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PRF diz não ter sido avisada sobre caminhada de Nikolas Ferreira

A Polícia Rodoviária Federal afirma, nesta quarta-feira (21/1/2026), que não foi oficialmente informada sobre a “caminhada pela liberdade”, liderada por Nikolas Ferreira (PL-MG), na BR-040. O protesto reage à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e percorre mais de 200 km entre Paracatu (MG) e Brasília (DF).

Protesto cresce na estrada e expõe falha de coordenação

O ato, que Nikolas batiza de “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, ocupa desde a manhã de 21 de janeiro trechos da BR-040 em Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal. Ao longo do dia, o fluxo de veículos reduz principalmente na altura do quilômetro 105, em Cristalina (GO), onde há interdição parcial da pista no sentido Brasília.

Em comunicado, a PRF diz que “não houve comunicação prévia” sobre o deslocamento do grupo. A corporação informa que acompanha a movimentação dos manifestantes, mas destaca “riscos inerentes ao fluxo extraordinário na via” sem planejamento específico. Na prática, o órgão admite que reage a um fato consumado, e não a um evento agendado.

A concessionária Via Cristais, que administra o trecho entre Paracatu e Cristalina, relata monitoramento constante da rodovia e confirma lentidão no quilômetro 105. A empresa informa a adoção de painéis de mensagens variáveis para alertar motoristas sobre a presença de pessoas na pista e orientar para a condução em baixa velocidade. A circulação de pedestres em rodovia federal aumenta o risco de atropelamentos, colisões traseiras e manobras bruscas.

O gabinete de Nikolas reage com outra versão. Em nota, a assessoria afirma que encaminha ofícios à PRF e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para comunicar oficialmente o percurso pela BR-040. A equipe diz ainda que a Secretaria-Executiva da Diretoria de Operações da PRF confirma o recebimento da comunicação, mas não especifica o horário em relação ao início da caminhada.

Decisão de última hora amplia pressão sobre segurança viária

A manifestação nasce em poucos minutos. Segundo a assessoria de Nikolas, a decisão de iniciar a caminhada ocorre no mesmo dia em que o deputado está em Paracatu para entregar emenda parlamentar. A escolha do trajeto até Brasília, em um corredor rodoviário usado diariamente por milhares de veículos, transforma um ato político em teste imediato para o sistema de segurança nas estradas federais.

A PRF sustenta que a falta de aviso prévio impede a elaboração de um plano para mitigar riscos. Sem tempo para redistribuir equipes, definir pontos de apoio, reforçar sinalização e alinhar ações com a concessionária e polícias locais, a corporação atua em caráter reativo. O monitoramento ocorre, mas o planejamento estruturado, com rotas alternativas e bloqueios programados, não sai do papel.

A Via Cristais tenta reduzir o impacto com comunicação direta ao usuário. Em nota, a concessionária afirma manter “comunicação ativa em todos os seus canais de informação”, o que inclui painéis eletrônicos ao longo da BR-040. Os equipamentos alertam os condutores sobre pessoas caminhando na pista e sobre trechos com interdição parcial. A empresa diz acompanhar o evento “atentamente” com outras autoridades.

O ato se insere em um ambiente político tenso. A condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão, por tentativa de golpe de Estado, fortalece a mobilização de parlamentares e apoiadores que apontam perseguição judicial. A caminhada entre Paracatu e Brasília se soma a essa linha de protestos, com foco em visibilidade nacional e pressão sobre as instituições de Justiça.

A escolha da estrada, e não de uma praça ou avenida urbana, desloca o embate simbólico para uma infraestrutura essencial do país. A BR-040 é rota diária de trabalhadores, ônibus interestaduais e transporte de cargas. Cada faixa ocupada por manifestantes reduz a capacidade da via e aumenta o risco de incidentes em série.

Disputa de versões reacende debate sobre responsabilidade

O desencontro entre a versão da PRF e a de Nikolas Ferreira abre uma discussão que vai além deste protesto. Em eventos políticos com impacto direto sobre rodovias federais, a definição de responsabilidades ainda é difusa. Organizações de atos, órgãos de segurança e concessionárias dividem tarefas, mas não há consenso sobre prazos mínimos de aviso nem sobre quem responde em caso de acidente grave.

No comunicado, a PRF deixa claro que a ausência de informação prévia compromete qualquer planejamento. O órgão aponta que, sem esse passo, fica mais difícil proteger manifestantes e motoristas. A corporação fala em “riscos inerentes ao fluxo extraordinário na via” para resumir a combinação de pedestres, veículos pesados e redução repentina de velocidade em uma mesma pista.

A assessoria de Nikolas, por sua vez, insiste que atua dentro da legalidade. O gabinete afirma que oficia a PRF, a ANTT e outros órgãos de segurança “na medida em que os trajetos estão sendo viabilizados”. O argumento reforça a ideia de um protesto em construção, com circuitos definidos a curto prazo, e não de um evento fechado com semanas de antecedência.

Na prática, a divergência expõe um vácuo normativo sobre atos em rodovias, sobretudo quando liderados por autoridades com mandato. A legislação de trânsito prevê punições para quem obstrui vias e coloca em risco a segurança, mas raramente é aplicada de forma uniforme em manifestações políticas. Cada caso vira um precedente e serve de referência para o próximo protesto.

Próximos atos e pressão por regras mais claras

O impacto imediato recai sobre quem depende da BR-040. Motoristas relatam lentidão e paradas na altura de Cristalina, especialmente no sentido norte, em direção a Brasília. Cargas chegam com atraso, linhas de ônibus ajustam horários e condutores enfrentam incerteza sobre o tempo de viagem em um corredor usado por Minas, Goiás e Distrito Federal.

Autoridades de trânsito avaliam os desdobramentos do protesto enquanto a caminhada avança. A repercussão do episódio deve alimentar discussões no Congresso sobre regras para manifestações em rodovias federais, inclusive com propostas de prazos mínimos de comunicação e exigência de planos de segurança apresentados pelos organizadores. Governos estaduais e o Executivo federal tendem a ser pressionados a definir protocolos que preservem o direito de protesto sem paralisar corredores estratégicos.

O gabinete de Nikolas promete seguir oficiando novos trechos à medida que a rota se consolida, e a PRF mantém equipes em alerta ao longo da BR-040. O desfecho da caminhada e a ausência, até agora, de registros de acidentes graves não encerram a discussão. A pergunta que fica, para motoristas e manifestantes, é como conciliar atos de alta visibilidade política com a rotina de uma rodovia que não pode parar.

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