Prefeito de Milão rejeita ICE na segurança dos Jogos de Inverno de 2026
O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, afirma nesta terça-feira (27) que agentes do ICE, órgão de imigração dos Estados Unidos, “não são bem-vindos” nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026. Em evento oficial da preparação do torneio, ele classifica a agência americana como “milícia que mata” e expõe uma fissura diplomática às vésperas da fase decisiva de planejamento de segurança.
Milão tensiona segurança dos Jogos às vésperas de 2026
A frase do prefeito, dita em Milão diante de dirigentes esportivos, autoridades locais e representantes do comitê organizador, atinge diretamente o arranjo de segurança da Olimpíada de Inverno. Sala reage à confirmação, feita nos últimos dias, de que a Immigration and Customs Enforcement, vinculada ao Departamento de Segurança Interna dos EUA, integra o desenho de cooperação internacional previsto para o evento.
O ICE acumula, há mais de uma década, denúncias de abusos em operações de deportação e em centros de detenção de imigrantes. Em países europeus, organizações de direitos humanos associam a agência à prática de detenções arbitrárias, uso excessivo da força e mortes em ações de campo e em custódia. Quando o prefeito de Milão fala em “milícia que mata”, ele vocaliza essa memória recente e a traz para o centro do debate sobre como proteger atletas e torcedores em 2026.
A fala ocorre a pouco mais de dois anos da abertura dos Jogos, marcada para fevereiro de 2026, e em um momento em que o comitê organizador discute, com Roma e com parceiros estrangeiros, protocolos de vigilância, controle de fronteiras e resposta a ameaças terroristas. A inclusão do ICE nesse pacote é tratada, nos bastidores, como um passo para ampliar a troca de dados e o monitoramento de viajantes de alto risco, sobretudo em rotas transatlânticas.
Ao optar por confrontar publicamente essa parceria, Sala desloca o debate para outro eixo. Em vez de apenas discutir eficiência operacional, ele coloca em questão o custo político e moral de associar a imagem da Olimpíada a uma polícia migratória que se torna símbolo de políticas de deportação em massa durante o governo Donald Trump. O prefeito tenta reforçar a ideia de que o evento, dividido entre Milão e Cortina d’Ampezzo, deve se afastar de práticas que, em sua avaliação, violam direitos fundamentais.
Direitos humanos entram na arena olímpica
A crítica de Sala não se dirige apenas a Washington. Ela atinge também Roma e o próprio Comitê Olímpico Internacional, que tradicionalmente defende a neutralidade política dos Jogos. Ao chamar o ICE de “milícia que mata”, o prefeito atribui um rótulo extremo a uma agência de Estado parceira de governos europeus no controle migratório, e pressiona autoridades italianas a explicar por que aceitaram sua participação na segurança de um megaevento esportivo.
A Itália depende de cooperação externa para monitorar fluxos de pessoas em grandes eventos desde os Jogos Olímpicos de Inverno de Turim, em 2006, quando reforça acordos com Estados Unidos e países da União Europeia. De lá para cá, crises sucessivas de refugiados e ataques terroristas em solo europeu levam governos a endurecer controles, investir em sistemas de reconhecimento e ampliar o compartilhamento de dados. Nesse cenário, a presença do ICE é vista, por setores da segurança, como um ativo técnico.
O discurso do prefeito, porém, reflete uma mudança de humor. Nos últimos anos, pesquisas na Europa indicam maior preocupação com violações de direitos humanos em operações migratórias e com a militarização de fronteiras. Em 2025, um levantamento de uma ONG italiana aponta que mais de 60% dos entrevistados consideram “excessiva” a violência em ações contra imigrantes irregulares no Mediterrâneo e em solo europeu. Ao ecoar esse sentimento, Sala fala para além do eleitorado local e tenta dialogar com uma opinião pública global que acompanha as Olimpíadas.
Diplomatas em Roma admitem, em caráter reservado, que a declaração tende a produzir fricções com Washington, sobretudo porque o ICE é parte de uma estratégia americana de projetar influência em temas de segurança em eventos internacionais. Um ajuste discreto de protagonismo, com maior visibilidade para forças italianas e europeias e atuação mais técnica e discreta da agência americana, é visto como uma saída possível para reduzir o atrito sem desmontar o acordo já em curso.
Organizações de defesa dos direitos dos migrantes se movimentam para capitalizar o episódio. Entidades que atuam em Milão e no norte da Itália planejam atos públicos ainda neste primeiro semestre de 2026, com foco nos contratos de segurança assinados pelo comitê organizador e pelo governo italiano. A perspectiva é de que a Olimpíada de Inverno se transforme, também, em palco de protestos contra políticas migratórias consideradas abusivas, reproduzindo um padrão visto em outras edições de grandes eventos esportivos.
Risco de protestos e renegociação da segurança
O impacto mais imediato da fala de Sala recai sobre a mesa de negociações entre prefeitura, governo central e organizadores dos Jogos. A montagem do esquema de segurança entra em fase crítica nos próximos 12 meses, período em que precisam ser definidos efetivos, responsabilidades e protocolos conjuntos. Qualquer revisão de acordos com parceiros estrangeiros, como o ICE, pode atrasar cronogramas, pressionar orçamentos e exigir novas compensações políticas.
Especialistas em grandes eventos lembram que a imagem de um torneio é tão sensível à percepção de insegurança quanto à associação com violações de direitos humanos. A presença ostensiva de agentes de uma agência estrangeira com reputação controversa pode afugentar parte do público, mas a ausência de cooperação, se resultar em falhas de proteção, também terá custo alto. A decisão, no fim, envolve calibrar risco político, reputacional e operacional diante de uma audiência estimada em bilhões de espectadores em fevereiro de 2026.
No plano internacional, a reação de Milão pode encorajar outras cidades-sede a reavaliar o tipo de parceria que aceitam na área de segurança. Governos locais na Europa já discutem, há pelo menos cinco anos, formas de reduzir a dependência de estruturas de inteligência americanas em nome de maior autonomia e de uma narrativa própria sobre proteção de dados e garantias individuais. Um confronto aberto com Washington em plena preparação olímpica, porém, tende a testar esses limites.
Nos próximos meses, a atenção se volta à resposta oficial dos governos italiano e americano. Uma nota mais dura de Washington, defendendo o ICE, pode inflamar o discurso de Sala e reforçar críticas de movimentos sociais. Um tom conciliador, com ênfase em revisão de protocolos e transparência, abre espaço para um acordo que permita a manutenção da cooperação, mas sob maior escrutínio público.
Os Jogos de Inverno de 2026, que deveriam projetar a Lombardia como vitrine de eficiência e inovação, entram na reta final de planejamento sob uma sombra incômoda. A pergunta que se impõe, a partir de agora, é se a Olimpíada conseguirá encontrar um modelo de segurança capaz de proteger atletas e torcedores sem repetir, em solo italiano, a lógica de uma guerra silenciosa contra migrantes que já cobra vidas em outras fronteiras.
