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Polícia faz buscas em casas ligadas a caso de camarotes no Morumbi

A Polícia Civil cumpre na manhã desta quarta-feira (21) mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao São Paulo Futebol Clube, em São Paulo. A ação mira a investigação sobre a venda ilegal de camarotes no Morumbi e atinge a ex-mulher do presidente afastado do clube, Julio Casares, e um dirigente das categorias de base.

Operação mira ex-mulher de Casares e dirigente da base

Os mandados são cumpridos nas residências de Mara Casares, ex-esposa de Julio Casares, e de Douglas Schwartzmann, dirigente das categorias de base do São Paulo. As buscas fazem parte de um inquérito que apura um esquema clandestino de comercialização de camarotes em jogos e shows no estádio do Morumbi, revelado no ano passado por áudios divulgados pelo site GE.

Na casa de Mara, policiais apreendem R$ 20 mil em espécie, documentos e um computador. O material é recolhido para perícia e deve ser cruzado com dados bancários e registros internos do clube. Em outro ponto da cidade, as equipes vão ao endereço de Schwartzmann, que está em viagem ao exterior, e são recebidas pelo filho do dirigente, segundo relato de pessoas presentes à diligência.

A investigação corre sob supervisão do promotor de Justiça José Reinaldo Carneiro Guimarães, do Ministério Público de São Paulo. Em entrevista ao G1, ele classifica o resultado da operação como positivo. “As diligências foram muito bem sucedidas. Todos os locais têm coisas apreendidas que servem para a investigação em curso. São muito exitosas as arrecadações, é a avaliação que a gente tem para fazer neste momento”, afirma.

Os investigadores tratam o caso dos camarotes como uma das portas de entrada para a apuração mais ampla sobre suspeitas de irregularidades financeiras no São Paulo. O esquema, segundo depoimentos e mensagens obtidos pela polícia, envolve a negociação paralela de espaços nobres do Morumbi, à margem do controle oficial do clube, com pagamento em espécie e pouca rastreabilidade.

Camarotes ilegais expõem crise política e financeira

A descoberta da venda clandestina de camarotes alimenta uma crise que se espalha pelos corredores do Morumbi desde 2024. A revelação de que pessoas próximas ao comando do clube discutem, em áudios, a exploração irregular desses espaços atinge diretamente a cúpula tricolor e ajuda a empurrar o presidente Julio Casares para o centro de uma disputa política sem precedentes recentes.

O caso ganha força no Conselho Deliberativo, que passa a cobrar explicações sobre contratos, ingressos e fluxo de dinheiro em jogos e grandes eventos. A pressão se converte em números concretos: a partir das acusações, conselheiros articulam o processo de impeachment de Casares, aprovado em votação interna que afasta o dirigente da presidência. Desde então, Harry Massis assume o comando do São Paulo de forma interina.

O desgaste não se limita ao episódio dos camarotes. Casares é alvo de outra frente de investigação da Polícia Civil, que apura o recebimento de R$ 1,5 milhão em depósitos fracionados, entre 2021 e 2025, diretamente em sua conta bancária. Em paralelo, há um inquérito sobre 35 saques nas contas do clube, que somam R$ 11 milhões no mesmo período. Os investigadores tentam entender a origem, o destino e a justificativa contábil desses valores.

A sucessão de revelações alimenta o clima de instabilidade entre conselheiros, funcionários e torcedores. Em campo, o time tenta manter a rotina. Na véspera da operação, o elenco encerra a preparação para enfrentar a Portuguesa pelo Paulistão, enquanto o noticiário fora das quatro linhas se volta para as investigações e para a disputa política que pode redesenhar o comando do clube.

Dirigentes ouvidos reservadamente admitem preocupação com o impacto da crise sobre receitas futuras, negociação de patrocínios e a imagem institucional do São Paulo. A cúpula interina promete transparência, mas evita dar detalhes sobre contratos e auditorias internas antes da conclusão das investigações criminais.

Pressão por transparência e disputa pelo futuro do clube

As apreensões desta quarta-feira alimentam a expectativa de novos desdobramentos na esfera criminal e dentro do próprio São Paulo. O material recolhido pode reforçar a narrativa de acusadores ou servir à defesa dos envolvidos, caso não confirme o elo entre a venda irregular de camarotes e o topo da gestão.

No campo político, o processo de impeachment de Julio Casares avança para uma etapa decisiva. Depois da votação no Conselho, caberá a uma Assembleia Geral de sócios decidir se o dirigente é definitivamente afastado ou se retorna ao cargo. O calendário ainda não está definido, mas corre paralelo às investigações sobre os R$ 1,5 milhão em depósitos e os R$ 11 milhões em saques.

Especialistas em gestão esportiva avaliam que o caso deve acelerar a adoção de mecanismos de controle interno mais rígidos em clubes associativos, como compliance independente, revisão de estatutos e limites claros para movimentações financeiras sem lastro documental. No São Paulo, conselheiros já discutem auditorias externas e mudanças na forma de fiscalização do presidente.

Torcedores organizados e sócios ativos cobram respostas objetivas e prazos. Nas redes sociais, a operação de busca e apreensão domina o debate, ofusca a estreia no estadual e amplia a cobrança por transparência em contratos de camarote, bilheteria e eventos no Morumbi.

A investigação sobre a venda ilegal de camarotes e as suspeitas de irregularidades financeiras coloca o São Paulo diante de uma encruzilhada. As próximas decisões da Justiça e dos sócios vão definir se o clube limita o caso a alguns dirigentes ou se promove uma revisão mais profunda de sua governança. A pergunta que permanece aberta é se a crise atual será um ponto de ruptura ou apenas mais um capítulo em uma disputa de poder que se repete no futebol brasileiro.

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