Presidente do Irã impõe três condições para encerrar guerra com EUA e Israel
O presidente do Irã estabelece, nesta quinta-feira (12), três condições explícitas para encerrar a guerra com Estados Unidos e Israel. Ele exige reconhecimento de direitos, pagamento de reparações e garantias internacionais contra novos ataques.
Condições públicas em meio à escalada
A sinalização parte de Teerã em um momento de forte escalada militar no Oriente Médio, menos de duas semanas após o ataque coordenado que mata o líder supremo Ali Khamenei, em 28 de fevereiro. O conflito já atinge diretamente ao menos nove países da região, envolve grupos armados como o Hezbollah e pressiona aliados estratégicos, entre eles Rússia e Paquistão.
Em publicação na rede social X, o presidente afirma que a guerra começa “pelo regime sionista e pelos Estados Unidos” e condiciona qualquer cessar-fogo a concessões claras. “A única maneira de acabar com esta guerra — iniciada pelo regime sionista e pelos Estados Unidos — é reconhecer os direitos legítimos do Irã, pagar reparações e obter firmes garantias internacionais contra futuras agressões”, escreve.
A mensagem circula em paralelo a contatos diplomáticos com Moscou e Islamabad. O presidente relata ter conversado com os líderes da Rússia e do Paquistão para reafirmar o “compromisso do Irã com a paz”, numa tentativa de mostrar que, apesar da retaliação militar em curso, Teerã busca um desfecho negociado. É a primeira vez, desde o início da guerra, que o governo iraniano expõe de forma organizada o que considera aceitável para suspender ataques.
Guerra regional, novas lideranças e pressão internacional
A ofensiva dos Estados Unidos e de Israel em 28 de fevereiro destrói parte expressiva da estrutura militar iraniana e reconfigura o equilíbrio de poder no país. Além da morte de Ali Khamenei, autoridades de alto escalão do regime são atingidas, e Washington afirma ter destruído dezenas de navios, sistemas de defesa aérea, aviões e outros alvos estratégicos. A ação abre uma fase inédita de confronto direto entre os três países, após anos de disputa indireta.
Em resposta, o Irã amplia o teatro de operações e passa a atacar alvos econômicos e militares associados a Washington e Tel Aviv em Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Iraque e Omã. Teerã sustenta que mira apenas interesses norte-americanos e israelenses, mas as ofensivas impactam infraestrutura civil e comércio regional. A guerra se estende ao Líbano, onde o Hezbollah, apoiado pelo Irã, lança ataques contra o território israelense, desencadeando fortes bombardeios de Israel a posições do grupo no país vizinho.
A conta humana cresce rapidamente. No Irã, mais de 1.200 civis morrem desde o início da guerra, segundo a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos. A Casa Branca reconhece pelo menos sete soldados americanos mortos em decorrência direta de ataques iranianos. No Líbano, centenas de pessoas perdem a vida sob bombardeios israelenses contra o que o governo de Israel descreve como alvos do Hezbollah.
As mudanças internas em Teerã adicionam outra camada de incerteza. Com a morte de grande parte da cúpula, um conselho escolhe Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, como novo líder supremo. Analistas veem a decisão como sinal de continuidade de linha dura, sem reformas estruturais ou abertura política. Donald Trump, que reafirma influência sobre a estratégia norte-americana, classifica a escolha como um “grande erro” e diz que Mojtaba é “inaceitável” para liderar o país, alegando que deveria ter sido consultado no processo.
Impactos práticos e disputa por narrativas
As condições apresentadas pelo presidente iraniano reorganizam o campo diplomático. Ao vincular o fim da guerra ao reconhecimento de “direitos legítimos do Irã”, o governo tenta transformar o debate militar em discussão política mais ampla, que inclui soberania, segurança e sanções econômicas acumuladas ao longo de décadas. O pedido de reparações indica que Teerã pretende capitalizar a destruição sofrida, tanto na infraestrutura militar quanto em danos civis, e busca responsabilizar formalmente Washington e Tel Aviv.
O apelo por “firmes garantias internacionais” aponta para a necessidade de aval externo, possivelmente via Conselho de Segurança da ONU ou acordos de segurança com países aliados. Rússia e Paquistão se colocam como peças-chave nesse tabuleiro. Moscou tenta preservar sua influência sobre Teerã e evitar um colapso completo da segurança regional que afete seus próprios interesses. Islamabad lida com a pressão de fronteiras sensíveis com o Irã e o Afeganistão, enquanto o primeiro-ministro Shehbaz Sharif viaja à Arábia Saudita para consultas relâmpago, em nova rodada de conversas regionais.
A guerra também repercute em mercados globais e rotas estratégicas. Ataques a alvos econômicos em países do Golfo ameaçam cadeias de energia e logística, com impacto direto sobre exportações de petróleo e gás. A continuidade de ofensivas no Líbano, somada à instabilidade em países que sediam bases americanas, aumenta o risco de incidentes que envolvam tropas de outras nações e empresas privadas de segurança.
Diplomacia em movimento e incertezas à frente
As três condições impostas por Teerã funcionam, na prática, como ponto de partida para qualquer negociação de cessar-fogo. A recepção de Washington e de Israel, porém, ainda é incerta. Até agora, as duas capitais concentram o discurso em enfraquecer a capacidade militar iraniana e impedir avanços tecnológicos, em especial no programa de mísseis e na área nuclear, sem sinalizar disposição para admitir culpa ou oferecer reparações financeiras.
Diplomatas na região avaliam que a pressão sobre aliados intermediários tende a crescer nos próximos dias, em busca de um formato mínimo de diálogo. A escolha de Mojtaba Khamenei como líder supremo reduz apostas em mudanças internas e reforça a percepção de que o Irã continua disposto a sustentar uma guerra longa, alternando momentos de escalada e acenos pontuais de negociação. A pergunta que passa a orientar chancelerias e generais é se as condições colocadas hoje serão o embrião de um acordo ou apenas mais um capítulo de uma crise que ainda não encontra limite claro.
