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Presidente do Irã rebate Trump e nega programa nuclear bélico

O presidente do Irã nega nesta quinta-feira (26) que o país desenvolva armas nucleares e mísseis balísticos capazes de atingir os Estados Unidos. A declaração responde de forma direta às acusações recentes de Donald Trump e expõe novas tensões em uma rodada sensível de negociações internacionais sobre desarmamento.

Resposta em meio a negociações delicadas

A fala ocorre durante a terceira rodada de conversas internacionais sobre o programa nuclear iraniano, realizada em território iraniano com representantes de potências globais e organismos multilaterais. Na mesa, delegações discutem desde a fiscalização de instalações atômicas até eventuais flexibilizações de sanções econômicas impostas ao país desde meados da década passada.

Trump acusa o Irã, em declarações públicas nas últimas semanas, de manter um programa secreto para produzir ogivas nucleares e desenvolver mísseis balísticos intercontinentais com alcance superior a 10 mil quilômetros, capazes de atingir cidades norte-americanas. O governo iraniano rejeita a versão e afirma que seu programa tem caráter “exclusivamente pacífico” e focado na geração de energia e em aplicações médicas.

Ao falar diante dos representantes estrangeiros, o presidente iraniano afirma que “o Irã não busca, não produz e não testará armas nucleares”. Em seguida, diz que as acusações do ex-presidente dos EUA “não se baseiam em fatos, mas em interesses políticos internos”. A referência é à disputa doméstica norte-americana, em que o tema nuclear iraniano costuma ressurgir como bandeira eleitoral.

Diplomatas presentes relatam que o clima na sala muda de forma visível após a menção nominal a Trump. Negociadores europeus tentam recolocar o foco nas cláusulas técnicas do acordo em discussão, mas reconhecem que o embate público entre Washington e Teerã torna qualquer avanço mais lento e mais caro politicamente.

As conversas desta semana retomam pontos que lembram o acordo assinado em 2015, quando o Irã aceita limitar o enriquecimento de urânio a níveis abaixo de 4% e reduzir o número de centrífugas em troca de alívio progressivo das sanções. Desde então, uma sequência de rupturas, sanções adicionais e respostas iranianas leva o programa de volta ao centro das preocupações de segurança internacional.

Impacto direto nas relações com os EUA e no Oriente Médio

A negação pública do presidente tem efeito imediato sobre as relações entre Irã e Estados Unidos e amplia a atenção de governos na região do Oriente Médio. Países como Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes observam com cautela cada frase vinda de Teerã, preocupados com qualquer sinal de avanço militar que possa alterar o equilíbrio de forças regional.

Em Washington, assessores de segurança nacional avaliam que a declaração, sozinha, não reduz a desconfiança sobre o programa iraniano. A Casa Branca acompanha de perto relatórios de inspeção, dados de satélite e análises de inteligência. Setores do Congresso defendem manter ou até ampliar sanções, sob o argumento de que “negações públicas não substituem acesso total às instalações e transparência documental”.

No campo econômico, a fala do presidente iraniano é calculada para tentar destravar negociações que podem aliviar parte das restrições impostas ao país. Desde 2018, sucessivos pacotes de sanções cortam a receita do petróleo, afetam bancos e limitam o acesso a investimentos estrangeiros, com impacto direto sobre inflação, desemprego e crescimento. Diplomatas estimam que um acordo sólido de desarmamento pode, em poucos anos, liberar dezenas de bilhões de dólares em comércio e investimentos.

Analistas lembram que, se o Irã conseguir comprovar com dados verificáveis que não desenvolve armas nucleares, o país ganha margem para negociar melhor sua posição regional. A narrativa de nação disposta a dialogar e sujeita a inspeções independentes fortalece a diplomacia iraniana em fóruns como a ONU e a Agência Internacional de Energia Atômica, além de reduzir o espaço político para ações militares unilaterais na região.

Para aliados dos Estados Unidos, a fala em Teerã exige respostas calibradas. Governos europeus, que se envolvem diretamente nas negociações, buscam uma linha intermediária: cobram garantias adicionais, mas defendem que o diálogo permaneça aberto. A avaliação é que qualquer escalada rápida, seja militar ou econômica, aumenta o risco de instabilidade em uma região que concentra cerca de 30% das reservas provadas de petróleo do mundo.

Próximos passos e incertezas nas negociações

As próximas 48 horas são consideradas críticas pelos negociadores. O cronograma prevê a apresentação de um rascunho de compromisso até o fim desta rodada, com metas de verificação, prazos e mecanismos de sanção automática em caso de descumprimento. Delegações trabalham com cenários que vão de um acordo mínimo, focado apenas em inspeções adicionais, até um pacote mais amplo, com prazos para suspensão gradual de sanções financeiras.

O discurso do presidente iraniano também mira a opinião pública interna. Em um país com população superior a 85 milhões de habitantes e uma parcela jovem que sofre com desemprego elevado, qualquer gesto que sinalize abertura econômica pode render apoio político imediato. Ao mesmo tempo, setores mais duros do regime resistem a concessões extensas em áreas militares e cobram que o governo não ceda a pressões dos Estados Unidos.

Especialistas em segurança alertam que, mesmo com uma negação clara, a questão nuclear iraniana continuará no centro do tabuleiro geopolítico. O histórico de desconfiança mútua entre Teerã e Washington não se dissolve em uma única rodada de conversas, nem em um único discurso. A cada novo relatório técnico, o debate sobre risco de proliferação e possibilidade de conflito armado volta à superfície.

Negociadores envolvidos no processo afirmam, em privado, que o sucesso ou fracasso desta terceira rodada definirá o tom das relações entre Irã e grandes potências pelos próximos anos. Um acordo crível tende a reduzir a probabilidade de ações militares preventivas e a abrir espaço para cooperação econômica. Um impasse prolongado reforça a lógica de sanções, isolamento e ameaças, cenário em que qualquer erro de cálculo pode ter consequências irreversíveis.

Enquanto as delegações seguem reunidas em Teerã, a principal pergunta permanece sem resposta definitiva: as promessas públicas de que o país não buscará armas nucleares serão acompanhadas por transparência suficiente para convencer um mundo cada vez mais cético?

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