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PSOL lança Monica Benicio ao Senado pelo Rio em 2026

O PSOL lança, neste sábado, 11 de abril de 2026, a candidatura da vereadora Monica Benicio ao Senado pelo Rio de Janeiro. A sigla aposta na trajetória da arquiteta e ativista para reforçar a presença da esquerda no Congresso e disputar protagonismo na política fluminense.

PSOL mira protagonismo e une forças com o PT

A decisão de colocar Monica Benicio na disputa ao Senado encerra semanas de articulação interna e negociações com aliados históricos. A direção do PSOL no Rio enxerva na vereadora de 38 anos um nome capaz de dialogar com movimentos sociais, setores progressistas da classe média e o eleitorado popular da capital e da Baixada Fluminense.

A candidatura nasce amparada por uma costura direta com a ex-governadora Benedita da Silva, um dos principais quadros do PT no estado. As conversas, relatadas por dirigentes, buscam montar uma frente de esquerda competitiva em 2026, com palanques integrados, partilha de tempo de televisão e coordenação de agenda em todo o estado. O entendimento é que, sem alinhamento entre PSOL e PT, a direita e a extrema direita tendem a ocupar ao menos uma das duas cadeiras em disputa no Senado.

A informação sobre a escolha de Monica é antecipada por Ancelmo Gois, em O Globo, e confirmada por dirigentes ouvidos reservadamente. A formalização ocorre neste fim de semana, em ato no Rio, e marca a entrada oficial da vereadora na corrida por uma das vagas fluminenses na Casa, hoje ocupadas por nomes ligados a campos conservadores.

Da Maré ao Parlamento: capital político e legado de Marielle

Nascida e criada no Complexo da Maré, na zona norte do Rio, Monica Benicio constrói sua trajetória pública a partir de experiências pessoais atravessadas por violência urbana, desigualdade e disputa por direitos básicos. Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela PUC-Rio, ela trabalha por anos com urbanismo social, habitação e direito à cidade, temas que depois migram para o seu mandato na Câmara Municipal.

A vida política de Monica ganha outra escala em 2018, depois do assassinato da vereadora Marielle Franco. Companheira de Marielle por mais de uma década, ela transforma o luto em agenda pública e passa a viajar o país, participa de audiências internacionais e cobra, em Brasília e no Rio, a identificação dos mandantes do crime. O vínculo entre as duas começa ainda na juventude, em uma viagem organizada por um grupo ligado à Igreja Nossa Senhora dos Navegantes para a Região dos Lagos, antes de qualquer projeção política.

Em 2020, o PSOL a convence a disputar uma vaga na Câmara Municipal do Rio. A eleição confirma o cálculo da sigla: Monica entra no Legislativo carioca com votação expressiva e se torna uma das vozes centrais de pautas como direitos humanos, mobilidade e política de moradia. O partido decide agora levar esse capital para a disputa nacional. Um dirigente resume, sob condição de anonimato: “Monica representa a memória de Marielle, mas também uma agenda própria, ligada ao direito à cidade e às periferias”.

A candidatura surge em um cenário de recomposição da esquerda no Rio, após uma década marcada por crises de segurança pública, intervenção federal em 2018 e sucessivas trocas de governadores. O PSOL calcula que o Senado, com mandatos de oito anos, oferece uma chance de consolidar uma referência nacional em torno de um projeto de cidade e de estado mais inclusivo, com foco em moradia, transporte e combate à violência policial.

Disputa por vagas, redesenho de alianças e peso simbólico

A entrada de Monica Benicio na corrida ao Senado tende a reorganizar o tabuleiro eleitoral fluminense. A eleição de 2026 renova duas das três cadeiras do estado, com expectativa de campanhas milionárias, alianças amplas e forte influência nacional. No cálculo dos partidos, cada vaga decide não apenas a correlação de forças no Congresso, mas também o acesso a cargos estratégicos em comissões e relatorias de projetos de alto impacto econômico e social.

O PSOL projeta que uma senadora alinhada à esquerda fortalece a defesa de temas como taxação de grandes fortunas, proteção de direitos trabalhistas e revisão de políticas de segurança baseadas em confrontos armados em favelas. A presença de Monica no Senado pode ampliar a pressão por transparência em operações policiais e por políticas de prevenção à violência, tema sensível em um estado que registra, historicamente, centenas de mortes em ações policiais por ano.

A articulação com Benedita da Silva, que já governa o estado e ocupa cargos no Congresso, funciona como um selo de entrada de Monica em um circuito político mais amplo, que inclui centrais sindicais, movimentos de moradia, pastorais ligadas à Igreja Católica e setores de igrejas evangélicas progressistas. Nos bastidores, dirigentes avaliam que essa combinação de trajetórias — Benedita, com mais de 40 anos de vida pública, e Monica, com pouco mais de 5 anos de mandato eletivo — permite à frente de esquerda dialogar com diferentes gerações de eleitores.

A candidatura também reabre o debate sobre representatividade no Senado, historicamente dominado por homens brancos. Se eleita, Monica pode se somar a uma bancada ainda pequena de mulheres negras na Casa, em um país em que elas representam cerca de 28% da população, segundo dados do IBGE, mas ocupam parcela mínima dos cargos eletivos. Organizações de direitos humanos e entidades feministas tratam a eleição de 2026 como um teste da capacidade do sistema político de incorporar essa maioria social aos espaços de decisão.

Campanha em construção e perguntas em aberto

O lançamento deste sábado abre uma nova fase para o PSOL no Rio. A partir de agora, o partido precisa definir alianças formais, montagem de chapas proporcionais e eventual apoio a candidaturas de governo e Presidência da República. A composição do palanque de Monica, o diálogo com o PT e outros partidos de esquerda e a capacidade de furar o bloqueio de estruturas partidárias mais robustas se tornam variáveis centrais da campanha.

Nas próximas semanas, a equipe de Monica monta coordenações regionais, ajusta discurso e busca doações, em um cenário em que os gastos de campanha ao Senado podem ultrapassar a casa de dezenas de milhões de reais, somando recursos públicos e privados dentro das regras eleitorais. Dirigentes do PSOL avaliam que a força simbólica da campanha e a identificação com a memória de Marielle podem compensar parte da desvantagem financeira frente a adversários consolidados.

A candidatura, porém, entra em campo cercada de incertezas. O desempenho nas pesquisas, ainda inexistentes para o Senado em 2026, a definição dos adversários e o grau de unidade da esquerda no estado seguem em aberto. Ao confirmar Monica Benicio como aposta para o Senado, o PSOL escolhe medir forças em uma arena de alto risco, mas também de alto retorno político. A campanha que começa agora testa não apenas o fôlego do partido, mas a disposição do eleitorado fluminense de levar ao Senado uma agenda forjada nas ruas da Maré e no legado interrompido de Marielle Franco.

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