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PSD de Minas afasta Pacheco da disputa ao governo e trava Silveira

O presidente do PSD em Minas Gerais, Cássio Soares, descarta, nesta terça-feira (20/1/2026), a candidatura de Rodrigo Pacheco ao governo mineiro e coloca em xeque a disputa de Alexandre Silveira ao Senado pelo partido. A sigla confirma o vice-governador Mateus Simões como único nome ao Palácio Tiradentes em 2026 e afasta a possibilidade de dividir o palanque entre projetos alinhados a Lula e à direita liberal-conservadora.

PSD fecha questão em torno de Mateus Simões

A posição de Cássio Soares consolida um movimento que começa ainda em 2022, quando o PSD decide integrar de forma orgânica a base do governador Romeu Zema, do Novo. Desde então, o partido ocupa espaços estratégicos na gestão estadual e passa a tratar o vice-governador Mateus Simões como aposta principal para a sucessão ao Palácio Tiradentes em 2026.

Na entrevista exclusiva concedida na terça-feira (20/1), Cássio é direto ao rechaçar uma segunda pré-candidatura ao governo dentro da legenda. “Hoje, nós temos um projeto definido com o Mateus Simões. Não cabe ter dois pré-candidatos ao governo no PSD”, afirma. A frase mira, sem rodeios, o senador Rodrigo Pacheco, que aparece em conversas de bastidor como possível nome ao governo com apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pacheco, filiado ao PSD desde 2021, ganha projeção nacional ao presidir o Senado entre 2021 e 2025. Nessa função, atua como um dos principais fiadores institucionais do governo Lula no Congresso. A postura o aproxima do Palácio do Planalto e do campo progressista, mas o distancia de parte significativa da base de direita em Minas, sobretudo após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Cássio evita o confronto pessoal, mas expõe o desencontro político. “Nós temos uma conversa serena e sempre honesta. Temos uma relação pessoal muito boa, ainda que hoje os campos políticos estejam diferentes”, diz. Ele reforça que o senador é informado “durante todas as conversas com o Mateus” e que não há surpresa sobre o rumo adotado pela sigla mineira.

Choque de projetos entre Lula e a direita mineira

O conflito central gira em torno do palanque. De um lado, o PSD mineiro se ancora no projeto liberal-conservador associado a Zema e a Mateus Simões, que busca unificar a direita no estado. Do outro, Rodrigo Pacheco e Alexandre Silveira consolidam, em Brasília, um vínculo direto com o governo Lula, que governa com uma base de centro-esquerda e centro.

Cássio Soares explicita essa divergência ao projetar o futuro de Pacheco. “Caso o Rodrigo venha a ser candidato, será com o apoio do governo Lula. O Mateus, por sua vez, defende uma ampla unificação da direita”, afirma. Na prática, ele admite que a eventual candidatura do senador ao governo tende a ocorrer fora do PSD, ainda que não cite um partido de destino.

O dirigente também reconhece o papel de Pacheco na contenção da crise democrática pós-8 de janeiro. “Rodrigo teve uma participação muito relevante na manutenção da democracia. Sofreu desgastes por ocupar uma cadeira que exigia posições firmes e tomou as decisões que considerou necessárias naquele momento”, avalia. O elogio vem acompanhado de um recado: o PSD mineiro valoriza essa trajetória, mas escolhe outro caminho eleitoral.

A mesma lógica se aplica ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, também filiado ao PSD. Silveira se torna peça-chave do Planalto em Minas, articula obras de infraestrutura e mantém agenda próxima a prefeitos do interior. A atuação o consolida como um dos principais representantes de Lula no estado, mas o coloca em rota de colisão com o novo desenho do partido mineiro.

Cássio admite a convivência institucional, mas vê pouco espaço para uma candidatura de Silveira ao Senado pelo PSD em 2026. “Ainda não sabemos qual será a decisão do Alexandre, mas sabemos que o caminho dele será ao lado do presidente Lula. Ele sempre deixou isso muito claro”, diz. A definição de Mateus Simões como cabeça de chapa torna ainda mais difícil encaixar, no mesmo palanque, um candidato ao Senado alinhado ao PT.

Coerência de palanque e disputa por espaço em 2026

O ponto de ruptura é a mensagem ao eleitor. Cássio Soares insiste na ideia de coerência como eixo do discurso. “Vejo muita dificuldade. Como vamos ter um palanque em que o candidato a governador, Mateus Simões, está junto com os candidatos de direita, enquanto o candidato ao Senado pede votos para Lula, que é da esquerda? O eleitor não compreende isso. E uma das coisas que o eleitor não perdoa é a incoerência”, afirma.

A avaliação dialoga com a experiência recente das urnas em Minas, segundo dirigentes do partido. Em 2022, o estado registra disputas em que alianças cruzadas confundem o eleitor e produzem resultados fragmentados, com palanques que misturam apoio a Zema, Lula e Jair Bolsonaro em diferentes combinações. O PSD mineiro decide, agora, reduzir essa ambiguidade, ao menos no discurso formal.

Ao fechar a porta para uma segunda candidatura ao governo, o partido fortalece Mateus Simões, que tem 39 anos e consolida sua imagem como articulador da direita liberal no estado. O vice-governador tenta atrair legendas como PL, Republicanos e parte do União Brasil para uma frente conservadora até outubro de 2026. A definição antecipada facilita a negociação de tempo de televisão, alianças proporcionais e palanques regionais.

Para Pacheco e Silveira, o recado também é prático. Qualquer movimento rumo a 2026 exigirá cálculo fino de sobrevivência política. Um eventual desembarque do PSD abre portas em partidos da base de Lula, mas implica romper com estruturas regionais consolidadas em Minas, incluindo diretórios municipais e redes de prefeitos. O custo político pode ser alto em um estado com 853 municípios e colégios eleitorais pulverizados.

Reações internas e incertezas no tabuleiro mineiro

Cássio Soares afirma que o tema ainda não entra formalmente na pauta interna do PSD, mas admite o desconforto nos bastidores. “Não posso afirmar, porque isso nunca foi colocado em discussão, mas vejo uma dificuldade muito grande por uma questão de coerência política”, diz, ao comentar uma eventual candidatura de Silveira ao Senado pela sigla.

A declaração abre espaço para disputas silenciosas dentro do partido. Núcleos ligados a prefeitos alinhados ao governo federal pressionam por uma postura mais flexível, temendo perder acesso direto a emendas e investimentos federais. Setores próximos a Zema e a Mateus Simões, por outro lado, defendem um corte mais nítido com o lulismo, para consolidar um bloco de direita mais robusto em 2026.

O efeito imediato é a cristalização de dois campos. De um lado, o PSD mineiro se apresenta como peça da engrenagem que sustenta o governo estadual, com discurso de liberalismo econômico, privatizações e concessões de infraestrutura. De outro, Pacheco e Silveira seguem orbitando Brasília e o Planalto, com capital político construído na mediação de conflitos e na distribuição de recursos federais.

As próximas semanas devem ser decisivas para definir se o afastamento será apenas eleitoral ou também partidário. Dirigentes esperam que até o fim do primeiro semestre de 2026 as principais candidaturas ao governo e ao Senado estejam formalmente desenhadas, para evitar mudanças de última hora como as que marcam o xadrez mineiro em 2018 e 2022.

A pergunta que resta é onde Rodrigo Pacheco e Alexandre Silveira irão ancorar seus projetos políticos caso confirmem a distância do PSD mineiro. O movimento de Cássio Soares, ao blindar o palanque de Mateus Simões, antecipa essa escolha e força os dois aliados de Lula a decidir, com mais de um ano de antecedência, qual lado pretendem ocupar na disputa por Minas Gerais em 2026.

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