Prestianni é chamado de “racista” na chegada do Benfica a Madri
Gianluca Prestianni é recebido com gritos de “racista” e “fora” por torcedores em Madri nesta terça-feira (24). O atacante argentino do Benfica viaja com a equipe mesmo após suspensão de um jogo determinada pela Uefa por suposto ato de racismo contra Vinicius Júnior.
Chegada sob pressão em Barajas e no hotel
Pouco depois das 11h30, horário local, o avião do Benfica pousa no Aeroporto de Barajas. A delegação segue direto para o hotel de concentração, na região central de Madri, e encontra um ambiente hostil logo na porta.
À medida que o ônibus estaciona, a pequena barreira de segurança não impede a reação imediata dos torcedores espanhóis. Assim que Prestianni desce, protegido por seguranças do clube, parte do grupo começa a gritar “fora” e “racista”, em coro, mirando o camisa 29.
O vídeo divulgado pelo programa espanhol El Chiringuito mostra o atacante caminhando em silêncio até a entrada, cercado por funcionários do Benfica, enquanto os gritos se repetem. O clima contrasta com o tom mais discreto da chegada ainda em Lisboa, quando o jogador aparece entre Simão Sabrosa e Mário Branco, dois dos principais dirigentes do futebol do clube.
Prestianni está no centro da polêmica desde o jogo de ida dos playoffs da Champions League, em Lisboa, quando é acusado de ofender Vinicius Júnior com insultos racistas. A Uefa reage rapidamente e aplica a suspensão de um jogo, que afasta o argentino da partida de volta, no Santiago Bernabéu.
Polêmica extrapola o campo e acirra rivalidade
A presença de Prestianni na delegação, mesmo punido, transforma a viagem em demonstração pública de apoio do Benfica ao jogador de 18 anos. O clube não o afasta do grupo e decide expô-lo ao ambiente hostil em Madri, enquanto aguarda o desfecho do processo disciplinar na Uefa.
O caso amplia um debate que já marca o futebol europeu. Vinicius Júnior denuncia episódios de racismo na Espanha desde 2022, com queixas frequentes em estádios de La Liga. A nova acusação, agora partindo de um colega de profissão em partida continental, eleva a pressão sobre dirigentes e entidades esportivas.
Apesar da suspensão, Prestianni desembarca em Madri como símbolo da irritação dos espanhóis com o episódio. A torcida do Real Madrid, que abraça Vinicius como um dos principais ídolos, transforma a chegada do Benfica em ato de repúdio ao argentino antes mesmo do apito inicial.
O contraste fica evidente quando José Mourinho, técnico do Benfica e ex-treinador do Real Madrid entre 2010 e 2013, aparece na porta do hotel. Em vez de vaias, escuta gritos de “volte” e “queremos você aqui”, em alusão a um possível retorno ao clube merengue. A reação destaca a separação, aos olhos da torcida, entre a idolatria ao ex-comandante e a rejeição ao jogador acusado de racismo.
Em meio à repercussão, declarações recentes de outras figuras do futebol ganham peso. O goleiro Thibaut Courtois, também com passagem pelo Real Madrid, afirma que “homofobia é tão séria quanto racismo”, ecoando o entendimento de que os órgãos do futebol precisam tratar diferentes formas de discriminação com o mesmo rigor.
Champions em clima tenso e cobrança por resposta
Real Madrid e Benfica se enfrentam nesta quarta-feira (25), às 17h (de Brasília), no Santiago Bernabéu, pelo jogo de volta dos playoffs da Champions League. Os espanhóis entram em campo com vantagem após vencerem a ida por 1 a 0, com gol justamente de Vinicius Júnior, protagonista involuntário da polêmica que agora domina o noticiário.
A partida passa a valer mais do que uma vaga na fase de grupos do torneio europeu. A atmosfera em Madri indica que o Bernabéu deve usar a arquibancada como palco de apoio explícito a Vinicius e de cobrança dura ao Benfica, ainda que Prestianni não possa jogar por causa da punição.
A Uefa acompanha o caso de perto. Dependendo da conclusão da investigação e de novas evidências, o atacante pode receber sanções adicionais, como aumento de pena ou obrigação de participar de programas educativos contra o racismo. O clube português também corre risco de sofrer punições coletivas se for considerado conivente com eventual conduta discriminatória.
O episódio reacende a discussão sobre como lidar com ofensas raciais em campo. Entidades esportivas reforçam campanhas, mas episódios se repetem em diferentes ligas, com impacto direto em atletas negros, que ainda relatam medo, cansaço e descrença nas punições. O caso Prestianni se soma a esse histórico e vira novo teste para o sistema disciplinar do futebol europeu.
O dia seguinte ao jogo deve indicar o rumo da tempestade. Se o Real Madrid confirma a classificação, Vinicius avança como protagonista esportivo e símbolo da luta contra o racismo. Se o Benfica reverte o placar, a pressão política e moral sobre o clube e sobre Prestianni tende a crescer, dentro e fora de campo.
Enquanto a bola não rola, a imagem de um jovem atacante atravessando um corredor de vaias em Madri resume o tamanho da encruzilhada: o futebol europeu precisa decidir se a reação vista na porta de um hotel se converte em mudanças concretas ou se ficará restrita aos gritos da multidão.
