Protestos em centenas de cidades dos EUA desafiam governo Trump
Multidões voltam às ruas nos Estados Unidos neste sábado (28) para a terceira edição dos atos No Kings, em protesto contra o governo Donald Trump. As manifestações criticam a guerra no Irã, o endurecimento da imigração e medidas vistas como autoritárias.
País em marcha, da capital a cidades de 10 mil habitantes
O dia amanhece com ruas bloqueadas, sirenes desligadas e cartazes erguidos em dezenas de cidades americanas. Em Washington, a cena se repete desde cedo: manifestantes cruzam a ponte de Arlington, na Virgínia, em direção ao centro da capital, ocupam as escadarias do Memorial Lincoln e lotam o National Mall. Organizadores falam em centenas de milhares de pessoas espalhadas pelo país e lembram que a última edição do No Kings, em outubro, reuniu quase 7 milhões de manifestantes.
Em Nova York, a Times Square se transforma em praça de protesto. A marcha atravessa Midtown Manhattan, força o fechamento de vias e arrasta uma massa que o Departamento de Polícia, em balanço anterior, já estimou em mais de 100 mil pessoas nos cinco distritos em dias de grande mobilização. Em Los Angeles, Boston, Nashville e Houston, as colunas avançam ao som de palavras de ordem contra o presidente, a guerra e o custo de vida.
Cidades menores também entram no mapa da insatisfação. Em Shelbyville, Kentucky, e Howell, Michigan, município com cerca de 10 mil habitantes, ruas residenciais viram corredores de cartazes contra o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e contra o envio de tropas ao exterior. A mesma coreografia se repete com sotaque estrangeiro em Paris, Londres e Lisboa, onde americanos expatriados chamam Trump de “fascista” e “criminoso de guerra” e pedem impeachment.
No centro dos atos está o movimento No Kings, que cresce desde 2025 e se apresenta como frente ampla contra o que considera deriva autoritária do governo. “Trump quer nos governar como um tirano. Mas esta é a América, e o poder pertence ao povo — não a aspirantes a rei ou seus comparsas bilionários”, afirmam os organizadores em nota divulgada nas redes. As efígies de Trump e do vice-presidente JD Vance se tornam alvo de faixas que pedem destituição e prisão.
Autoritarismo, guerra e custo de vida inflamam a oposição
Os protestos deste sábado condensam um acúmulo de choques políticos desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro. Em pouco mais de dois meses, o presidente amplia o alcance de ordens executivas, desmonta estruturas de agências federais e convoca tropas da Guarda Nacional para atuar em cidades americanas, muitas vezes contra a vontade de governadores estaduais. A disputa sobre os limites do poder federal volta ao centro do debate público.
A guerra no Irã funciona como fio condutor de boa parte da indignação. Cartazes pedem a retirada de tropas e apontam o conflito como fator de pressão sobre preços de energia e alimentos. O aumento do custo de vida ocupa lugar de destaque nas falas de manifestantes que relatam salários corroídos, aluguéis em alta e serviços públicos sob ameaça de cortes. A percepção de que decisões tomadas em Washington repercutem diretamente no bolso alimenta a adesão em municípios fora do eixo das grandes metrópoles.
Na área de imigração, o clima é de confronto aberto. Desde o início do ano, a atuação federal endurece, com mais batidas, detenções aceleradas e deportações sumárias. O episódio em Minneapolis, quando agentes de imigração matam a tiros dois cidadãos americanos, Alex Pretti e Renee Good, transforma um tema já sensível em ponto de ruptura. As mortes provocam protestos em cadeia e ampliam a desconfiança em relação ao uso da força pelo governo.
A Casa Branca reage com desdém. Um porta-voz classifica as manifestações como “sessões de terapia da ‘Síndrome de Desarranjo por Trump’” e afirma que só repórteres “pagos para cobri-las” se importam com os atos. O presidente, em entrevistas, rejeita a pecha de autoritário. “Eles estão se referindo a mim como um rei. Eu não sou um rei”, diz à Fox News, em referência direta ao mote No Kings. Aliados insistem que as medidas são necessárias para “reconstruir um país em crise”.
Juristas e opositores veem o quadro de forma oposta. Alertam para possíveis violações constitucionais em ordens executivas que concentram poder na Presidência e enfraquecem contrapesos institucionais. A cobrança para que autoridades federais processem supostos inimigos políticos acende alerta adicional. A cada nova ação, o movimento de rua ganha combustível e atrai grupos que antes se mantinham distantes das mobilizações anti-Trump.
Pressão política, risco institucional e o que vem a seguir
A presença de manifestantes em centenas de cidades, de capitais globais a pequenas localidades do interior americano, projeta impacto além deste fim de semana. Em ano de disputas legislativas e preparação para novas campanhas nacionais, o termômetro das ruas entra no cálculo de partidos, governadores e parlamentares. Republicanos moderados avaliam o custo de seguir com o presidente em todas as frentes; democratas testam discursos para canalizar a insatisfação em votos.
A mobilização também pressiona tribunais e Congresso, chamados a arbitrar a extensão do poder presidencial em temas como uso da Guarda Nacional em solo doméstico, condução da guerra no Irã e políticas migratórias. Processos já em curso em cortes federais ganham novo peso político diante das imagens de praças tomadas. Organizações de direitos civis veem no No Kings uma oportunidade rara de transformar debates jurídicos em pauta popular.
Governadores que contestam o envio de tropas federais para seus estados medem o tom da reação. A aposta, por ora, é em mensagens que defendem ordem pública e direito à manifestação pacífica, combinadas com ações judiciais contra medidas de Washington. Vários estados mobilizam a própria Guarda Nacional, em tese para garantir segurança durante os atos. Os organizadores insistem na natureza pacífica dos protestos e cobram protocolos claros para evitar confrontos.
No exterior, a adesão em cidades como Paris, Londres e Lisboa reforça a dimensão global da insatisfação com a política externa e migratória americana. A imagem de um país em convulsão interna fragiliza o discurso de liderança democrática que Washington tradicionalmente projeta. Críticos lembram que decisões adotadas hoje, em temas como guerra e perseguição a opositores, tendem a moldar a reputação internacional dos Estados Unidos por décadas.
Os próximos dias devem mostrar se a Casa Branca opta por recuar em pontos específicos, endurecer o discurso ou apostar no desgaste gradual das ruas. Organizações ligadas ao No Kings falam em novas jornadas de mobilização ainda neste semestre e articulam redes locais para manter pressão contínua sobre o Congresso. A pergunta que se coloca, para governo e opositores, é se a democracia americana conseguirá absorver mais um ciclo de confronto extremo sem romper regras básicas de convívio político.
