PT evita CPI contra ministros do STF e busca conter crise política
A bancada do PT no Congresso decide, nesta semana de março de 2026, não assinar o pedido de CPI contra os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do STF. A avaliação interna é que uma ofensiva contra a cúpula do Judiciário ampliaria o desgaste do governo Lula em meio a outras frentes de crise, como a CPMI do INSS, que já cita o filho do presidente.
Petistas escolhem cautela em meio a múltiplas frentes de pressão
O recuo é acertado em reuniões reservadas de líderes petistas na Câmara e no Senado, em Brasília. Desde o início do ano legislativo, a interlocução com o Planalto mede o custo de abrir mais uma frente de embate institucional, desta vez com ministros que têm papel central em julgamentos sensíveis ao governo. A direção partidária conclui que, em 2026, com economia patinando e base parlamentar ainda fragmentada, não há espaço para uma crise aberta com o Supremo.
Uma liderança ouvida pelo R7 resume o clima com franqueza: “O governo já enfrenta alguns desgastes em curso”. A frase, dita sob reserva, ecoa entre deputados e senadores que veem a CPMI do INSS, instalada há poucos meses, como foco de risco permanente. No colegiado, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, aparece citado em depoimentos e documentos, o que torna qualquer novo embate político ainda mais delicado para o Palácio do Planalto.
Dirigentes do PT também acompanham com preocupação os desdobramentos do caso Banco Master, que arrasta políticos de diferentes partidos e atinge o ambiente institucional em Brasília. A avaliação é que uma CPI voltada especificamente contra Moraes e Toffoli alimentaria a narrativa de perseguição do Supremo, hoje explorada com força por setores da oposição ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao não aderir ao requerimento, o partido tenta se afastar desse palanque.
O requerimento de CPI, articulado por parlamentares de oposição, precisa de ao menos 171 assinaturas na Câmara ou 27 no Senado para avançar. O apoio formal de uma bancada de 68 deputados, como a do PT, faria diferença concreta na contabilidade. O gesto de recusa, portanto, tem efeito imediato: reduz a margem para que a comissão saia do papel ainda neste primeiro semestre de 2026.
Decisão freia confronto entre Poderes e protege base de Lula
No Palácio do Planalto, a ordem é diminuir o atrito com o Judiciário. Desde o início do terceiro mandato de Lula, em 1º de janeiro de 2023, a relação com o STF oscila entre a parceria em temas de costumes e a tensão em casos de alta repercussão política. Alexandre de Moraes concentra processos sobre atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e investigações envolvendo o bolsonarismo. Dias Toffoli, por sua vez, é figura chave em decisões que impactam partidos e acordos de cúpula em Brasília.
Uma CPI voltada a ministros do Supremo teria potencial de paralisar a pauta política por meses. As comissões de inquérito costumam funcionar por até 120 dias, renováveis por mais 60, e tendem a sequestrar a atenção do Congresso, da imprensa e do próprio governo. No cálculo do PT, esse tempo faz falta para aprovar medidas econômicas, negociar emendas e recompor pontes com partidos do centrão, decisivos para a governabilidade.
O partido também evita fornecer munição para o discurso de ruptura institucional. Desde 2019, quando movimentos bolsonaristas ampliam ataques ao Supremo, Moraes se torna alvo preferencial de manifestações na rua e nas redes. Petistas admitem, em conversas reservadas, críticas a decisões pontuais do ministro, mas consideram que uma CPI agora poderia ser lida como adesão ao projeto de deslegitimar a Corte. “Não vamos fazer coro com quem quer incendiar o país”, diz um deputado governista.
A escolha pela moderação, porém, não é isenta de custos políticos. A oposição acusa o PT de proteger ministros aliados e de blindar o Supremo de qualquer investigação. Líderes de partidos de direita já falam em “acordo de bastidor” entre governo e Judiciário. A narrativa mira principalmente o eleitorado que vê com desconfiança o poder crescente do STF desde a Lava Jato e a anulação de condenações do próprio Lula, em 2021.
Dentro da base, o gesto funciona como sinal de alinhamento. Aliados de centro e de centro-direita, que controlam parte expressiva das presidências de comissões, avaliam que o recuo petista reduz o risco de um ambiente de revanche institucional. Em 2025, o Planalto já enfrentou dificuldades para aprovar mudanças no orçamento e renegociar metas fiscais, e qualquer abalo na relação com o Supremo poderia travar decisões sobre precatórios, fundos e políticas sociais previstas para este ano.
Próximos passos e encruzilhadas do governo Lula
A decisão de não assinar a CPI não encerra o debate sobre o papel do STF na política brasileira. O requerimento segue circulando entre bancadas de oposição e pode, ainda assim, atingir o número mínimo de apoios até o meio do ano. Se isso ocorrer, a pressão recairá sobre os presidentes da Câmara e do Senado, responsáveis por ler o pedido em plenário e instalar ou não a comissão. No Senado, onde Moraes e Toffoli precisam de apoio para futuras sabatinas de indicados, a resistência é maior.
No curto prazo, o PT tenta concentrar energia em duas frentes: a defesa do governo na CPMI do INSS e a disputa pela narrativa em torno do Banco Master. A presença do nome de Lulinha na comissão que apura fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social adiciona um componente pessoal à crise. Interlocutores do Planalto calculam que qualquer nova CPI com potencial de atingir o entorno do presidente aumentaria o desgaste às vésperas das eleições municipais de outubro de 2026, consideradas termômetro da força de Lula nos grandes centros urbanos.
O movimento petista também será observado pelos próprios ministros do STF. A avaliação de assessores da Corte é que uma escalada do Legislativo contra integrantes do tribunal poderia pressionar ainda mais o ambiente de julgamentos sensíveis, como ações penais dos atos de 8 de janeiro e processos sobre regras eleitorais para 2026. Ao evitar o confronto, o governo aposta em um cenário de maior previsibilidade, ainda que continue sujeito a decisões judiciais que podem contrariar interesses do Planalto.
O tabuleiro, porém, segue instável. Investigações ligadas ao sistema de previdência, ao setor financeiro e a financiadores de campanhas atravessam o campo político de ponta a ponta. A cada nova delação, quebra de sigilo ou operação policial, a pressão sobre o Congresso e o Planalto muda de direção. No meio desse labirinto, a escolha do PT de não esticar a corda com Moraes e Toffoli revela, mais do que deferência ao Supremo, uma estratégia de sobrevivência política em ano de teste para o governo.
O desfecho da CPI contra ministros do STF, caso avance sem o apoio petista, dirá até onde vai a disposição do Congresso de enfrentar a Corte e qual será o custo dessa aposta. A dúvida que permanece em Brasília é se o gesto de recuo de hoje será lembrado como um freio de arrumação ou como o prenúncio de uma nova rodada de confronto entre Poderes.
