órgãos de controle e de constranger adversários com dossiês montados sob medida.
Especialistas em segurança pública ouvidos por reportagens sobre o caso apontam que estruturas assim operam na fronteira entre crime financeiro e milícia política. A lógica mistura lavagem de dinheiro, espionagem privada e violência seletiva. Quem controla um aparato desse tipo ganha poder de barganha com autoridades, medo no meio empresarial e capacidade de silenciar críticas.
Suicídio na cela, inquérito interno e pressão por respostas
Mourão é preso na quarta-feira (4), em Belo Horizonte, por ordem de Mendonça, durante a deflagração da Operação Compliance Zero. Horas depois, já na cela da Superintendência da PF, na capital mineira, tenta se enforcar com uma camisa. Agentes federais o socorrem e o levam ao Hospital João XXIII, referência em trauma na Região Metropolitana. Médicos atestam quadro gravíssimo e, na manhã seguinte, a equipe aciona o protocolo de morte encefálica.
A repetição de um gesto extremo, com 23 anos de intervalo e em ambientes de custódia diferentes, pressiona a PF a explicar o que acontece entre a chegada de “Sicário” à unidade e o socorro. O diretor-geral, Andrei Rodrigues, determina a abertura de inquérito em Minas Gerais para apurar as circunstâncias da tentativa de suicídio. A investigação interna deve avaliar desde as condições da cela até os procedimentos de monitoramento para presos considerados de alto risco.
O episódio tende a reacender o debate sobre protocolos de prevenção ao suicídio no sistema de Justiça. Em delegacias, presídios e unidades federais, casos assim costumam ser tratados como tragédias isoladas. A morte de um personagem-chave de uma operação complexa, porém, levanta dúvidas adicionais: que informações deixaram de ser obtidas, que conexões podem ficar sem resposta, que versões ficam restritas a mensagens de celular e documentos apreendidos.
No campo jurídico, a falta de depoimento de Mourão deve tornar ainda mais relevantes os registros de conversas, os fluxos financeiros e as quebras de sigilo já autorizadas pelo Supremo. Investigadores apostam em trilhas de dinheiro, planilhas e contratos para mapear o raio de ação do grupo e identificar outros intermediários. A partir daí, novos alvos podem surgir, tanto no meio empresarial quanto na esfera pública.
A Operação Compliance Zero segue com buscas, quebras de sigilo e oitivas de outros investigados. As próximas decisões do Supremo e os desdobramentos do inquérito sobre a tentativa de suicídio vão indicar se o caso se limita a um esquema em torno de um único banqueiro ou se expõe um modelo mais amplo de segurança privada armada, sustentada por dinheiro de origem suspeita e com alcance sobre a política e a imprensa. A resposta a essa pergunta define o tamanho real do impacto de “Sicário” fora das celas em que tentou se matar.
