PT aciona PRF para barrar caminhada de Nikolas na BR-040
Os deputados federais petistas Lindbergh Farias (RJ) e Rogério Correia (MG) pedem, em 22 de janeiro de 2026, que a Polícia Rodoviária Federal interrompa a “Caminhada pela Liberdade” organizada por Nikolas Ferreira na BR-040, em Minas Gerais. Eles alegam risco excepcional ao trânsito e possíveis violações ao Código de Trânsito e ao Código de Aviação Civil durante o trajeto entre Paracatu e Brasília.
Disputa política ganha as margens da BR-040
O ofício enviado à PRF transforma uma marcha política em mais um capítulo da guerra em torno dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A mobilização do deputado bolsonarista, que saiu de Paracatu, no Noroeste de Minas, rumo a Brasília, protesta contra as prisões de condenados pelos ataques às sedes dos Três Poderes. A previsão é que o grupo chegue à capital federal no domingo, 25 de janeiro, após percorrer cerca de 240 quilômetros até a Praça do Cruzeiro, no centro de Brasília.
O documento encaminhado pelos parlamentares do PT sustenta que a caminhada começou sem comunicação prévia à PRF, condição exigida pelo Código de Trânsito para qualquer interferência planejada em rodovias federais. Eles citam ainda avaliação da própria corporação, que, em comunicado na quarta-feira, aponta “riscos extraordinários” para o fluxo de veículos na BR-040 durante a passagem da comitiva de Nikolas. A rodovia é um corredor estratégico entre Minas Gerais, Goiás e o Distrito Federal, com intenso tráfego de carros, caminhões e ônibus interestaduais.
Risco no asfalto e no ar
No ofício, os deputados classificam a atuação das autoridades no caso como “omissão estrutural”. Segundo eles, a ausência de planejamento coordenado teria “inviabilizado qualquer ação preventiva” e transferido “integralmente o risco do evento para terceiros, participantes, usuários da rodovia e agentes públicos que não consentiram em se expor a tal situação”. A crítica mira tanto a organização da marcha quanto a resposta do poder público à concentração de pessoas e veículos às margens da via.
Os petistas afirmam que a manifestação viola o Código de Trânsito Brasileiro ao ocupar faixa de rolamento e acostamentos sem autorização expressa da PRF. O texto vai além do asfalto e acende o alerta para o espaço aéreo. Eles relatam a presença de helicópteros acompanhando o ato, com pousos e decolagens próximos à pista, sem registro de autorização da autoridade responsável pela área, em afronta às normas do Código de Aviação Civil. O cenário, descrevem, combina risco de atropelamentos, colisões e incidentes envolvendo aeronaves em uma rodovia já pressionada pelo grande fluxo diário.
Direito de protesto em choque com segurança pública
O pedido à PRF faz um contraponto direto ao discurso de Nikolas Ferreira, que apresenta a caminhada como um ato em defesa de garantias individuais dos presos pelos atos de 8 de janeiro. Intitulada “Caminhada pela Liberdade”, a mobilização é divulgada como resposta àquilo que o deputado classifica como “violações de direitos humanos” e de garantias fundamentais contra os condenados pelos ataques golpistas. Ao longo dos últimos dias, políticos da extrema direita se revezam ao lado do parlamentar em diferentes trechos da BR-040, ampliando a visibilidade do protesto às vésperas do terceiro aniversário da invasão às sedes dos Poderes.
No documento, porém, Lindbergh e Correia afirmam que o direito de reunião tem limites claros quando se choca com a segurança coletiva. “O direito fundamental de reunião e manifestação pacífica, embora assegurado constitucionalmente, não se exerce de forma absoluta, nem autoriza a instrumentalização de infraestrutura pública crítica em condições que coloquem em risco a vida e a integridade física de terceiros”, escrevem. A frase busca marcar posição em um debate recorrente desde 2023: até onde vai a proteção à manifestação política quando ela se apoia em atos antidemocráticos ou coloca terceiros em perigo.
Qual o papel da PRF e o que está em jogo
A pressão sobre a PRF recoloca o órgão no centro do embate político após a atuação controversa nas eleições de 2022 e nos bloqueios golpistas em rodovias. Agora, a cobrança parte de parlamentares governistas que exigem uma resposta rápida. A reportagem questiona a corporação sobre o teor do ofício e eventuais providências e aguarda manifestação oficial. Em nota anterior, a PRF limitou-se a alertar para “riscos extraordinários” ao trânsito, sem anunciar medidas concretas para restringir ou reorganizar o trajeto.
O desfecho da caminhada pode ter reflexo direto sobre outros atos semelhantes, tanto à direita quanto à esquerda, em rodovias federais. Uma intervenção firme, com suspensão ou redirecionamento da marcha, tende a reforçar a leitura de que o direito de protesto encontra barreiras rígidas quando interfere em infraestrutura considerada crítica. Uma postura mais tolerante, com apenas recomendações e ajustes pontuais, pode ser interpretada pela oposição como recuo do governo diante da pressão da base bolsonarista e, pelo outro lado, como risco de repetição de episódios de desordem viária registrados em 2022.
Brasília no horizonte e incertezas no percurso
A chegada prevista para domingo, 25 de janeiro, na Praça do Cruzeiro, em Brasília, tende a transformar o ato em um palanque simbólico contra as decisões do Judiciário sobre os condenados de 8 de janeiro. A data encerra um percurso que, ao longo de três dias, mistura peregrinação política, disputa narrativa e tensão institucional em torno do papel das forças de segurança. A capital federal volta a ser palco de manifestações que contestam, de forma mais ou menos explícita, as punições impostas pelo Supremo Tribunal Federal aos envolvidos na tentativa de ruptura institucional de 2023.
O pedido do PT à PRF abre espaço para diferentes cenários: suspensão imediata do trajeto, imposição de restrições severas ou manutenção da marcha sob monitoramento reforçado. Qualquer decisão terá peso além da BR-040. Servirá de termômetro para a capacidade do Estado de impor regras claras às mobilizações políticas em vias e espaços estratégicos. Até a chegada a Brasília, permanece em aberto se a “Caminhada pela Liberdade” terminará como um ato de força de Nikolas Ferreira ou como um caso exemplar de reação das instituições ao uso da rua e da rodovia como instrumento de pressão política.
