Polícia faz operação contra venda ilegal de camarotes no Morumbis
Diretores licenciados do São Paulo se tornam alvo de operação da Polícia Civil por venda ilegal de camarotes no Morumbis na manhã desta quarta (21). Quatro mandados de busca e apreensão são cumpridos em investigação que expõe bastidores de um esquema chamado pelos próprios envolvidos de “clandestino”.
Operação entra no coração do Morumbi
O dia começa com viaturas da Polícia Civil circulando pelos arredores do estádio do Morumbis, na zona oeste de São Paulo. A 3ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração, ligada ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), deflagra a operação por volta das primeiras horas da manhã e mira um núcleo sensível do clube.
Entre os alvos estão Mara Casares, ex-mulher do presidente afastado Julio Casares, e Douglas Schwartzmann, diretor adjunto de futebol de base. Ambos estão licenciados dos cargos, mas seguem formalmente ligados ao São Paulo. A Secretaria de Segurança Pública confirma o cumprimento de quatro mandados de busca e apreensão contra três investigados, todos relacionados a um esquema de venda irregular de camarotes em shows no estádio.
A investigação nasce em dezembro, no 34º Distrito Policial, no Morumbi, depois de denúncias sobre a comercialização de um camarote fora dos canais oficiais do clube. O inquérito logo segue para o DPPC, responsável por outros casos envolvendo o São Paulo, e passa a reunir documentos, mensagens e gravações de áudio.
Esses áudios, revelados pelo GE em 15 de dezembro, se tornam o ponto de virada do caso. Nas gravações, Mara e Douglas se referem ao espaço como camarote “clandestino” e tentam, ao longo de cerca de 40 minutos, convencer a compradora a recuar de uma ação judicial.
Áudios, pressão e risco à imagem do clube
O foco do inquérito sobre coação é uma ligação para Adriana Prado, responsável pela aquisição do camarote investigado. Ela move um processo contra uma terceira pessoa, acusada de ter sublocado o espaço de forma irregular. Ao telefone, Mara e Douglas pressionam para que a ação seja retirada. O teor da conversa, descrita pela polícia como tentativa de interferência em um processo judicial, acende o alerta sobre a atuação de dirigentes fora dos limites institucionais do clube.
Os áudios mostram que os próprios dirigentes reconhecem a natureza irregular do negócio. Ao usar o termo “clandestino” para descrever o camarote, eles apontam para um circuito de comercialização paralelo ao sistema oficial de venda de espaços corporativos no Morumbis, hoje uma das principais fontes de receita em dias de jogos e shows. O São Paulo explora mais de uma centena de camarotes no estádio, com contratos que podem chegar a dezenas de milhares de reais por temporada, e enfrenta fila de espera para determinados setores.
A operação amplia um desgaste que o clube carrega desde o fim de 2024, quando vieram à tona as primeiras acusações sobre irregularidades na gestão de espaços corporativos. Dirigentes admitem, nos bastidores, preocupação com o efeito em patrocinadores e parceiros comerciais, que costumam associar sua marca a programas de hospitalidade em jogos e eventos. A diretoria tenta, ao mesmo tempo, blindar o elenco e evitar que o noticiário policial contamine o ambiente esportivo em uma temporada que começa.
O caso rende também uma investigação interna. O São Paulo abre sindicância para apurar a conduta de Mara, Douglas e outros dirigentes eventualmente citados. A apuração corre em paralelo à investigação criminal e pode resultar em afastamentos definitivos, punições no conselho e mudanças na gestão dos camarotes e da área de eventos. Conselheiros veem no episódio um teste para a capacidade do clube de impor regras claras a dirigentes historicamente influentes.
Consequências dentro e fora do estádio
A ofensiva da Polícia Civil expõe mais do que um camarote negociado por fora. A investigação levanta a suspeita de um esquema estruturado de venda ilegal para shows de grande porte, que movimentam milhares de pessoas e receitas milionárias em poucos dias. Em 2025, o Morumbis recebe uma sequência de apresentações internacionais com ingressos esgotados, e camarotes oficiais podem custar dezenas de milhares de reais por noite para grupos e empresas.
Se a polícia comprova a existência de um circuito paralelo, o clube corre o risco de responder por falhas de controle e possíveis prejuízos fiscais. Dirigentes envolvidos podem enfrentar acusações de crimes contra a administração, coação no curso do processo e eventuais delitos tributários. Internamente, as consequências passam por cassação de mandatos, inelegibilidade para cargos futuros e perda de espaço político em um conselho historicamente fragmentado.
Torcedores reagem nas redes sociais e em grupos de conselheiros com preocupação e cansaço. A sucessão de denúncias, que se soma a disputas políticas recentes e à pressão por resultados em campo, alimenta a sensação de que o clube vive uma crise de governança. A venda de camarotes, apontada há anos como motor de modernização financeira, aparece agora como ponto vulnerável da administração.
As negociações futuras para camarotes em jogos e shows entram em zona de atenção. Empresas e intermediários monitoram o desfecho do caso antes de firmar novos contratos de longo prazo. A clareza nas regras de comercialização, a transparência nos preços e a fiscalização sobre intermediários tendem a se tornar exigências centrais de quem investe em hospitalidade no Morumbis.
Próximos passos e dúvidas em aberto
As buscas desta quarta funcionam como etapa de coleta de provas. Policiais apreendem celulares, computadores e documentos que podem detalhar valores, frequência das negociações e alcance do suposto esquema. Os investigadores passam a cruzar as informações com dados fiscais, registros internos do clube e contratos oficiais de camarotes.
A sindicância aberta pelo São Paulo caminha em paralelo, mas sofre pressão por respostas rápidas e transparentes. Conselheiros cobram prazos objetivos e divulgação de conclusões, ainda que parciais, para tentar conter o desgaste da marca. A diretoria promete colaboração total com as autoridades, mas evita comentar detalhes enquanto o inquérito segue em sigilo.
A operação de hoje não encerra o caso. O material apreendido pode ampliar o número de investigados e alcançar outros níveis da estrutura interna do clube, a depender do que surgir nas análises. No centro do gramado político e financeiro do São Paulo, uma pergunta permanece sem resposta: até onde vai a rede de interesses que transformou camarotes em um negócio clandestino dentro de um dos estádios mais tradicionais do país?
