Esportes

Presidente do Flamengo cobra punição a SAFs e cita dívida do Botafogo

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, critica publicamente a gestão da SAF do Botafogo e cobra punições esportivas e financeiras para clubes-empresa que aumentam dívidas. A declaração é dada em 12 de fevereiro de 2026, em entrevista ao jornal espanhol “As”, e reacende o debate sobre a regulação das sociedades anônimas do futebol no Brasil.

Bap mira Botafogo e questiona modelo de SAF no país

A conversa com o diário espanhol começa com uma defesa do modelo associativo do Flamengo, que em 2024 registra novo superávit e amplia a receita anual. Bap afirma que o clube não pretende se transformar em empresa e usa o exemplo do Real Madrid para reforçar o argumento. Em seguida, desloca o foco para o Botafogo e para o que vê como distorção do conceito de SAF.

“Não tenho absolutamente nada contra as SAFs. Nada”, diz o dirigente, antes de detalhar o que considera o princípio básico do formato. “Você tem um clube de futebol que não tem condições de arcar com suas dívidas, um clube praticamente falido do ponto de vista da gestão, e alguém decide assumir a direção. Assume as dívidas e faz novos investimentos. Esse é o princípio. Sou absolutamente a favor disso.”

O tom muda quando ele menciona o Botafogo de John Textor. O clube se torna SAF em 2022 e, dois anos depois, vive o auge esportivo: conquista o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores em 2024, acumulando premiações milionárias e aumento de receitas de transmissão, bilheteria e patrocínio. Mesmo assim, segundo Bap, o endividamento não diminui.

“O que não pode acontecer é o que estamos vendo com um clube centenário como o Botafogo”, afirma. “Você cria uma SAF, permite que alguém compre o clube, e ele acaba ficando pior do que estava. O Botafogo devia, acredito eu, 100 milhões de euros. Alguém compra o clube. Foram campeões do Brasileirão e da Libertadores em 2024. Recebem milhões, não pagam nada a ninguém e ainda aumentam a dívida anterior.”

O dirigente cita valores para ilustrar o que considera um desequilíbrio crescente. Fala em uma dívida que, segundo ele, salta de 80 milhões para 160 milhões de euros, sem que credores vejam alívio significativo. “Você comprou o clube com uma dívida de 80 milhões, assumiu que iria quitá-la, aumenta a dívida para 160 milhões, não paga ninguém e não sofre nenhuma punição esportiva ou financeira. Isso está errado”, protesta.

Fragilidade na regulação expõe risco de desequilíbrio

As críticas de Bap atingem um ponto sensível do futebol brasileiro em 2026. Desde a sanção da Lei da SAF, em 2021, mais de uma dezena de clubes adere ao modelo, em busca de alívio para passivos que, em alguns casos, ultrapassam R$ 1 bilhão. A legislação cria um regime específico de recuperação e prevê mecanismos para pagamento de credores em prazos que podem chegar a dez anos, com descontos relevantes.

Na prática, a combinação de benefícios fiscais, blindagem parcial do patrimônio e pouca fiscalização alimenta apreensão entre rivais e especialistas em direito esportivo. Bap vocaliza esse incômodo ao defender regras mais duras para quem não entrega o que promete no ato da compra. “É preciso haver regulação”, afirma. “Se alguém chega com muito dinheiro e usa esse dinheiro apenas para contratar jogadores, sem cumprir nenhuma de suas obrigações, qual é o propósito? Houve uma distorção do conceito de SAF.”

O dirigente insiste que o Flamengo não se opõe ao modelo em si, mas à ausência de contrapartidas claras quando a gestão falha. “O Flamengo é contra esse tipo de situação sem que haja punição. Tem que haver punição esportiva, tem que haver perda de pontos”, defende, ao relacionar desempenho em campo e responsabilidade financeira.

O caso do Botafogo aparece, para ele, como exemplo extremo. Um clube que, mesmo com aumento de receita após dois títulos continentais e nacionais em 2024, veria o passivo crescer em vez de encolher. O contraste entre a imagem vitoriosa levantando taças e o balanço carregado de dívidas alimenta o debate sobre qual tipo de gestão o modelo de SAF está estimulando no país.

Entre credores, a preocupação é direta. Se a empresa que assume o futebol usa a maior parte do caixa para montar elencos caros, sem prioridade para pagamento de débitos antigos, o risco de calote aumenta. Entre torcedores, o medo é outro: um eventual fracasso da SAF, combinado com punições futuras, pode empurrar o clube de volta a uma crise esportiva profunda, mesmo após anos de bons resultados em campo.

Pressão por mudança na lei e no cálculo do risco

A entrevista de Bap alcança Brasília e a CBF em um momento em que o tema já está na pauta. Parlamentares discutem ajustes na Lei da SAF para limitar o prazo de pagamento de dívidas trabalhistas e fiscais e para endurecer a responsabilização de gestores que descumprem os planos de recuperação. Dirigentes de federações e da própria CBF avaliam incluir critérios financeiros nos regulamentos de competição, como pré-requisito para inscrição em torneios ou manutenção de licenças.

O dirigente rubro-negro antecipa esse movimento e defende punições esportivas claras, como perda de pontos ou até rebaixamento, para quem descumpre metas financeiras por mais de uma temporada. A tese é que clubes que alimentam dívidas, mas seguem investindo pesado para brigar por títulos, distorcem a competitividade. Na prática, podem montar elencos mais fortes justamente porque não pagam o que devem.

Investidores que observam o mercado brasileiro acompanham o debate com atenção. Um ambiente regulatório mais rígido tende a reduzir margens de manobra, mas também pode aumentar a previsibilidade jurídica e proteger o valor de longo prazo dos ativos. Para quem coloca dezenas ou centenas de milhões de reais em um clube, a regra do jogo importa tanto quanto a bola rolando.

No curto prazo, as palavras de Bap elevam a temperatura entre Flamengo e Botafogo, dois rivais históricos do Rio de Janeiro, e pressionam a SAF alvinegra a explicar seus números com mais transparência. No médio prazo, o impacto mais profundo pode estar na forma como o país decide equilibrar paixão, negócio e responsabilidade em um mercado que movimenta bilhões de reais por temporada.

Enquanto a legislação não muda e eventuais sanções não saem do papel, permanece a pergunta que encerra o desabafo do dirigente rubro-negro: até onde um clube-empresa pode ir aumentando sua dívida, mesmo campeão, sem pagar o preço dentro de campo?

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