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PSD afasta Pacheco e Silveira e fecha apoio a Mateus Simões em 2026

O PSD de Minas afasta o senador Rodrigo Pacheco e o ministro Alexandre Silveira de uma chapa própria em 2026 e crava o vice-governador Mateus Simões como nome do partido ao governo. A decisão é anunciada nesta terça-feira (20/1) pelo presidente estadual da sigla, deputado Cássio Soares, que descarta a hipótese de duas pré-candidaturas ao Palácio Tiradentes.

PSD escolhe lado e mira eleição de 2026

Cássio Soares aproveita a entrevista exclusiva ao Estado de Minas para pôr fim às especulações que rondam a sucessão estadual. Sem rodeios, afirma que não há espaço na legenda para uma candidatura de Rodrigo Pacheco ao governo nem para Alexandre Silveira disputar o Senado pelo partido em 2026. O recado atinge diretamente dois dos quadros mais conhecidos do PSD ligados ao governo Luiz Inácio Lula da Silva.

O dirigente insiste na palavra coerência para justificar a decisão. Desde 2022, o PSD integra formalmente a base do governador Romeu Zema, do Novo, e ocupa áreas sensíveis da máquina estadual. Nesse arranjo, o vice-governador Mateus Simões, de 39 anos, se torna o rosto do projeto liberal-conservador que o partido pretende apresentar ao eleitor mineiro daqui a pouco mais de um ano e meio.

Ao longo de 2024, rumores indicam que Pacheco poderia voltar ao tabuleiro mineiro com apoio explícito do Palácio do Planalto. A hipótese inclui até uma eventual mudança de partido para viabilizar um palanque alinhado a Lula em Minas. Cássio reconhece a estatura política do senador, mas frisa que o PSD já fez sua escolha. “Hoje, nós temos um projeto definido com o Mateus Simões. Não cabe ter dois pré-candidatos ao governo no PSD”, afirma.

O movimento escancara a mudança de eixo do partido no estado. Se em 2018 e 2020 o PSD transitava entre campos rivais, agora se coloca como pilar de uma frente de direita em torno de Zema e de seu vice. Esse alinhamento, segundo Cássio, precisa ficar nítido para o eleitor. “O pensamento do Mateus está alinhado com a grande maioria do PSD em Minas e também nacionalmente”, diz.

Pacheco e Silveira perdem espaço na chapa

Rodrigo Pacheco sai do centro da cena mineira em uma situação ambígua. Entre 2021 e 2025, como presidente do Senado, atua para conter crises institucionais e se torna peça-chave na sustentação do governo Lula. A postura rende aplausos da esquerda e críticas da direita, especialmente após os atos de 8 de janeiro de 2023. “Ele é um grande homem público, ainda que não compreendido por uma parcela do eleitorado, especialmente da direita após os atos do dia 8 de janeiro”, avalia Cássio.

O presidente do PSD mineiro ressalta o papel do senador na defesa das instituições. “Rodrigo teve uma participação muito relevante na manutenção da democracia. Sofreu desgastes por ocupar uma cadeira que exigia posições firmes e tomou as decisões que considerou necessárias naquele momento”, afirma. O elogio, porém, não altera o diagnóstico político. No xadrez do PSD em Minas, Pacheco passa a ser visto como um nome de outro campo.

Cássio admite, com franqueza, que uma eventual candidatura do senador ao governo tem mais chance de ocorrer fora da sigla. “Caso o Rodrigo venha a ser candidato, será com o apoio do governo Lula. O Mateus, por sua vez, defende uma ampla unificação da direita”, resume. A frase funciona como linha divisória entre dois projetos incompatíveis dentro da mesma legenda.

Alexandre Silveira enfrenta barreiras semelhantes. Ministro de Minas e Energia desde o início do atual mandato presidencial, o político mineiro se aproxima ainda mais do Planalto. Conduz agendas bilionárias em energia e infraestrutura e se torna um dos principais articuladores do governo federal junto a prefeitos do interior. Nos bastidores, é citado como potencial candidato ao Senado em 2026.

O cálculo de Cássio, entretanto, aponta para um impasse. “Ainda não sabemos qual será a decisão do Alexandre, mas sabemos que o caminho dele será ao lado do presidente Lula. Ele sempre deixou isso muito claro”, afirma. Na prática, o ministro se afasta do palanque que o PSD pretende construir ao redor de Simões com partidos e lideranças de direita.

O dirigente vai além e questiona a viabilidade eleitoral de uma chapa misturada. “Vejo muita dificuldade. Como vamos ter um palanque em que o candidato a governador, Mateus Simões, está junto com os candidatos de direita, enquanto o candidato ao Senado pede votos para Lula, que é da esquerda? O eleitor não compreende isso. E uma das coisas que o eleitor não perdoa é a incoerência”, dispara.

Alinhamento à direita redefine disputa em Minas

A decisão do PSD mexe com o desenho das alianças para 2026. Ao apostar em Mateus Simões como candidato único ao governo, o partido busca evitar rachas internos que marcaram eleições anteriores em Minas. Em 2022, o estado registra mais de cinco candidaturas competitivas ao Palácio Tiradentes, o que fragmenta o voto e empurra a disputa para a força dos palanques nacionais.

Desta vez, a sigla tenta se antecipar. Ao descartar oficialmente Pacheco e Silveira da chapa majoritária, o comando estadual sinaliza a partidos como PL, PP e Republicanos que está livre para negociar uma frente de direita claramente separada do governo Lula. O gesto dialoga com pesquisas internas que apontam o eleitor mineiro mais sensível a discursos de coerência e previsibilidade do que a alianças amplas demais.

Para o governo federal, o recado também é relevante. Sem um palanque forte do PSD em Minas, o Planalto precisa decidir se investe em Pacheco, em Silveira ou em outro nome para representar o projeto lulista no segundo maior colégio eleitoral do país, com mais de 16 milhões de eleitores em 2022. Qualquer movimento nessa direção tende a forçar uma saída negociada de um ou dos dois quadros da legenda.

Dentro do PSD, o rearranjo pode provocar reações. Prefeitos e vereadores ligados ao senador e ao ministro observam com cautela o avanço de Simões sobre as estruturas do partido no interior. A filiação do vice-governador, consolidada após a vitória de Zema em 2022 e a posse em 2023, já desloca lideranças tradicionais e reforça o peso da ala alinhada ao Novo.

Cássio, porém, minimiza o risco de ruptura. Afirma manter uma relação “serena e sempre honesta” com Pacheco e diz que o senador acompanha, desde o início, as conversas com o vice de Zema. “Durante todas as conversas com o Mateus, o Rodrigo estava sendo informado”, afirma. Sobre Silveira, ressalta que a convivência institucional é possível, embora o entendimento eleitoral pareça cada vez mais distante.

Pressão por definições e incertezas até 2026

O calendário eleitoral pressiona todas as partes. Em 2024, o PSD testa nas urnas municipais o discurso de alinhamento à gestão Zema. O desempenho em cidades-chave, como Belo Horizonte, Contagem, Juiz de Fora e Uberlândia, funciona como termômetro da força de Simões e da capacidade do partido de liderar uma coalizão de direita no estado.

Até o fim de 2025, Pacheco e Silveira precisam decidir se permanecem no PSD em um papel secundário na disputa local ou se buscam novas siglas para sustentar seus projetos. A janela partidária e o prazo de filiação, um ano antes das eleições, deixam pouco espaço para hesitações. Cada movimento terá impacto direto na relação de Minas com o Planalto e com o campo oposicionista.

Cássio admite que o cenário ainda não é tema formal na executiva estadual, mas volta à palavra que usa como fio condutor da entrevista. “Não posso afirmar, porque isso nunca foi colocado em discussão, mas vejo uma dificuldade muito grande por uma questão de coerência política”, conclui. A partir de agora, a disputa em Minas passa a ser também sobre quem consegue explicar de forma mais clara ao eleitor de que lado está.

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