Ciencia e Tecnologia

Post no Instagram usa dado falso do Google sobre violência contra mulheres

Um post do perfil Planeta Ella no Instagram viraliza em 2026 ao afirmar que a pergunta “como matar uma mulher sem deixar rastros” foi feita 163 milhões de vezes no Google em 2025 no Brasil, com base em dados atribuídos ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A informação é falsa, não aparece em nenhum relatório da entidade e é desmentida também pelo Google.

Alarme em meio a recorde de feminicídios

O card, publicado com letras brancas sobre fundo vermelho, circula em perfis pessoais e páginas voltadas a pautas feministas. O número de 163 milhões de buscas, apresentado como se fosse dado oficial, cai em um momento de forte comoção com a violência de gênero no país.

Em 2025, o Brasil registra 1.530 feminicídios, segundo o Ministério da Justiça. A média é de 4,2 mulheres assassinadas por dia em razão de gênero, o maior patamar da série histórica. Nesta semana, os chefes dos três Poderes anunciam um pacto nacional contra o feminicídio, em Brasília, para tentar conter os crimes.

O cenário real é dramático, mas o número divulgado no Instagram não existe em nenhuma base pública. A postagem atribui a suposta estatística ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O último anuário, lançado em junho do ano passado, não traz qualquer dado sobre buscas no Google.

Na própria área de comentários do Instagram, o Fórum tenta conter a desinformação. “Achamos importante pontuar que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública não produziu dados a partir de pesquisas no Google para o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e que desconhecemos a fonte dessa informação”, escreve a entidade.

Em nota enviada à reportagem, o Fórum informa já ter procurado o perfil Planeta Ella para pedir a correção ou a remoção do post. Até agora, não recebe resposta. O conteúdo segue no ar e continua a ser compartilhado.

O que o Google mede e o erro que cruza fronteiras

O Google não confirma nem sequer produz o tipo de dado usado na montagem. A empresa afirma, por meio de sua assessoria, que “as publicações que atribuem dados de buscas relativas à violência de gênero não se baseiam em dados do Google”. A companhia explica que não divulga o número bruto de pesquisas para termos específicos.

A única ferramenta pública disponível é o Google Trends, que mostra apenas índices relativos de interesse por determinadas palavras ou frases ao longo do tempo. O serviço não revela quantas vezes um termo foi buscado, nem permite chegar a números absolutos como “163 milhões de buscas”.

O número que agora assusta usuários brasileiros nasce de um equívoco acadêmico ocorrido anos antes e em outro país. Em janeiro de 2021, a pesquisadora canadense Katerina Standish, então na Universidade de Otago, publica um artigo no Journal of General Psychology. O estudo tenta avaliar se a pandemia de Covid-19 aumenta a violência doméstica e as taxas de suicídio a partir de tendências de busca no Google nos Estados Unidos.

Standish usa frases que indicam ameaças ou violência, como perguntas sobre como agredir uma mulher sem ser descoberto ou declarações de intenção de matá-la. Ao descrever os resultados, a pesquisadora escreve que a expressão “Como bater em uma mulher sem que ninguém perceba” teria sido pesquisada 163 milhões de vezes, 31% a mais do que em 2019. Outro exemplo aparece no artigo: a frase “Vou matá-la quando ela chegar em casa” teria 178 milhões de buscas, um aumento de 39% em relação ao ano anterior.

O erro técnico está na leitura desses números. Pesquisadores em ciência de dados e especialistas em web apontam que Standish confunde duas coisas diferentes: o total de resultados exibidos para uma busca, que aparece na parte superior da página do Google, e o número de vezes que uma pergunta foi feita pelos usuários, um dado que não é público.

Depois da publicação, veículos internacionais dão visibilidade às conclusões. Em abril de 2021, a rede americana MSNBC noticia o estudo. Em maio, sites franceses reproduzem os números e sugerem que se tratam de buscas feitas por usuários da França. A estatística, já errada na origem, cruza fronteiras e se adapta a diferentes contextos nacionais.

Com a repercussão negativa, Standish revê o próprio trabalho. Em seu perfil no Twitter, a pesquisadora admite a falha metodológica e diz ter procurado o periódico científico para corrigir o artigo. “Eu agora reconheço que os resultados do meu estudo são falhos. Eu procurei o Journal para discutir imprecisões e deficiências”, escreve. Em outra mensagem, afirma que “pesquisadores da web detalharam convincentemente que, a despeito das melhores intenções, o método que eu utilizei, e por conseguinte meus resultados, são imprecisos”.

Pouco depois, o site Snopes, referência em checagem de fatos nos Estados Unidos, rotula como falsas as postagens que repetem o número de 163 milhões de buscas no Google relacionadas a violência contra mulheres. O caso passa a ser citado em cursos e debates sobre desinformação.

Desinformação em meio à violência real

O post do Planeta Ella insere o dado distorcido no contexto brasileiro e troca peças importantes da história. A postagem sugere que as supostas 163 milhões de buscas ocorrem no Brasil, em 2025, e que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública mede esse comportamento com base em dados do Google. Nenhuma dessas afirmações é verdadeira.

A coluna tenta contato com o perfil pelo Instagram e não obtém retorno até a publicação deste texto. O espaço permanece aberto para manifestação. Enquanto isso, a postagem soma milhares de curtidas e comentários, muitos de indignação, outros de medo.

Especialistas em segurança pública e em políticas de gênero alertam que esse tipo de distorção tem efeitos concretos. Ao exagerar ou inventar estatísticas, a desinformação mistura pânico com descrédito nas instituições responsáveis por produzir dados oficiais. Quando o público descobre que um número é falso, pode passar a duvidar também dos indicadores reais de feminicídio, agressão e ameaças.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública constrói, desde 2007, uma base de dados que se torna referência na área e alimenta pesquisas acadêmicas, relatórios internacionais e decisões de governo. O Anuário, publicado anualmente, reúne registros de homicídios, estupros, violência doméstica, prisões e orçamento em segurança. A credibilidade do documento depende da separação clara entre o que é dado checado e o que é percepção ou opinião.

A circulação de números inexistentes embaralha esse limite. Se compartilhadas em massa, estatísticas erradas podem pressionar autoridades a se posicionar sobre fenômenos que nunca foram medidos, enquanto problemas reais seguem com menos atenção e recursos. Também alimentam teorias conspiratórias sobre supostos dados “escondidos” pelas instituições.

Pressão por checagem e o que vem pela frente

O episódio reforça a disputa por credibilidade em torno da violência de gênero no Brasil. Em um país que registra mais de quatro feminicídios por dia e avança lentamente em políticas de prevenção, cada dado divulgado em redes sociais influencia o debate público e a sensação de segurança das mulheres.

É improvável que o fluxo de desinformação diminua em ano de forte mobilização política e institucional contra o feminicídio. A aposta de entidades como o Fórum é que a checagem rápida e transparente de conteúdos virais reduza o espaço para boatos. O Google, por sua vez, tenta limitar interpretações equivocadas sobre o que suas ferramentas mostram e reforça que dados absolutos de busca não são abertos.

Perfis que se propõem a falar em nome das mulheres passam a ser cobrados por rigor semelhante ao de veículos jornalísticos e organizações de pesquisa. Sem esse cuidado, a indignação legítima com a violência corre o risco de ser usada como combustível para números que nunca existiram.

A próxima disputa se dá justamente nesse terreno: quem define o que é fato em um ambiente onde qualquer card pode parecer oficial. A resposta, cada vez mais, depende de quem está do outro lado da tela disposto a perguntar de onde vêm os números que vê.

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