Professor brasileiro salva 15 alunos em massacre escolar no Canadá
O professor brasileiro Jarbas Noronha, 58, salva 15 alunos durante o tiroteio em massa na Escola Secundária de Tumbler Ridge, na Colúmbia Britânica, em 10 de fevereiro de 2026. Ele ergue barricadas com bancadas de metal e organiza uma rota de fuga enquanto uma atiradora percorre os corredores da escola. A tragédia deixa nove mortos e choca o Canadá.
Coragem em meio ao desespero
A tarde em Tumbler Ridge começa como qualquer outra. Na oficina de mecânica automotiva, no fim do corredor da escola, Noronha explica a um grupo de 15 alunos como testar a bateria de um carro. A aula começa às 13h40, com slides e exercícios práticos de uso do multímetro. Quarenta minutos depois, quando os estudantes se preparam para trocar o óleo de um veículo, o som abafado de tiros rompe a rotina.
Um dos alunos sai para buscar o próprio carro no estacionamento. Ao voltar, menciona ter ouvido disparos. O barulho constante da ventilação e dos equipamentos na oficina impede que o professor identifique de imediato o que acontece do lado de fora. O alarme da escola dispara. A diretora anuncia o lockdown, o protocolo de confinamento em caso de ataque.
Noronha conta os estudantes, respira fundo e assume o comando da sala. Sabe que não pode perder tempo. Pede silêncio, pede foco. “Juntos, adicionamos algumas bancadas de metal contra a porta, como se fossem barricadas, para ganhar tempo e preparamos um plano de fuga, caso alguém tentasse invadir a oficina”, relata ao Correio. A oficina é o último espaço do corredor, um ponto vulnerável, mas com uma vantagem: as portas de garagem que dão acesso direto ao pátio.
Enquanto ergue a barreira improvisada, o professor traça um plano simples e brutalmente concreto. Se a porta ceder, todos correm pelas entradas de garagem em direção ao estacionamento, que vira ponto de encontro e possível rota de saída. Ele organiza quem vai na frente, quem cuida de quem, quem ajuda os colegas mais assustados. A prioridade é manter o grupo unido.
O tiroteio prossegue em outros blocos da escola, que abriga 175 estudantes. Em poucos minutos, seis pessoas são mortas dentro do prédio: uma professora de 39 anos, três alunas de 12 anos e dois alunos de 12 e 13 anos. Pelo menos 25 estudantes e funcionários ficam feridos, dois em estado crítico. Em uma casa próxima, a polícia encontra outros dois corpos. A autora dos disparos se mata após o massacre.
Uma comunidade em choque e um debate inevitável
A violência atinge uma cidade de 2 mil habitantes, encravada aos pés das Montanhas Rochosas, no centro-oeste do Canadá. Tumbler Ridge se vê obrigada a lidar com um tipo de tragédia ainda pouco comum no país, que foi historicamente associado a índices menores de violência armada em comparação com o vizinho Estados Unidos. A dimensão do ataque leva o primeiro-ministro Mark Carney a fazer um pronunciamento emocionado e a cancelar parte da agenda oficial.
“A nação está de luto”, afirma Carney. Ele determina que as bandeiras em todo o país fiquem a meio-mastro por sete dias. O gesto simboliza o tamanho da ferida aberta pelo ataque, considerado um dos maiores tiroteios da história recente do Canadá. Pais, avós, irmãos e amigos acordam no dia seguinte sem alguém que amam. A escola, que deveria ser um espaço de proteção e rotina, se transforma em cenário de medo.
No fim da tarde do dia seguinte, a Polícia Real Montada do Canadá confirma a identidade da atiradora: Jesse van Rootselaar, 18 anos, uma mulher transgênero. Segundo a polícia, ela mata a mãe e o irmão antes de ir à escola armada com um fuzil e uma pistola modificada. “O que posso dizer é que a suspeita nasceu com o sexo masculino e, seis anos depois, começou a transição para o gênero feminino”, explica o vice-chefe de polícia Dwayne McDonald. Registros oficiais mostram que agentes já tinham ido várias vezes à casa de Jesse por causa de episódios ligados à saúde mental.
As circunstâncias reacendem debates que atravessam fronteiras: controle de armas, falhas na rede de atenção em saúde mental e protocolos de segurança em ambientes escolares. Grupos conservadores tentam instrumentalizar o fato de a atiradora ser uma mulher trans, enquanto especialistas em violência alertam para o risco de estigmatizar uma população já vulnerável. A polícia, por sua vez, destaca o histórico de sofrimento psíquico da jovem e o acesso facilitado às armas como elementos centrais da tragédia.
Sobrevivente do massacre na Escola Politécnica de Montreal, em 1989, quando 14 mulheres foram assassinadas, a deputada Nathalie Provost volta a falar em trauma coletivo. “Essa tragédia destrói brutalmente o senso de segurança que deveria envolver os locais de aprendizado e de crescimento, e marca a perda da inocência para muitos jovens”, diz. O eco de um massacre antigo se mistura ao medo e à perplexidade de Tumbler Ridge.
Herói relutante, escolas em alerta e o que vem depois
Noronha vive na cidade desde 2022 e leciona na escola há um ano e meio. Natural de Monteiro Lobato, no interior de São Paulo, ele também ensina ciências aplicadas. O sotaque paulista e a calma na fala contrastam com a rotina interrompida naquela terça-feira. “Sou um professor. Meus alunos são minha responsabilidade durante minha aula. Só isso”, afirma. Parte da comunidade o trata como herói. Ele recusa a palavra, mas sabe que sua rapidez impede que o massacre seja ainda maior.
Para famílias como a de Darian Quist, 17 anos, estudante da escola, o desfecho poderia ser diferente. O jovem se tranca com colegas em outra sala, do lado oposto ao corredor da oficina. “Darian não ouviu nem viu muita coisa”, conta o pai, Shane Quist. A mãe do estudante trabalha no hospital da cidade e descobre o ataque quase em tempo real. O pânico se espalha por mensagens de celular e alertas oficiais, enquanto pais correm para o entorno da escola em busca de notícias.
A cena de ambulâncias, carros de polícia e familiares em choque se repete em cidades que atravessam massacres escolares. O que muda, agora, é o endereço e a necessidade de uma comunidade pequena se reorganizar. “Sei que a cidade se unirá e se ajudará mutuamente”, diz Shane. Ele lembra um incêndio em um prédio de apartamentos no verão anterior, quando moradores se mobilizaram para ajudar desabrigados. A confiança em uma reação coletiva reaparece, mesmo em meio ao luto.
O governo canadense promete apoio psicológico a alunos, professores e famílias, além de revisar protocolos de segurança em escolas de todo o país. Especialistas em educação defendem treinamentos mais frequentes para docentes e funcionários, com simulações de emergência que vão além de orientações formais. O caso de Noronha, que monta uma barricada com o que tem à mão, é citado como exemplo de preparo prático aliado a sangue-frio.
Investigações detalham agora a trajetória de Jesse, o acesso às armas e as falhas na rede de proteção que poderiam ter interrompido o caminho até o massacre. Debates no Parlamento sobre endurecimento de regras de posse e porte de armas ganham novo fôlego. Organizações de direitos humanos alertam para o risco de que a discussão sobre identidade de gênero desvie o foco de questões estruturais, como financiamento da saúde mental e monitoramento de ameaças.
Em Tumbler Ridge, o retorno às aulas ainda não tem data definida. A escola passa por perícia, limpeza e adaptação de espaços. Psicólogos e assistentes sociais começam a atender estudantes e professores em ginásios, igrejas e centros comunitários. O Brasil acompanha à distância a história do professor paulista que ergue bancadas de metal para segurar uma porta e, com isso, segura também a linha tênue entre a vida e a morte.
Quando a rotina voltar, a oficina de mecânica provavelmente não será mais a mesma. A pergunta que fica, para Tumbler Ridge e para o Canadá, é se o país conseguirá agir para que o gesto solitário de um professor não seja a última barreira entre adolescentes e um novo massacre.
