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Príncipe Harry rebate Trump e defende sacrifício da Otan no Afeganistão

O príncipe Harry sai em defesa das tropas da Otan e contesta críticas do ex-presidente Donald Trump sobre o papel dos aliados no Afeganistão. Em declaração divulgada nesta sexta-feira (23), ele afirma que os militares merecem respeito e reconhecimento, não distorções.

Harry reage a críticas de Trump e resgata papel da Otan

A fala de Harry é uma resposta direta às recentes declarações de Trump, que volta a sugerir que aliados da Otan teriam se mantido afastados da linha de frente no Afeganistão. O príncipe, veterano de duas missões no país, decide intervir no debate e recoloca o foco nos soldados que combateram ao lado dos Estados Unidos por quase duas décadas.

“Em 2001, a Otan invocou o Artigo 5 pela primeira — e única — vez na história. Isso significava que cada nação aliada estava obrigada a ficar ao lado dos Estados Unidos no Afeganistão, em busca da nossa segurança compartilhada. Os aliados atenderam a esse chamado”, diz Harry, em declaração oficial enviada por seu porta-voz.

O posicionamento, divulgado em 23 de janeiro de 2026, mira a narrativa de que os Estados Unidos teriam arcado sozinhos com o maior peso do conflito. Ao citar o compromisso coletivo da aliança militar, Harry tenta recolocar a discussão no terreno dos fatos históricos e do custo humano da guerra.

“Eu servi lá. Fiz amigos para a vida toda lá. E perdi amigos lá”, afirma. A frase remete à própria trajetória do príncipe, que passa cerca de dez semanas em operação no Afeganistão entre 2007 e 2008 e retorna ao front em um destacamento de quatro meses em 2012, como oficial do Exército britânico.

Em sua autobiografia, lançada em 2023, ele relata detalhes dessa experiência e diz ter matado 25 combatentes do Talibã. O livro, à época, provoca críticas de militares e especialistas em segurança, mas também expõe de forma crua a dimensão pessoal do conflito para quem esteve em combate.

Custos da guerra reacendem disputa por memória e narrativa

Ao rebater Trump, Harry coloca no centro do debate os números e os rostos por trás da intervenção no Afeganistão. Segundo ele, 457 militares britânicos morrem em operações no país. “Milhares de vidas foram mudadas para sempre. Mães e pais enterraram filhos e filhas. Crianças ficaram sem um dos pais. As famílias ficaram carregando o custo disso”, afirma na declaração.

A referência às famílias de veteranos reforça o recado político e emocional. O príncipe fala como integrante da realeza, mas também como ex-combatente que convive com colegas feridos física e psicologicamente. Ao insistir em “mencionar de forma verdadeira e com respeito” o esforço da Otan, ele sinaliza incômodo com discursos que minimizam a participação de outros países na coalizão.

“Esses sacrifícios merecem ser mencionados de forma verdadeira e com respeito, enquanto todos continuamos unidos e leais à defesa da diplomacia e da paz”, declara. A frase mira um público mais amplo do que a base eleitoral de Trump e dialoga com veteranos, suas famílias e governos europeus que, desde 2001, enviam milhares de militares para o Afeganistão sob o guarda-chuva da Otan.

A menção ao Artigo 5, cláusula de defesa coletiva prevista no tratado fundacional da aliança, resgata um momento-chave da política internacional recente. Em 12 de setembro de 2001, um dia após os atentados em Nova York e Washington, a Otan decide acionar o dispositivo e reconhecer o ataque aos Estados Unidos como ataque a todos os aliados. A partir dali, a guerra no Afeganistão se torna o maior e mais longo esforço militar conjunto da organização.

Na prática, o desabafo de Harry funciona como contraponto às simplificações que ganham tração em disputas eleitorais e redes sociais. Ao lembrar os 457 britânicos mortos e o impacto “para sempre” na vida de milhares de famílias, ele pressiona líderes políticos a tratar a guerra com menos slogans e mais memória.

Impacto no debate internacional e próximos passos

A manifestação pública do príncipe chega em um momento em que a Otan tenta preservar sua coesão em meio a novas crises, da guerra na Ucrânia às tensões no Oriente Médio. O tom firme contra Trump tende a alimentar discussões sobre o peso de cada aliado em conflitos passados e futuros, em especial quando se fala em partilha de custos e envio de tropas.

O recado encontra eco entre veteranos e organizações que cobram mais assistência a ex-combatentes, muitos deles marcados por traumas físicos e psicológicos depois de anos no Afeganistão. Ao reforçar a importância da “lealdade à defesa da diplomacia e da paz”, Harry tenta deslocar o foco do heroísmo individual para a responsabilidade coletiva de evitar novas guerras longas e mal explicadas.

Governos europeus acompanham com atenção esse tipo de intervenção, porque a memória do Afeganistão ainda pesa sobre decisões de engajamento em operações externas. A insistência do príncipe em reconhecer o papel da Otan pode fortalecer líderes que defendem a cooperação entre aliados em vez de soluções isoladas ou nacionalistas.

O episódio também recoloca em evidência a própria trajetória de Harry, hoje afastado das funções oficiais da família real britânica, mas ainda capaz de influenciar debates globais quando fala sobre guerra, trauma e serviço militar. Ao escolher confrontar Trump com dados e apelo à verdade histórica, ele se posiciona como voz pública em defesa de quem pouco aparece nas fotos oficiais: os soldados e suas famílias.

O desfecho desse embate narrativo ainda é incerto. A resposta de Trump, se vier, tende a testar novamente os limites entre memória e conveniência política. Enquanto isso, a lembrança de 457 mortos britânicos e de milhares de vidas “mudadas para sempre” continua a cobrar, silenciosamente, um relato mais honesto sobre o que significou, para a Otan e para o mundo, a guerra no Afeganistão.

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