Premiê dinamarquesa visita Groenlândia em meio a pressão de Trump
A primeira-ministra da Dinamarca visita a Groenlândia nesta sexta-feira (23), em 23 de janeiro de 2026, em meio a novas ameaças do presidente Donald Trump sobre o controle da ilha ártica. A viagem, articulada após reuniões com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, e outros líderes europeus, transforma um território de 56 mil habitantes no mais recente palco de disputa de poder entre Washington e aliados europeus.
Groenlândia deixa periferia e entra no centro da disputa
A passagem da chefe de governo por Nuuk, capital groenlandesa, ocorre enquanto o governo Trump volta a sugerir, em declarações públicas e reservadas, que os Estados Unidos deveriam assumir o comando estratégico da ilha. A Casa Branca insiste que a região é “vital” para a segurança norte-americana, especialmente diante da crescente presença russa e chinesa no Ártico, e pressiona Copenhague a rever acordos de defesa e exploração de recursos.
A resposta dinamarquesa vem em forma de gesto político calculado. Ao desembarcar na maior ilha do planeta, com 2,1 milhões de km² e cerca de 80% do território coberto por gelo, a primeira-ministra sinaliza que a soberania sobre a Groenlândia não está em negociação. Assessores em Copenhague descrevem a viagem como uma “demonstração inequívoca” de que qualquer discussão sobre o futuro da ilha passa antes pelos groenlandeses e pelo Parlamento dinamarquês.
A visita é preparada há semanas nos bastidores diplomáticos europeus. Em Bruxelas, a primeira-ministra se encontra com Mark Rutte e líderes de ao menos cinco países da OTAN para discutir rotas aéreas, bases militares e monitoramento do espaço ártico. Um diplomata europeu resume o clima das reuniões: “Nenhum aliado considera razoável abrir mão de um território que é, ao mesmo tempo, casa de um povo e ponto-chave da defesa coletiva”.
O movimento ecoa um embate que se arrasta desde 2019, quando Trump sugeriu pela primeira vez a compra da Groenlândia, então tratada como ideia excêntrica em Washington e em Copenhague. Seis anos depois, o governo norte-americano abandona a linguagem da “aquisição” e passa a falar em “responsabilidade estratégica”, mas o recado é o mesmo: os EUA querem maior controle sobre radares, portos, aeroportos e futuras rotas marítimas abertas pelo derretimento do gelo.
Riquezas, bases e clima aquecem o tabuleiro ártico
O interesse renovado não se explica apenas pela geografia. A Groenlândia concentra reservas estimadas de minerais estratégicos, como terras raras, zinco e urânio, além de potenciais jazidas de petróleo e gás ainda pouco exploradas. Estudos citados por diplomatas europeus estimam que até 13% das reservas não descobertas de petróleo do planeta possam estar no Ártico, em diferentes zonas.
Os EUA já mantêm, desde a Segunda Guerra Mundial, a base aérea de Thule, a cerca de 1,5 mil km do Pólo Norte, integrada ao sistema de alerta antecipado de mísseis balísticos. Com o aquecimento global acelerando o derretimento da camada de gelo – a Groenlândia perde em média mais de 250 bilhões de toneladas de gelo por ano na última década, segundo medições internacionais – a região se torna também um corredor potencial para novas rotas comerciais entre a Ásia, a Europa e a América do Norte.
O governo dinamarquês vê risco de que uma escalada retórica de Washington desencadeie uma corrida por presença militar e contratos de mineração sem o devido controle ambiental. Em conversas reservadas relatadas por fontes europeias, a primeira-ministra insiste que qualquer decisão sobre exploração de recursos levará em conta não só a viabilidade econômica, mas também o impacto para as comunidades inuit, que representam cerca de 90% da população local.
Analistas ouvidos por centros de estudo na Europa descrevem a viagem como um recado duplo. “É mensagem para Trump e para Moscou”, diz um pesquisador especializado em segurança ártica. “Para os Estados Unidos, o aviso é que a Dinamarca não aceitará ser atropelada. Para a Rússia, o lembrete é que a OTAN acompanha cada movimento na região”.
Diplomatas canadenses também acompanham de perto o desenrolar da crise. O Canadá, que compartilha com a Dinamarca disputas antigas sobre pequenas ilhas no Ártico e divide com os EUA a defesa do Atlântico Norte, teme que qualquer mudança abrupta no status da Groenlândia reabra contestações de fronteira congeladas há décadas. A avaliação em Ottawa é que uma solução negociada, em fóruns multilaterais, é preferível a acordos bilaterais fechados nos bastidores.
Pressão por acordos, reforço militar e teste às alianças
Nos próximos meses, a visita tende a se traduzir em medidas concretas. Técnicos dinamarqueses e groenlandeses já discutem a ampliação de instalações aeroportuárias em ao menos duas cidades e a modernização de radares de vigilância. Fontes ligadas à OTAN falam em planos para elevar a cooperação no Ártico até 2030, com exercícios conjuntos mais frequentes e presença rotativa de navios europeus em águas geladas.
A movimentação aumenta a pressão sobre Washington. Qualquer tentativa dos EUA de impor maior controle sem negociações amplas pode encontrar resistência não só em Copenhague, mas também em capitais como Ottawa, Berlim e Paris. A possibilidade de sanções econômicas, revisão de contratos de defesa e até questionamentos em organismos internacionais entra no radar, ainda que como último recurso.
As consequências alcançam também o debate climático. Organizações ambientais veem na disputa por influência o risco de flexibilização de regras de proteção em nome de ganhos rápidos. Para essas entidades, um acordo que estimule mineração acelerada e novas rotas marítimas sem limites claros pode comprometer metas globais de redução de emissões nesta década, já consideradas insuficientes pelos cientistas do clima.
Governos europeus tentam equilibrar interesses. A Dinamarca sabe que precisa de investimentos estrangeiros para desenvolver a infraestrutura da Groenlândia, onde muitas comunidades ainda dependem de subsídios públicos. Ao mesmo tempo, enfrenta pressão interna para garantir que qualquer parceria respeite a autonomia local e não transforme a ilha em mero posto avançado de potências externas.
O desfecho desse impasse vai além da relação bilateral entre Copenhague e Washington. A forma como Dinamarca, EUA, Canadá e demais aliados da OTAN lidarem com a disputa pela Groenlândia servirá de teste para a capacidade de administrar, de forma coletiva, um dos tabuleiros geopolíticos mais sensíveis do século. Na prática, a pergunta que fica é se o Ártico será tratado como bem comum a ser protegido ou como prêmio a ser repartido entre poucos.
