Polícia cumpre mandados em casas de adolescentes por morte do cão Orelha
A Polícia Civil de Florianópolis cumpre, na manhã desta segunda-feira (26), quatro mandados de busca e apreensão em casas de adolescentes suspeitos de participação na morte do cão Orelha. A ação tenta esclarecer as agressões que resultam na morte do animal e reunir provas sobre a responsabilidade de cada envolvido.
Repercussão leva caso à linha de frente da polícia
Os mandados são cumpridos em diferentes bairros de Florianópolis, em endereços ligados diretamente aos quatro adolescentes investigados. Policiais deixam as delegacias nas primeiras horas da manhã e seguem para as residências com foco na apreensão de celulares, computadores, roupas, possíveis instrumentos usados na agressão e qualquer registro da violência, inclusive fotos, vídeos ou mensagens.
A morte do cão Orelha, vítima de agressões físicas, ocorre dias antes e rapidamente ganha as redes sociais, grupos de bairro e noticiários locais. Moradores organizam abaixo-assinados digitais, acumulam centenas de assinaturas em poucas horas e pressionam o poder público por uma resposta rápida. Delegados da capital afirmam, em caráter reservado, que a comoção acelera a priorização do caso e leva a investigação para o topo da pauta da unidade responsável por crimes contra animais.
Investigação mira provas digitais e padrão de violência
Os investigadores trabalham com a hipótese de que a agressão ao cão não é um ato isolado, mas parte de um comportamento de risco entre os adolescentes. A análise de celulares e redes sociais busca entender se houve combinação prévia, incentivo de terceiros, incentivo em grupos de mensagens ou eventual tentativa de ocultar provas após o crime. A expectativa é que peritos iniciem o tratamento do material apreendido ainda nesta semana, com laudos preliminares em até dez dias.
Delegados ouvidos pela reportagem explicam que, em casos envolvendo menores de 18 anos, o procedimento tramita na esfera da Infância e Juventude, com possibilidade de medidas socioeducativas em vez de penas de prisão. O foco imediato, porém, é comprovar o que cada um faz na cena da agressão e se todos participam ativamente. “A sociedade precisa entender que maus-tratos a animais são crime desde 1998 e tiveram punições ampliadas em 2020”, afirma um investigador, citando a legislação que prevê até 5 anos de reclusão para quem maltrata cães e gatos, além de multa e proibição de guarda.
Comoção expõe avanço e limites da proteção animal
A reação ao caso Orelha não se restringe à vizinhança. Entidades de proteção animal de Santa Catarina apontam crescimento nas denúncias de maus-tratos nos últimos anos, impulsionado por redes sociais e pela Lei 14.064, sancionada em 2020, que endurece a punição para violência contra cães e gatos. Em Florianópolis, voluntários lembram que, apesar do avanço legal, muitas ocorrências ainda terminam sem responsabilização efetiva, sobretudo quando não há flagrante ou registro em vídeo.
A morte do cão expõe também um ponto sensível: a participação de adolescentes em episódios de crueldade. Especialistas em comportamento juvenil ouvidos pela reportagem defendem que o caso não seja tratado apenas como fato policial, mas como alerta para escolas, famílias e assistentes sociais. A literatura internacional registra, há pelo menos três décadas, a ligação entre violência contra animais na adolescência e maior risco de envolvimento com outros crimes no futuro. O episódio, avaliam, pode funcionar como gatilho para políticas de prevenção, com foco em educação, orientação familiar e acompanhamento psicológico.
Pressão social pode mudar rotina de denúncias
A repercussão do caso já altera a rotina de órgãos públicos e organizações não governamentais em Florianópolis. Delegacias registram aumento nas ligações de vizinhos relatando barulhos de agressão, animais presos em correntes curtas, abandono em terrenos baldios e falta de alimentação adequada. Boa parte dessas queixas, que antes ficava restrita a conversas de condomínio ou grupos de bairro, passa a ser formalizada, gerando boletins de ocorrência e pedidos de fiscalização.
Integrantes de coletivos de proteção animal dizem esperar que a operação desta segunda-feira sirva como recado direto: agressões como as sofridas pelo cão Orelha deixam de ser vistas como “brincadeira” ou excesso pontual e passam a ser tratadas como crime, com investigação, laudos e possíveis medidas judiciais. A Polícia Civil, por sua vez, indica que o inquérito deve avançar ao longo das próximas semanas, com oitivas de testemunhas, análise dos laudos periciais e definição de quais adolescentes serão responsabilizados. A resposta concreta das autoridades, avaliam moradores, dirá se a comoção em torno de um único cachorro será capaz de produzir mudanças duradouras na forma como a cidade enxerga e combate a crueldade contra animais.
