PRF aciona gabinete de Nikolas e monitora marcha pró-Bolsonaro na BR-040
A Polícia Rodoviária Federal comunica ao gabinete do deputado Nikolas Ferreira, nesta sexta-feira (23), que acompanha a marcha pró-Bolsonaro na BR-040 para reduzir o risco de acidentes. O ato pede anistia e liberdade ao ex-presidente, preso por determinação judicial.
Marcha cresce na estrada, PRF reage e trânsito entra em alerta
A caminhada sai de Paracatu, no Noroeste de Minas, e segue rumo a Brasília, a 250 quilômetros de distância, ocupando acostamento e trechos da pista da BR-040. O movimento liderado por Nikolas ganha adesão de aliados de Jair Bolsonaro e impulsiona um embate imediato entre direito de manifestação e segurança viária em uma das principais ligações entre Minas e o Distrito Federal.
O ofício é assinado pela superintendente da PRF no Distrito Federal, Adriana Mancilha Pivato. No texto, ela registra que o órgão só toma conhecimento formal da manifestação depois que o grupo já está em deslocamento, o que impede, segundo a própria PRF, uma análise prévia de risco e o planejamento operacional adequado. Mesmo assim, a corporação afirma que passa a adotar medidas para proteger tanto os participantes quanto motoristas e caminhoneiros que cruzam o trajeto.
“Recebida a informação por esta Superintendência, estão sendo tomadas as providências cabíveis para preservar a segurança dos manifestantes e usuários da rodovia”, escreve a superintendente. O documento menciona risco de acidentes e oferece apoio técnico ao gabinete do deputado, com orientações sobre como reduzir impactos no fluxo de veículos e garantir o cumprimento do Código de Trânsito Brasileiro.
A reação institucional ocorre enquanto a marcha se consolida como vitrine política do bolsonarismo em um momento de tensão, após a prisão do ex-presidente. Lideranças como o ex-vereador Carlos Bolsonaro, deputados federais de vários estados e senadores do PL e do Podemos se revezam ao lado de Nikolas no percurso. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também endossa o ato, ampliando o alcance simbólico da mobilização.
Disputa política chega à PRF e expõe disputa sobre uso de rodovias
No Congresso, a caminhada vira alvo de reação imediata da oposição ao bolsonarismo. Os deputados Lindbergh Farias, do PT do Rio, e Rogério Correia, também do PT, protocolam pedido formal à PRF para que o órgão adote medidas administrativas capazes de restringir, suspender ou redirecionar a manifestação. Eles alegam que a iniciativa começa sem aviso prévio às autoridades, justamente o ponto destacado pela superintendência no ofício ao gabinete de Nikolas.
Os parlamentares apontam registros de uso do acostamento e da própria pista de rolamento pela multidão, além de indícios de pouso de helicóptero nas imediações da via federal. Na avaliação deles, esse conjunto de condutas agrava o risco à segurança viária e pode configurar tanto infrações administrativas quanto crimes previstos na legislação de trânsito. A pressão mira diretamente a PRF, cobrada a agir com base no Código de Trânsito Brasileiro, que autoriza restrições em situações de perigo objetivo à circulação.
A assessoria de Nikolas tenta esvaziar o tom de conflito. Em nota, o gabinete afirma que não recebe qualquer notificação formal ou determinação de suspensão do ato, apenas um e-mail “preventivo e colaborativo” da PRF. “Recebemos um e-mail da Polícia Rodoviária Federal, no qual o órgão se colocou à disposição para atuar, caso necessário, com foco na segurança dos participantes da Caminhada Pela Justiça e Liberdade”, informa a equipe do deputado.
O grupo afirma manter comunicação constante com a Superintendência da PRF no Distrito Federal e com forças de segurança locais. Segundo o gabinete, representantes da organização participam de reuniões com autoridades nesta semana para alinhar rotas, horários e eventuais desvios. Até o momento, a equipe garante que não há registro de acidentes ligados à marcha nem interdições totais da rodovia.
Nikolas usa o desgaste como combustível político. Em entrevista ao portal Metrópoles, nesta quinta-feira (23), o deputado diz que a caminhada é “orgânica e pacífica” e não utiliza recursos públicos. “Estou de férias, faço o que quiser”, afirma, ao rebater críticas de que o ato teria caráter eleitoral antecipado e colocaria em risco motoristas que dependem da BR-040 para trabalhar.
Economia, trânsito e liberdade de expressão entram na mesma rota
O avanço da marcha pela rodovia, previsto para durar até domingo, quando o grupo pretende chegar à Esplanada dos Ministérios, mexe também com o ambiente empresarial mineiro. Nove entidades de peso, entre elas a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, a Federação do Comércio e a Associação Comercial e Empresarial de Minas, divulgam nota conjunta em defesa do direito de manifestação e do respeito ao Estado Democrático de Direito.
“Liberdade de expressão, liberdade de reunião e liberdade de manifestação são direitos constitucionais e componentes essenciais de qualquer nação que se pretenda civilizada, plural e próspera”, diz o texto, sem citar nomes de políticos. A mensagem mira o clima de polarização e busca afastar a leitura de que o empresariado se alinha automaticamente a um dos polos, ao mesmo tempo em que ecoa a base de apoio social que se mantém fiel a Bolsonaro.
A BR-040 sustenta parte relevante do tráfego de cargas entre Minas e o Centro-Oeste, com fluxo diário intenso de caminhões e ônibus. Cada bloqueio parcial provoca atrasos em entregas, pressiona custos logísticos e afeta motoristas profissionais, que trabalham com prazos apertados. O desafio da PRF é equilibrar esse impacto com a proteção constitucional à livre reunião em locais públicos, sobretudo quando a manifestação surge sem aviso e se desloca por mais de 200 quilômetros.
Nos bastidores do Congresso, aliados do governo acompanham a marcha com preocupação e avaliam que o desfecho em Brasília pode se transformar em novo foco de tensão institucional. A oposição bolsonarista vê o movimento como demonstração de fôlego e tenta projetar o ato como início de uma agenda permanente por anistia a Bolsonaro e revisão das decisões judiciais que o atingem.
Chegada a Brasília pode acirrar embate entre ruas e instituições
A previsão dos organizadores é concluir o trajeto até domingo, com concentração em frente à Praça dos Três Poderes. A chegada à capital federal tende a ampliar a responsabilidade da PRF e das forças de segurança do Distrito Federal, que já discutem rotas alternativas, barreiras móveis e eventuais limites de horário para atos em áreas sensíveis.
O ofício da PRF ao gabinete de Nikolas marca um primeiro movimento institucional registrado em papel, mas não encerra a disputa sobre como manifestações de grande porte podem usar rodovias federais. A resposta do órgão ao pedido de providências de Lindbergh Farias e Rogério Correia vai indicar até onde a corporação pretende ir na contenção da marcha. Enquanto isso, a BR-040 se torna palco de um teste concreto: até que ponto o país consegue conciliar trânsito seguro, economia em movimento e liberdade de expressão em um cenário de polarização permanente.
