Polícia de SC diz que vídeo de caso ‘Cão Orelha’ é apenas ilustrativo
A Polícia Civil de Santa Catarina esclarece, nesta sexta-feira (6), que o vídeo divulgado no caso do adolescente conhecido como “Cão Orelha” é apenas ilustrativo. A corporação afirma que a imagem serve para mostrar a circulação do jovem e não registra o momento de qualquer agressão. O recuo tenta conter a onda de interpretações erradas que se espalha desde a divulgação do material.
Vídeo apresentado vira foco de dúvida
O esclarecimento ocorre poucas horas depois de a gravação ganhar espaço em portais de notícia, telejornais e redes sociais. Um frame do vídeo aparece em material institucional da própria Polícia Civil, o que leva parte do público a entender que se trata de registro direto da suposta agressão contra o adolescente. A corporação agora insiste que a cena não mostra o ato de violência, mas apenas um recorte do deslocamento do jovem por Santa Catarina.
O caso envolvendo o adolescente, apelidado de “Cão Orelha”, já mobiliza delegacias especializadas e setores de inteligência. O nome completo do jovem é preservado por se tratar de menor de idade, regra prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, em vigor desde 1990. Sob pressão de familiares, defensores de direitos humanos e da opinião pública, cada detalhe oficialmente apresentado passa a ser examinado em tempo real. Nesse ambiente, qualquer ambiguidade na fala da polícia vira combustível para teorias, suspeitas e desconfianças.
Transparência em xeque e disputa de narrativas
O vídeo entra no debate público como peça de prova, ainda que a polícia, agora, tente enquadrá-lo como apoio visual. O material circula em reportagens de televisão e em pelo menos três grandes portais nacionais ao longo de 24 horas, quase sempre acompanhado da indicação de que integraria o conjunto de evidências sobre a violência sofrida por “Cão Orelha”. O esclarecimento desta sexta busca corrigir essa leitura. Internamente, delegados e investigadores reforçam que a imagem é demonstrativa, usada para situar o trajeto do adolescente no tempo e no espaço.
O recado, porém, chega depois de a narrativa inicial já ter se consolidado em parte do público. Em grupos de WhatsApp e perfis no X, antigo Twitter, usuários tratam o vídeo como se mostrasse a agressão, o que não ocorre. Especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem apontam que episódios assim desgastam a confiança no trabalho policial. Para um ex-chefe de polícia consultado reservadamente, “toda vez que uma imagem é apresentada sem contexto preciso, abre-se espaço para desinformação”. A Polícia Civil tenta, agora, reconstruir o percurso da informação e afastar a ideia de manipulação deliberada.
Impacto na investigação e na opinião pública
A confusão em torno do vídeo tem efeito direto sobre a percepção da investigação. Organizações de direitos humanos relatam aumento de pedidos de esclarecimento desde a noite de quinta-feira, quando o frame começa a circular de forma mais intensa. Advogados que acompanham o caso avaliam que a imprecisão na apresentação das imagens pode ser explorada em eventuais disputas judiciais. A defesa de investigados, por exemplo, pode alegar que houve tentativa de influenciar a opinião pública com material que não retrata o fato central.
O episódio reacende um debate que acompanha a polícia brasileira há pelo menos duas décadas: até que ponto a exposição de vídeos e fotos em investigações ajuda na transparência ou alimenta julgamentos antecipados. Em casos de grande repercussão, como operações da Lava Jato a partir de 2014 ou inquéritos sobre violência policial em 2020, o uso de imagens em coletivas já provoca distorções de interpretação. Agora, o caso “Cão Orelha” entra nessa lista de exemplos usados por especialistas para defender protocolos mais rígidos na divulgação de material sensível, sobretudo quando envolve adolescentes.
O que muda a partir de agora
A Polícia Civil de Santa Catarina indica que revisa procedimentos internos de comunicação. Integrantes da cúpula discutem a adoção de avisos mais claros, ainda no próprio vídeo, sobre o caráter ilustrativo de determinadas cenas. A expectativa é que novas peças só sejam divulgadas com legendas padronizadas e notas técnicas anexas, detalhando o que cada imagem mostra, em que data foi gravada e qual é o limite de sua interpretação. A medida busca reduzir a margem para leituras equivocadas e proteger o andamento da investigação.
O caso do adolescente “Cão Orelha” segue em sigilo relativo, mas sob forte escrutínio social. A família acompanha cada manifestação oficial, enquanto entidades cobram garantias de proteção integral ao jovem durante o processo. A própria polícia sabe que, a partir deste episódio, qualquer erro de comunicação tende a ser amplificado. A forma como a instituição lida com as próximas divulgações, sejam laudos, depoimentos ou novas imagens, vai indicar se o esclarecimento de hoje representa uma mudança real de postura ou apenas uma correção pontual em meio à crise de confiança.
