Polícia identifica autores de pichações no Allianz, e Palmeiras vai à Justiça
A Polícia Civil de São Paulo identifica quatro autores das pichações nos muros do Allianz Parque, ocorridas após a goleada de 4 a 0 para o Novorizontino. O Palmeiras e a presidente Leila Pereira decidem acionar judicialmente os envolvidos por dano ao patrimônio, calúnia e difamação.
Vandalismo após goleada acirra clima de tensão
Os muros do Allianz Parque amanhecem pichados nesta quarta-feira, um dia depois da derrota por 4 a 0 para o Novorizontino, em jogo do Campeonato Paulista. As frases atacam o técnico Abel Ferreira e miram diretamente a presidente do clube, em um momento de forte cobrança da torcida organizada.
Nas paredes da bilheteria da Rua Palestra Itália, aparecem textos como “Abel, acabou a magia?” e “Leila, seu negócio é roubar”. As imagens circulam rapidamente nas redes sociais, ampliam o desgaste após a goleada e pressionam a diretoria a reagir não só no futebol, mas também no campo jurídico.
O episódio registra mais um capítulo da escalada de hostilidade que cerca o Palmeiras em partidas recentes. O clube, que acumula títulos importantes desde 2015, convive com cobrança intensa sempre que sofre derrotas expressivas, especialmente em casa. Desta vez, a fronteira entre crítica e crime se rompe nos muros do estádio.
Investigação rápida e histórico de violência
Logo após o aparecimento das pichações, o Palmeiras registra um Boletim de Ocorrência e aciona a Drade, delegacia especializada em delitos ligados ao esporte. A investigação avança em ritmo acelerado, com uso de imagens de câmeras de segurança, relatos de testemunhas e cruzamento de dados internos das organizadas.
Em poucos dias, a Polícia Civil identifica quatro suspeitos: Paulo Sérgio Goes de Oliveira, Murilo Landim Baldi, Murylo Mikael Santos e Deivison Correia Carvalho. Um quinto participante ainda não é localizado e segue na mira dos investigadores, que mantêm as diligências em andamento.
Entre os apontados pela polícia, Deivison chama atenção pelo histórico de episódios violentos ligados a torcidas organizadas. Ele já foi preso e aparece em relatos de confrontos envolvendo uniformizadas. Em 2022, participa de um episódio em que integrantes da Máfia Azul, do Cruzeiro, sofrem emboscada na rodovia Fernão Dias, em ação atribuída a membros da Mancha Verde, principal organizada palmeirense.
O perfil dos suspeitos reforça a preocupação de autoridades com a profissionalização da violência ligada ao futebol. Integrantes de torcidas passam a transitar por diferentes estados, articulando encontros e confrontos que extrapolam a arquibancada e atingem espaços públicos como rodovias, estações e arredores de estádios.
Reação na Justiça e impacto para torcedores
O Palmeiras decide acionar judicialmente os quatro identificados com base no artigo que tipifica o crime de “pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano”. A pena pode chegar a um ano de detenção, além de multa, e costuma vir acompanhada de obrigação de reparação do dano material.
Leila Pereira opta por uma segunda frente. Alvo direto das ofensas, a dirigente prepara ações por calúnia e difamação, que atacam o conteúdo das frases pintadas no muro. Ao qualificar a presidente como ladra, os autores atribuem crime sem prova e ferem sua honra pessoal, o que abre espaço para indenizações por dano moral.
A reação envia recado claro ao entorno do clube. A mensagem é de que a diretoria está disposta a separar crítica legítima, seja nas arquibancadas, seja nas redes sociais, de manifestações que transbordam para o crime. A estratégia busca conter uma escalada que mistura frustração esportiva, rivalidade entre organizadas e disputas políticas internas.
A ofensiva judicial também impacta o dia a dia dos torcedores organizados. Identificados pela polícia, os quatro suspeitos podem ser alvo de medidas como proibição de frequentar estádios, necessidade de comparecer a delegacias em dias de jogos e bloqueio de cadastro em programas de sócio-torcedor. Na prática, o alcance da punição supera o valor dos muros pichados.
Pressão sobre clubes e debate sobre limites
O caso reacende a discussão sobre até onde vai a responsabilidade de clubes e autoridades na contenção da violência ligada ao futebol. A existência de uma delegacia especializada e o rápido desfecho da investigação criam parâmetro para outros episódios recentes de vandalismo contra centros de treinamento, ônibus de delegações e sedes sociais.
Dirigentes de outros clubes acompanham o desdobramento com atenção. Uma condenação exemplar, aliada a punições administrativas internas, pode estimular políticas comuns entre rivais, como cadastro único de torcedores banidos, troca sistemática de informações com a polícia e restrição de faixas de organizadas em caso de reincidência.
No curto prazo, o Palmeiras tenta reconstruir a relação com a torcida em meio à turbulência. O desempenho em campo passa a caminhar em paralelo às disputas jurídicas, e cada resultado ganha peso político adicional. A presidente, que investe alto em elenco e estrutura, encara mais uma frente de desgaste público ao levar o conflito para o tribunal.
A busca pelo quinto suspeito ainda em aberto mantém o caso vivo nas próximas semanas. A forma como o Judiciário vai tratar os processos por dano ao patrimônio, calúnia e difamação indicará se o episódio ficará restrito a um ato de vandalismo após uma goleada ou se marcará um ponto de inflexão na forma como o futebol brasileiro lida com o limite entre paixão, protesto e crime.
